terça-feira, 27 de setembro de 2016

E puseram-se a caminho...

       Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação.
(Lc 9, 51-56)
       A vida ninguém para tira, sou Eu que a dou livremente. Jesus oferece a Sua vida pela salvação da humanidade inteira, substitui-nos na Cruz. Inocente, sem mancha, morre pelos pecadores, livra-nos da morte eterna, coloca-nos em Deus. Com efeito, a natureza humana vai com Jesus para a direita de Deus Pai.
       Hoje vemos como a firmeza de Jesus se afirma no caminho a percorrer.
       Nos discípulos há uma réstia de esperança, de que não se concretize o anúncio da Sua paixão. Jesus sabe que é inevitável. A consequência do amor à humanidade, leva-O até ao fim, até à Cruz.

São Vicente de Paulo, presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu na Aquitânia em 1581. Completados os estudos e ordenado sacerdote, exerceu o ministério paroquial em Paris. Fundou a Congregação da Missão, destinada à formação do clero e ao serviço dos pobres; com a ajuda de S. Luísa de Marillac instituiu também a Congregação das Filhas da Caridade. Morreu em Paris no ano 1660.
Oração de colecta:
       Senhor, Deus de bondade, que enriquecestes o presbítero São Vicente de Paulo com virtudes apostólicas para se entregar ao serviço dos pobres e à formação dos pastores do vosso povo, concedei-nos que, animados pelo mesmo espírito, amemos o que ele amou e pratiquemos o que ele ensinou. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Vicente de Paulo, presbítero

O serviço dos pobres deve ser preferido acima de tudo

A nossa atitude para com os pobres não se deve regular pela sua aparência externa nem sequer pelas suas qualidades interiores. Devemos considerá-los, antes de mais, à luz da fé. O Filho de Deus quis ser pobre e ser representado pelos pobres. Na sua paixão, quase perdeu o aspecto de homem; apareceu como um louco para os gentios e um escândalo para os judeus. Todavia, apresentou-Se a estes como evangelizador dos pobres: Enviou-Me para evangelizar os pobres. Também nós devemos ter os mesmos sentimentos de Cristo e imitar o que Ele fez: cuidar dos pobres, consolá-los, socorrê-los e recomendá-los.
Cristo quis nascer pobre, chamar para sua companhia discípulos pobres, servir os pobres e identificar se com os pobres, a ponto de dizer que o bem ou o mal feito a eles o tomaria como feito a Si mesmo. Deus ama os pobres, e por conseguinte ama também aqueles que os amam. Na verdade, quando alguém tem especial afecto a uma pessoa, estende também este afecto aos seus amigos e servos. Por isso temos razão para esperar que, por causa do nosso amor dos pobres, também nós seremos amados por Deus.
Quando os visitamos, procuremos compreender a sua pobreza e infelicidade para sofrer com eles e ter os sentimentos de que fala o Apóstolo, quando diz: Fiz-me tudo para todos. Esforcemo-nos por sentir profundamente as preocupações e misérias dos nossos semelhantes; peçamos a Deus que nos dê o espírito de misericórdia e compaixão e que conserve sempre em nossos corações estes sentimentos.
O serviço dos pobres deve ser preferido a todos os outros e deve ser prestado sem demora. Se durante o tempo de oração, tiverdes de levar um medicamento ou qualquer auxílio a um pobre, ide tranquilamente, oferecendo a Deus essa boa obra como prolongamento da oração. E não tenhais nenhum escrúpulo ou remorso de consciência se, para prestar serviço aos pobres, tivestes de deixar a oração. De facto não se trata de deixar a Deus, se é por amor de Deus que deixamos a oração: servir um pobre é também servir a Deus.
A caridade é a máxima norma, e tudo deve tender para ela; é uma grande senhora: devemos cumprir o que ela manda. Renovemos, portanto, o nosso espírito de serviço aos pobres, principalmente para com os mais abandonados. Esses hão de ser os nossos senhores e protetores.
Sobre São Vicente de Paulo, neste blogue, aqui!

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

São Cosme e São Damião, Mártires

Nota biográfica:
       Cosme e Damião eram irmãos gémeos, médicos de profissão e santos na vocação da vida. Viveram no Oriente e, desde jovens, médicos competentes e dedicados. Com a conversão passaram a ser também missionários, à medicina associaram a confiança no poder da oração e a muitos levaram a saúde do corpo e da alma.
       Como tantos outros homens e mulheres, também Cosme e Damião foram vítimas da
perseguição de Diocleciano. Forma presos, pelo ano 300 da era cristã, sendo considerados inimigos dos deuses e acusados de usar feitiçarias e meios diabólicos para disfarçar as curas. Em resposta à acusação, a sua resposta é uma profissão de fé, clara e decidida: "Nós curamos as doenças, em nome de Jesus Cristo e pelo seu poder!"
       Quanto aos deuses, proclamados em nome do Imperador, e cuja a adoração os libertaria da prisão e da morte, eles respondiam com firmeza: "Teus deuses não têm poder algum, nós adoramos o Criador do céu e da terra!"
      Foram decapitados no ano de 303. São considerados os padroeiros dos farmacêuticos, médicos e das faculdades de medicina.

Oração depois da Comunhão:
       Conservai em nós, Senhor, este dom que recebemos da vossa bondade, ao celebrarmos a memória dos santos mártires Cosme e Damião e fazei que ele seja para nós fonte de salvação e de paz. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Santo Agostinho, bispo

É preciosa a morte dos mártires cujo preço foi a morte de Cristo

Diante de tão gloriosas heroicidades dos santos mártires, com que floresce a Igreja por toda a parte, verificamos com os nossos próprios olhos quanto é verdadeiro o que cantámos: É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus fiéis; porque é preciosa aos nossos olhos e aos olhos d’Aquele por cujo nome se ofereceu.
Mas o preço destas mortes é a morte de um só. Quantas mortes terá resgatado a morte de um só, que, se não morresse, seria como o grão de trigo que não frutifica? Recordais as suas palavras, quando Se aproximava da paixão, isto é, quando Se aproximava da nossa redenção: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, permanece só; mas se morrer, dá muito fruto.
Ele fez realmente na cruz um grande negócio. Aí foi aberta a bolsa que tinha o preço do nosso resgate: quando o seu lado foi aberto pela lança do soldado, dele saiu o preço do mundo inteiro. Foram resgatados os fiéis e os mártires; mas a fé dos mártires foi comprovada; o testemunho é o sangue derramado. Retribuíram o que tinha sido pago em seu favor, cumprindo o que diz São João: Assim como Cristo deu a sua vida por nós, também nós devemos dar a vida pelos irmãos. E noutro lugar diz se: Se te sentas a uma grande mesa, repara com atenção no que te servem, porque também tu deves preparar coisa igual.
Grande mesa é aquela em que os manjares são o próprio Senhor da mesa! Ninguém se dá a si mesmo aos convivas em alimento; isto fá-lo Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é quem convida, Ele é o alimento e a bebida. Compreenderam bem os mártires o que comeram e beberam, para retribuírem de igual modo.
Mas com que retribuiriam eles, se Aquele que foi o primeiro a pagar não lhes desse com que retribuir? Que retribuirei ao Senhor por tudo quanto me concedeu? Tomarei o cálice da salvação. Que cálice é este? É o cálice da paixão, amargo mas salutar, o cálice em que o doente recearia tocar, se o médico não bebesse primeiro. Ele próprio é este cálice; reconhecemos este cálice pelas palavras de Cristo, quando dizia: Pai, se é possível, afaste se de Mim este cálice. Do mesmo cálice disseram os mártires: Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor.
E não temes que para isso te faltem as forças? Não, responde o mártir, porque invocarei o nome do Senhor. Como poderiam os mártires vencer, se não vencesse nos mártires Aquele que disse: Alegrai-vos, porque Eu venci o mundo? O Senhor dos Céus dirigia o espírito e a palavra deles; por eles vencia o demónio na terra e coroava os mártires no Céu. Oh bem aventurados aqueles que assim beberam deste cálice! Terminaram as dores e receberam as honras.

sábado, 24 de setembro de 2016

XXVI Domingo do Tempo Comum - ano C - 25.09.2016

       1 – O que nos distancia de Jesus Cristo e do Seu Evangelho não são os bens materiais, mas a ganância, a avareza, a prepotência, a sobranceria, a autossuficiência, a presunção, a soberba. Tudo o que nos afasta dos outros afasta-nos de Deus.
       O contrário da pobreza de espírito não é a riqueza material mas a avareza. E aqui há cenários variados. Há pobres avarentos, que só não têm tudo porque não podem ou não têm nem inteligência nem ousadia para ultrapassar os outros. Há pobres que são generosos, simples, despojados e até o pouco que têm dá para ajudar os outros, sentindo-se felizes por ajudar, se não com bens, com o tempo, a criatividade e a alegria que preenche as suas vidas. Há ricos avaros, "chupam" tudo quanto lhes é possível, sem olhar a meios, contornando leis, com toda a espécie de maquinações para passarem a perna a todos. Há ricos, cuja riqueza material é fruto do trabalho honesto, esforçado, dedicado, e que lhes permite gerar riqueza, criar emprego, promover maior comodidade para as pessoas e para as empresas; beneficiam dos próprios bens e alargam os benefícios para os outros e para a sociedade.
       A parábola de Jesus responsabiliza-nos com os mais pobres. Refira-se uma vez mais que Jesus não está a falar para o vizinho. É para mim. É para ti. É para nós. Não nos é pedido o impossível. É-nos exigido o máximo, o melhor de nós mesmos. Umas vezes ajudando diretamente, outras envolvendo as pessoas ou as entidades que podem e devem ajudar.
       Jesus contesta o homem rico não pela riqueza que possui mas pela sua cegueira e egoísmo, pela incapacidade de sair do seu castelo e compartir a vida com os outros.
       2 – A descrição do homem rico e do pobre Lázaro, o contraste gritante que existe entre ambos e o muro levantado que protege um e deixa o outro na rua, é visível na atualidade. Também hoje convivem lado a lado a miséria e a opulência, a degradação humana e o luxo escandaloso. Em sociedades democráticas – todos deveriam ter os mesmos direitos, sendo que o exercício dos mesmos precisa de condições prévias –, os governos, por vezes, protegem apenas os poderosos e esquecem-se dos pobres.
         Do homem rico não se conhece o nome. Pode ser qualquer um de nós. Por outro lado, mais que apontar nomes, importa denunciar situações de injustiça e prepotência. Vestia de púrpura e linho fino e banqueteava-se esplendidamente todos os dias, fechado dentro dos portões, alheio ao sofrimento dos outros, alguns bem perto, do lado de fora, impedidos de entrar.
       Um pobre, chamado Lázaro. O nome já diz da sua pobreza. Os pobres não podem ser números. Não servem para usar como arma de arremesso. Não contam apenas por ocasião das eleições. Têm nome e têm rosto. E ainda hoje há tantos Lázaros, excluídos, sem casa, sem pão, sem família. Este jazia junto ao portão do homem rico, e estava coberto de chagas. À pobreza acresce a repugnância das chagas. A pobreza gera pobreza. Não pede muito, apenas as migalhas que caem da mesa do rico. Mas nem a migalhas lhe são permitidas. Se te fixares perto do riacho poderá suceder que a fertilidade das margens de beneficiem e te garantam algum alimento. Mas aqui a proximidade é apenas física e está vedada por um muro e um portão. Bem se pode dizer que por vezes os animais nos ensinam a ser mais humanos, sem absolutizar. Como tem acentuado o Papa Francisco, é um paradoxo escandaloso a defesa intransigente dos animais e o desprezo ou a indiferença diante de um ser humano.
        A descrição feita por Jesus bem pode encaixar nas sociedades modernas. É o mundo em que vivemos. Limitado e finito. Não estamos no Céu, daí as imperfeições. Mas...
        3 – Mas o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. A salvação é uma garantia de Deus, dom gratuito. A morte e a ressurreição de Jesus agrafa-nos à eternidade de Deus. Assumindo por inteiro o nosso pecado e a nossa fragilidade, Jesus colocou a nossa natureza humana na glória do Pai, onde Ele já Se encontra. Mas cabe-nos acolher a Sua salvação fazendo com que chegue a todos e se expanda cada vez mais.
       O que fizermos agora tem consequências amanhã. As escolhas do tempo influenciam a inserção na vida eterna. Qual efeito borboleta: segundo a teoria do caos, o bater das asas de uma borboleta em Portugal poderá provocar um terramoto do outro lado da terra.
       O relato da parábola continua: «O pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado».
       Curiosa esta última afirmação. Finalmente este homem rico viu Lázaro. Antes não o tinha visto. A ganância e a superioridade presunçosa cegaram-no. Só se preocupava consigo, com o seu umbigo. Um pobre ali tão perto, junto ao portão, do lado de fora, a padecer, e não foi capaz de o ver e de o ajudar. Agora tão longe, e como as situações se inverteram exponencialmente, já o vê e até deseja que Lázaro, enviado por Abraão, possa vir, entrar, aliviar o seu sofrimento. Enquanto podia alterar as coisas, modificar positivamente a vida, esqueceu-se dos outros. Agora que tudo está concluído quer alterar as regras do jogo, em seu benefício e dos seus, servindo-se de Lázaro a quem não serviu com os seus bens!
       4 – Na continuação da parábola, a insistência do rico: «Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento».
       Abraão põe-nos de sobreaviso: «Eles têm Moisés e os Profetas: que os oiçam... Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos».
       Mais que nos preocuparmos com o desfecho final, que a Deus confiamos, importa, no tempo presente, aqui e agora – não amanhã ou depois, não em outro lugar ou circunstâncias, mas no concreto dos nossos dias – viver o melhor, gastando a vida em favor de todos os que Deus coloca à nossa beira, testemunhando a beleza e a alegria da Boa Nova que Jesus nos traz com a Sua vida e com a oferenda de Si mesmo. E, como podemos constatar, Jesus ressuscitou dos mortos e, no entanto, ainda são muitos os que O desconhecem, os que não acreditam, os que vivem como se Ele não existisse.

       5 – A certeza que Deus Se coloca ao lado dos mais desfavorecidos deve levar-nos a agir do mesmo modo. "O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos. O Senhor ilumina os olhos dos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos".
       Já o Profeta Amós revelava a vontade de Deus: «Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria. Deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo. Improvisam ao som da lira e cantam como David as suas próprias melodias. Bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas não os aflige a ruína de José. Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».
       Amós faz eco da destruição do tecido social, cultural e religioso do povo judeu e que se iniciou com a displicência daqueles que tinham responsabilidade de guiar, cuidar, integrar, provendo à união e preparando o próprio povo para se defender dos ataques exteriores. Enquanto se banqueteavam, foram dispersados, assaltados, expulsos de casa e da pátria. Não nos cabe fazer juízo de valor definitivo, instrumentalizando o texto, concluindo que a destruição do povo tenha sido consequência do mau proceder dos seus líderes e, neste propósito, castigo de Deus. Mas, ainda assim, é fácil verificar que o egoísmo e o individualismo conduzem ao conflito, à rutura, à destruição dos laços sociais. Por outro lado, a união faz a força e a cooperação, a solidariedade e a partilha, a entreajuda e a justiça social, equilibram e fortalecem as comunidades.

       6 – São Paulo, na segunda leitura, ao dirigir-se a Timóteo, dita recomendações para os discípulos de Jesus. Hoje é para nós que fala, para mim e para ti: «Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas. Guarda o mandamento do Senhor, sem mancha e acima de toda a censura, até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo, a qual manifestará a seu tempo... A Ele a honra e o poder eterno».
       Também em São Paulo se pode atestar que a vida eterna se inicia agora na prática da caridade, da justiça, da mansidão, no cumprimento do mandato de Jesus Cristo, imitando-O, sabendo que só Ele nos garante o futuro, porém, conta connosco para transformar o presente do mundo e da história.
       Auxiliemo-nos mutuamente, a começar na oração: "Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis, derramai sobre nós a vossa graça, para que, correndo prontamente para os bens prometidos, nos tornemos um dia participantes da felicidade celeste".
       Rezando, tomando consciência dos nossos limites e da grandeza da misericórdia de Deus, dilatando o nosso coração e o nosso compromisso com os outros que connosco formam a família de Deus.


Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (C): Am 6, 1a. 4-7; Sl 145 (146); 1 Tim 6, 11-16; Lc 16, 19-31.

O Filho do homem vai ser entregue

       Estavam todos admirados com tudo o que Jesus fazia. Então Ele disse aos discípulos: «Escutai bem o que vou dizer-vos. O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens». Eles, porém, não compreendiam aquelas palavras; eram misteriosas para eles e não as entendiam. Mas tinham medo de O interrogar sobre tal assunto (Lc 9, 43b-45).
        Como canta um conhecido cantor da nossa praça, a vida tem dois lados, tem um lado negro, o lado lunar. É uma imagem mas que ajuda hoje a refletir sobre este pequeno trecho do Evangelho. Os discípulos de Jesus embarcam em euforia, bem assim como a multidão que segue Jesus.
       As palavras que saem da Sua boca têm sentido, implica os ouvintes, são concretizáveis na relação com os outros, são confirmadas pela prática de Jesus, que ensina com a autoridade de quem vive o que professa. Acompanha as palavras com gestos de acolhimento, de compreensão, de perdão, faz-Se próximo dos mais afastados, faz-Se amigo dos desprezados, intervém a favor dos desprotegidos, salva os que andam perdidos e ilumina os que andam nas trevas. Os prodígios são sinal que o poder de Deus está com Ele e está no meio de nós. Tudo parece encaminhar-se para um desfecho francamente positivo.
       Entretanto Jesus não esconde o que está para acontecer. Vai haver um tempo de provação, de "escuridão". Ele vai ser entregue às mãos dos homens. Tolda-se a mente dos discípulos. Por um lado admiram-se com tudo o que Jesus dizia e fazia. Por outro, o próprio Mestre os previne para não embarcarem em tais euforias. As palavras de Jesus suscitam outras interrogações. Os discípulos como que antevêem nas palavras de Jesus os perigos que se aproximam, mas nem perguntam com medo de que aconteça mesmo, preferem uma certa ignorância para não anteciparem o sofrimento futuro. É como quando adiamos a ida ao médico com medo ele nos revele que temos uma doença muito mais grave do que pensamos. Enquanto não soubermos parece que estamos a salvo...

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

E vós, quem dizeis que Eu sou?!

       Um dia, Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos. Então perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Eles responderam: «Uns, João Baptista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou». Disse-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «És o Messias de Deus». Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia» (Lc 9, 18-22).
       O Evangelho para este dia traz-nos a pergunta de Jesus aos discípulos: quem dizeis vós que Eu sou? A primeira pergunta questiona sobretudo o conhecimento acerca de Jesus, isto é, como é que as pessoas estão a reagir ao Evangelho, à pregação da Boa Nova. A segunda, é mais importante, pergunta-nos quem significa Ele para nós, de que forma influencia a minha / a nossa vida? Esta última questão é mais pessoal, exige uma resposta também pessoal, de cada um, uma resposta não apenas verbal, mas vital. Respondemos com o que somos e com o que fazemos com a nossa vida.

São Pio de Pietrelcina, presbítero

       Seguidor de São Francisco de Assis, o padre Pio nasceu no dia 25 de Maio de 1887, em Pietrelcina, Benevento, Itália. Foi baptizado no dia seguinte com o nome de Francisco. Celebrou os Sacramentos da Eucaristia (1.ª Comunhão) e do Crisma com 12 anos.
       Aos 16 anos, 6 de Janeiro de 1903, entrou no noviciado da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Tomando o hábito franciscano, passou a chamar-se Frei Pio.
       Foi ordenado sacerdote no dia 10 de Agosto de 1910, em Benevento. Por motivos de saúde, ficou na família até 1916. Em Setembro deste ano, foi enviado para o Convento de São Giovanni Rotondo.
       Procurou viver ao máximo a sua identificação com Deus, na direcção espiritual, na confissão de penitentes, na celebração da Eucaristia, onde ficava como enlevado para Deus.
       Em 5 de Maio de 1956, foi inaugurada a "Casa Alívio do Sofrimento", para atender os sofrimentos e a miséria das famílias carenciadas.
       A sua vida era oração constante: "Nos livros procuramos Deus; na oração encontramo-l'O. A oração é a chave que abre o coração de Deus".
       Tal era a sua empatia com Deus e com o semelhante que o procuravam-no na Igreja, no confessionário, na sacristia, no convento. A todos acolhia.
       Tal como São Francisco de Assis, apareceram-lhe a chagas de Cristo, sentindo as suas dores.
       No seu serviço sacerdotal esteve sujeito a numerosas investigações por parte da Igreja. Foi vítima de acusações, de calúnias, permaneceu calado, confiando em Deus.
       Muito solicitado, mantinha-se humilde: "Quero ser apenas um pobre frade que reza".
       Faleceu no dia 23 de Setembro de 1968. Tinha 81 anos de idade.
       Foi beatificado no dia 2 de Maio de 1999, por João Paulo II, e canonizado no dia 16 de Junho de 2002, também por João Paulo II.

Oração de Colecta:
       Deus todo-poderoso e eterno, que destes a São Pio, sacerdote, a graça de participar de modo admirável na cruz do vosso Filho, e por meio do seu ministério renovastes as maravilhas da vossa misericórdia, concedei-nos, por sua intercessão, que, unidos constantemente á paixão de Cristo, tenhamos a alegria de alcançar a glória da ressurreição. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Ver comentário de BENTO XVI sobre o Padre Pio: AQUI. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

... E procurava ver Jesus

        O tetrarca Herodes ouviu dizer tudo o que Jesus fazia e andava perplexo, porque alguns diziam: «É João Baptista que ressuscitou dos mortos». Outros diziam: «E Elias que reapareceu». E outros diziam ainda: «É um dos antigos profetas que ressuscitou». Mas Herodes disse: «A João mandei-o eu decapitar. Mas quem é este homem, de quem oiço dizer tais coisas?». E procurava ver Jesus (Lc 9, 7-9).
        Em muitas situações da vida é necessário que vejamos, que façamos a experiência, que nos encontremos, que vivamos, e não apenas o conhecimento que nos chega através dos outros. Ao nível da fé a comunicação e o anúncio da palavra de Deus são essenciais. Mas não suficientes. É necessário fazer a experiência de encontro com Jesus crucificado e ressuscitado, sob pena da fé se tornar acessória, vazia, sem relevância para a vida.
       Herodes tem curiosidade. Não sabemos se é um impulso interior do Espírito de Deus, ou se é mera curiosidade intelectual ou coscuvilheira. De qualquer forma, para nós uma lição ou um desafio: ver Jesus, encontrarmo-nos com Ele, fazermos a experiência d'Ele na nossa vida. E assim a fé será encorpada e dará sentido às outras dimensões da nossa vida.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

BENTO XVI: Peregrinos da Verdade, Peregrinos da Paz



DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Assis, Basílica de Santa Maria dos Anjos
Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

Queridos irmãos e irmãs,
distintos Chefes e representantes das Igrejas
e Comunidades eclesiais e das religiões do mundo,
queridos amigos,

Passaram-se vinte e cinco anos desde quando pela primeira vez o beato Papa João Paulo II convidou representantes das religiões do mundo para uma oração pela paz em Assis. O que aconteceu desde então? Como se encontra hoje a causa da paz? Naquele momento, a grande ameaça para a paz no mundo provinha da divisão da terra em dois blocos contrapostos entre si. O símbolo saliente daquela divisão era o muro de Berlim que, atravessando a cidade, traçava a fronteira entre dois mundos. Em 1989, três anos depois do encontro em Assis, o muro caiu, sem derramamento de sangue. Inesperadamente, os enormes arsenais, que estavam por detrás do muro, deixaram de ter qualquer significado. Perderam a sua capacidade de aterrorizar. A vontade que tinham os povos de ser livres era mais forte que os arsenais da violência. A questão sobre as causas de tal derrocada é complexa e não pode encontrar uma resposta em simples fórmulas. Mas, ao lado dos factores económicos e políticos, a causa mais profunda de tal acontecimento é de carácter espiritual: por detrás do poder material, já não havia qualquer convicção espiritual. Enfim, a vontade de ser livre foi mais forte do que o medo face a uma violência que não tinha mais nenhuma cobertura espiritual. Sentimo-nos agradecidos por esta vitória da liberdade, que foi também e sobretudo uma vitória da paz. E é necessário acrescentar que, embora neste contexto não se tratasse somente, nem talvez primariamente, da liberdade de crer, também se tratava dela. Por isso, podemos de certo modo unir tudo isto também com a oração pela paz.

Mas, que aconteceu depois? Infelizmente, não podemos dizer que desde então a situação se caracterize por liberdade e paz. Embora a ameaça da grande guerra não se aviste no horizonte, todavia o mundo está, infelizmente, cheio de discórdias. E não é somente o facto de haver, em vários lugares, guerras que se reacendem repetidamente; a violência como tal está potencialmente sempre presente e caracteriza a condição do nosso mundo. A liberdade é um grande bem. Mas o mundo da liberdade revelou-se, em grande medida, sem orientação, e não poucos entendem, erradamente, a liberdade também como liberdade para a violência. A discórdia assume novas e assustadoras fisionomias e a luta pela paz deve-nos estimular a todos de um modo novo.

Procuremos identificar, mais de perto, as novas fisionomias da violência e da discórdia. Em grandes linhas, parece-me que é possível individuar duas tipologias diferentes de novas formas de violência, que são diametralmente opostas na sua motivação e, nos particulares, manifestam muitas variantes. Primeiramente temos o terrorismo, no qual, em vez de uma grande guerra, realizam-se ataques bem definidos que devem atingir pontos importantes do adversário, de modo destrutivo e sem nenhuma preocupação pelas vidas humanas inocentes, que acabam cruelmente ceifadas ou mutiladas. Aos olhos dos responsáveis, a grande causa da danificação do inimigo justifica qualquer forma de crueldade. É posto de lado tudo aquilo que era comummente reconhecido e sancionado como limite à violência no direito internacional. Sabemos que, frequentemente, o terrorismo tem uma motivação religiosa e que precisamente o carácter religioso dos ataques serve como justificação para esta crueldade monstruosa, que crê poder anular as regras do direito por causa do «bem» pretendido. Aqui a religião não está ao serviço da paz, mas da justificação da violência.

A crítica da religião, a partir do Iluminismo, alegou repetidamente que a religião seria causa de violência e assim fomentou a hostilidade contra as religiões. Que, no caso em questão, a religião motive de facto a violência é algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente. De modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a religião como causa de violência também nas situações onde esta é exercida por defensores de uma religião contra os outros. O que os representantes das religiões congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer – e nós o repetimos com vigor e grande firmeza – era que esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição. Contra isso, objecta-se: Mas donde deduzis qual seja a verdadeira natureza da religião? A vossa pretensão por acaso não deriva do facto que se apagou entre vós a força da religião? E outros objectarão: Mas existe verdadeiramente uma natureza comum da religião, que se exprima em todas as religiões e, por conseguinte, seja válida para todas? Devemos enfrentar estas questões, se quisermos contrastar de modo realista e credível o recurso à violência por motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do diálogo inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro. Como cristão, quero dizer, neste momento: É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família. A Cruz de Cristo é, para nós, o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome é «Deus do amor e da paz» (2 Cor 13,11). É tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela fé cristã, purificar continuamente a religião dos cristãos a partir do seu centro interior, para que – apesar da fraqueza do homem – seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.

Se hoje uma tipologia fundamental da violência tem motivação religiosa, colocando assim as religiões perante a questão da sua natureza e obrigando-nos a todos a uma purificação, há uma segunda tipologia de violência, de aspecto multiforme, que possui uma motivação exactamente oposta: é a consequência da ausência de Deus, da sua negação e da perda de humanidade que resulta disso. Como dissemos, os inimigos da religião vêem nela uma fonte primária de violência na história da humanidade e, consequentemente, pretendem o desaparecimento da religião. Mas o «não» a Deus produziu crueldade e uma violência sem medida, que foi possível só porque o homem deixara de reconhecer qualquer norma e juiz superior, mas tomava por norma somente a si mesmo. Os horrores dos campos de concentração mostram, com toda a clareza, as consequências da ausência de Deus.

Aqui, porém, não pretendo deter-me no ateísmo prescrito pelo Estado; queria, antes, falar da «decadência» do homem, em consequência da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma alteração do clima espiritual. A adoração do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contra-religião, na qual já não importa o homem, mas só o lucro pessoal. O desejo de felicidade degenera num anseio desenfreado e desumano como se manifesta, por exemplo, no domínio da droga com as suas formas diversas. Aí estão os grandes que com ela fazem os seus negócios, e depois tantos que acabam seduzidos e arruinados por ela tanto no corpo como na alma. A violência torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, ameaça destruir a nossa juventude. Uma vez que a violência se torna uma coisa normal, a paz fica destruída e, nesta falta de paz, o homem destrói-se a si mesmo.

A ausência de Deus leva à decadência do homem e do humanismo. Mas, onde está Deus? Temos nós possibilidades de O conhecer e mostrar novamente à humanidade, para fundar uma verdadeira paz? Antes de mais nada, sintetizemos brevemente as nossas reflexões feitas até agora. Disse que existe uma concepção e um uso da religião através dos quais esta se torna fonte de violência, enquanto que a orientação do homem para Deus, vivida rectamente, é uma força de paz. Neste contexto, recordei a necessidade de diálogo e falei da purificação, sempre necessária, da vivência da religião. Por outro lado, afirmei que a negação de Deus corrompe o homem, priva-o de medidas e leva-o à violência.

Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas. Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que crêem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível. Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro grupo para o nosso Encontro em Assis, que não reúne somente representantes de instituições religiosas. Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito. Concluindo, queria assegura-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz».

São Mateus, Apóstolo e Evangelista

       Mateus foi chamado por Jesus no seu posto de cobrança. Era conhecido como publicano, o que equivalia a ser tido como traidor para com o povo judeu. Os cobradores de impostos estavam ao serviço do império romano, o povo opressor. E, por outro lado, os impostos eram muito elevados, pois visavam sustentar toda a máquina da opressão, soldados, oficiais, dirigentes, para lá dos impostos que beneficiavam directamente o cobrador.
       Exercia a sua profissão em Cafarnaum. Dotado de certa cultura.
       Deixa tudo para seguir Jesus.
       De Apóstolo, torna-se evangelista. Recolhe informações sobre a vida e a missão de Jesus e põe por escrito, no Evangelho que leva o seu nome, escrito entre 62 e 70 da nossa era.
       "Naquele tempo, Jesus ia a passar, quando viu um homem chamado Mateus, sentado no seu posto de cobrança dos impostos, e disse-lhe: 'Segue-me?. Ele levantou-se e seguiu Jesus" (Mt 9, 9-13).

Oração de colecta:
       Senhor nosso Deus, que, na vossa infinita misericórdia, escolhestes o publicano Mateus para vosso Apóstolo, concedei-nos que, ajudados pelo seu exemplo e intercessão, Vos sigamos fielmente e nos entreguemos a Vós de todo o coração. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

HOMILIA que se segue serviu de inspiração a Francisco para o lema episcopal, e que manteve como Papa: miserando atque eligendo - olhou-o com misericórdia e escolheu-o...

Das Homilias de São Beda Venerável, presbítero

Jesus viu-o, compadeceu-Se dele e chamou-o

Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: Segue-Me. Viu-o não tanto com os olhos do corpo, como com o seu olhar interior, cheio de misericórdia. Jesus viu um publicano e compadeceu-Se dele; escolheu-o e disse-lhe: Segue-Me, isto é, imita-Me. Disse para O seguir não tanto com os seus passos como no modo de viver. Porque, quem diz que permanece em Cristo, deve também proceder como Ele procedeu.
Mateus levantou-se e seguiu-O. Não devemos admirar nos de que o publicano, ao primeiro chamamento do Senhor, abandonasse os negócios terrenos em que estava ocupado e, renunciando aos seus bens, seguisse Aquele que via totalmente desprovido de riquezas. É que o Senhor chamava o exteriormente com a sua palavra, mas iluminava o de um modo interior e invisível para que O seguisse, infundindo na sua mente a luz da graça espiritual, para que pudesse compreender que Aquele que na terra o afastava dos negócios temporais, lhe podia dar no Céu tesouros incorruptíveis.
E quando Ele estava sentado à mesa em sua casa, vieram muitos publicamos e pecadores e sentaram se à mesa com Jesus e os seus discípulos. A conversão de um publicano deu a muitos publicanos e pecadores um exemplo de penitência e de perdão. Foi, na verdade, um belo e feliz precedente: aquele que havia de ser apóstolo e doutor das gentes, atraiu consigo ao caminho da salvação, logo no primeiro momento da sua conversão, um numeroso grupo de pecadores. Deste modo, já desde os primeiros indícios da sua fé, começou o ministério de evangelização que mais tarde havia de desempenhar, quando chegasse à perfeição das suas virtudes.
Se desejamos compreender mais profundamente o significado destes factos, devemos observar que Mateus não se limitou a oferecer ao Senhor um banquete corporal na sua casa terrestre, mas preparou-Lhe com a sua fé e o seu amor um banquete muito mais agradável na morada interior do seu coração, segundo o testemunho d’Aquele que diz: Eu estou à porta e chamo; se alguém ouvir a minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo.
Tendo ouvido a sua voz, nós abrimos-Lhe a porta para O receber quando damos o nosso livre assentimento às suas advertências interiores ou exteriores e pomos em prática o que sabemos ser sua vontade. E Ele entra para cear, Ele connosco e nós com Ele, porque habita no coração dos eleitos pela graça do seu amor, para os alimentar continuamente com a luz da sua presença, a fim de que se elevem cada vez mais para os desejos celestes, e Ele próprio seja saciado com as aspirações eternas dos seus eleitos, que são o mais delicioso manjar que Lhe podem oferecer.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Minha família? Aqueles que ouvem a palavra de Deus...

       Vieram ter com Jesus sua Mãe e seus irmãos, mas não podiam chegar junto d’Ele por causa da multidão. Então disseram-Lhe: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-Te». Mas Jesus respondeu-lhes: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 8, 19-21).
       Os laços de sangue certamente são demasiado importantes. No entanto, nem só de laços de sangue nos alimentamos. Por um lado, constatamos amiúde que os laços de sangue nem sempre são suficientes para garantirem a segurança das pessoas, a vivência pacífica e solidária, a proteção dos vários membros. E dessa forma acabamos por concluir que mais importante que as "amarras" da consanguinidade são os sentimentos, o amor, os afetos. O ideal é que os laços de sangue sejam fortalecidos pelos laços da caridade. Sabendo nós que é do amor que nascem (e devem nascer) as famílias.
       Por outro lado, a família de Jesus era um espaço de amor, de diálogo, de apoio mútuo, aberta aos vizinhos, e aos estrangeiros e pobres que passavam ali por Nazaré, e a quem davam alimento e guarida. Por conseguinte, quando lhe falam da família, sem menosprezar antes inspirado na original, Jesus alarga a concepção da família e as condições para lhe pertencermos: escutar a palavra de Deus e pô-la em prática.

SS. André Kim Taegon, presbítero, Paulo Chong Hasang e Companheiros, mártires

Nota Biográfica:
       No início do século XVII, por iniciativa de alguns leigos, entrou pela primeira vez a fé cristã na Coreia. Assim se formou uma comunidade forte e fervorosa, sem pastores, quase só conduzida por leigos, até ao ano 1836, durante o qual chegaram os primeiros missionários, vindos de França, que entraram furtivamente na região. Nas perseguições dos anos 1839, 1846 e 1866, surgiram desta comunidade 103 santos mártires, entre os quais se distinguem o primeiro presbítero e ardente pastor de almas André Kim Taegon e o insigne apóstolo leigo Paulo Chong Hasang. Os outros são quase todos leigos, homens e mulheres, casados ou não, anciãos, jovens e crianças, que, suportando o martírio, consagraram com o seu glorioso sangue os florescentes primórdios da Igreja coreana.
Oração de colecta:
        Deus, criador e salvador de todos os povos, que, nas terras da Coreia, de modo admirável chamastes à fé católica um povo de adopção filial e o fizestes crescer pelo glorioso testemunho dos santos mártires André, Paulo e seus companheiros, concedei que, a seu exemplo e por sua intercessão, também nós permaneçamos até à morte fiéis aos vossos mandamentos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Da última exortação de Santo André Kim Taegon, presbítero e mártir

A fé é coroada pelo amor e pela perseverança

Irmãos e amigos caríssimos, pensai e refleti atentamente: No início dos tempos, Deus criou o céu e a terra e todo o universo; meditai por que razão e com que finalidade Ele formou o homem à sua imagem e semelhança, como diz a Escritura.
Portanto, se neste mundo de perigos e misérias, não reconhecêssemos o Senhor como nosso criador, de nada nos aproveitaria ter nascido e continuar a viver. Viemos a este mundo pela graça de Deus; pela graça de Deus recebemos o Batismo e entrámos na Igreja, tornando-nos discípulos do Senhor e adquirindo um nome glorioso. Mas de que serviria tão grande nome sem a verdadeira realidade? Perderia de facto todo o sentido ter vindo ao mundo e entrado na Igreja; mais ainda, seria uma ofensa ao Senhor e à sua graça. Mais valeria não ter nascido do que receber a graça do Senhor e pecar contra Ele.
Considerai o agricultor que faz a sementeira no seu campo: em tempo oportuno lavra a terra; depois aduba a e lança a semente, não se poupando a canseiras sob o ardor do sol. Quando chega o tempo da colheita, se encontra as espigas cheias de grão, exulta de alegria, esquecendo os trabalhos e suores. Mas se as espigas estão vazias e nada resta senão palha e cascas, então o agricultor, recordando a dureza dos trabalhos e suores, tanto mais decididamente abandona o campo quanto mais cuidadosamente o cultivara.
De modo semelhante, o Senhor faz do mundo o seu campo: nós somos o seu arroz; o adubo é a graça; mediante a Encarnação e Redenção Ele nos rega com o seu Sangue, para que possamos crescer e chegar à maturidade. Quando chegar o tempo da colheita, no dia do Juízo, quem estiver amadurecido pela graça gozará a felicidade no reino dos Céus, como filho adoptivo de Deus; mas aquele que não estiver amadurecido será seu inimigo, embora tenha sido, também ele, filho adoptivo de Deus, e merecerá ser punido com o castigo eterno.
Sabeis, irmãos caríssimos, que Nosso Senhor Jesus Cristo, vindo ao mundo, suportou inúmeras dores e pela sua Paixão fundou a santa Igreja, que continua a aumentar pela paixão dos seus fiéis. Por mais que os poderes deste mundo a oprimam e combatam, nunca poderão prevalecer. Depois da Ascensão de Jesus, desde os tempos dos Apóstolos até aos nossos dias, a santa Igreja por toda a parte cresceu no meio das tribulações.
Pois bem. Durante estes cinquenta ou sessenta anos, isto é, desde que a santa Igreja entrou na nossa Coreia, os fiéis sofreram constantes perseguições; e ainda hoje grassa o furor da perseguição, de tal modo que numerosos amigos foram encarcerados pela mesma fé, como eu próprio, e também vós permaneceis no meio da tribulação. Uma vez que formamos um só corpo, como não estar tristes no íntimo do coração? Como deixar de experimentar o sentimento humano desta separação dolorosa?
No entanto, como diz a Escritura, Deus vela pelo mais pequeno cabelo da nossa cabeça e toma o a seu cuidado na sua omnisciência; portanto, como poderemos considerar tão grande perseguição, senão como ordem de Deus ou sua recompensa ou porventura seu castigo?
Aceitai portanto a vontade de Deus e combatei corajosamente pelo capitão divino Jesus e vencei o demónio neste mundo, já vencido por Cristo.
Peço-vos, irmãos: não negligencieis o amor fraterno, mas ajudai vos mutuamente e sede perseverantes até que o Senhor tenha piedade de nós e afaste a tribulação.
Estamos aqui vinte pessoas e pela graça de Deus ainda todos se encontram de saúde. Se algum for morto, peço-vos que não vos esqueçais da sua família. Tenho muitas coisas a dizer-vos, mas como posso exprimi-las com papel e tinta? Termino a carta. Como estamos já próximos do combate, rogo-vos que vivais firmes na fé, de modo que um dia entremos no Céu e lá nos encontremos para gozar da alegria comum. Despeço-me com o ósculo do meu amor.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Não há nada oculto que não se torne manifesto

       Disse Jesus à multidão: «Ninguém acende uma lâmpada para a cobrir com uma vasilha ou a colocar debaixo da cama, mas coloca-a num candelabro, para que os que entram vejam a luz. Não há nada oculto que não se torne manifesto, nem secreto que não seja conhecido à luz do dia. Portanto, tende cuidado com a maneira como ouvis. Pois àquele que tem, dar-se-á; mas àquele que não tem, até o que julga ter lhe será tirado» (Lc 8, 16-18).
        Jesus dá-nos um conselho importante: não desperdicemos os talentos que Deus nos dá. E quanto mais os pusermos a render mais eles valem para nós e para os outros. Se ficarmos com os talentos para nós, não servem para os outros mas também não nos são úteis a nós. Quanto mais nos dermos, mais receberemos. O dom, com efeito, só o é verdadeiramente na partilha.
       A imagem da luz... quando acesa serve para alumiar toda a casa e toda a vida. Não se esconde. Para isso deixava-se ficar apagada. O que fazemos está sempre visível para nós e para Deus, pelo que a constante não deverá ser o medo mas o compromisso para deixarmos Deus agir em nós e através de nós. É também um convite à coerência de vida, entre o que mostramos e o que somos, entre o que damos aos outros a ver e aquilo que brota do nosso coração, entre o que podemos esconder e o que revelamos.
       A luz da Fé guia-nos para a verdade, para o bem, para Deus, compromete-nos com os outros e com a transformação do mundo em que vivemos. A fé é é obscurantismo que nos afasta da realidade ou encobre deficiências de compreensão ou de justificações nas dificuldades da vida. Como sublinha Bento XVI, e que Francisco visualiza, a Fé leva-nos além da dúvida. Não se opõe à ciência. Pressupõe-na, na certeza que o essencial, o amor, os afetos, a ligação aos outros, ultrapassa qualquer ciência positivista. A luz da Fé introduz-nos na alegria e na esperança. Não estamos sós e não desapareceremos com a morte.
       Hoje, escondo a minha fé? Por preguiça? Por comodismo? Ou deixo que a Luz da Fé me faça transparecer para os outros e para o mundo o Deus que me habita? Pelas palavras e pelos gestos, pela voz e pela vida?

sábado, 17 de setembro de 2016

XXV Domingo do Tempo Comum - ano C - 18.09.2016

       1 – A vocação primeira do cristão é seguir Jesus, como prioridade, como ponto de partida e de chegada, como compromisso. Não há alternativas. Nem tempo para pausas ou reservas. Não é para quando houver mais tempo ou maior disponibilidade, ou para quando as circunstâncias forem mais favoráveis. Seguir Jesus é a tarefa primeira e decorre da condição mesma do cristão. Como o nome indica somos de Cristo. Que não seja apenas de nome, mas de coração e por toda a vida!
       Não há nada antes. Nem depois. De Cristo por inteiro. Como inteiramente Ele Se nos deu, oferecendo-Se para nos redimir e nos elevar para Deus. Não são palavras. É a vida. Ou Deus ou o resto! Por vezes o resto é deixado para Deus! Quem comeu a carne coma também os ossos! Para Deus terá que ser a nossa vida, com os seus sonhos, projetos, concretizações. Não podemos servir a Deus e ao dinheiro. «Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedica a um e despreza o outro».
       As condições de discipulado são clarificadas por Jesus. Ao longo de alguns domingos, Jesus lembra-nos o que é necessário para nos tornarmos verdadeiros discípulos. Colocar-nos no Seu encalço, seguindo-O e imitando-O, não nos colocarmos à Sua frente, impedindo que outros O vejam, ou fazendo com que nos vejam a nós e não a Ele. Assumir uma atitude de ultimidade, ao serviço de todos, vivendo a vida como quem serve e não como quem está sempre à espera de ser servido. Quem não vive para servir, não serve para viver. Não são suficientes os propósitos, mas a mobilização para agir. Podemos falhar, pecar, errar, mas importa não desistir de procurarmos em tudo e com todos a glorificação de Deus que passa, inevitavelmente, por amarmos e cuidarmos uns dos outros.
       Nada nos deve separar de Cristo, pois nada existe que separe de nós o Amor de Deus, manifestado na vida, na morte e na ressurreição de Jesus. «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo... quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo» (Lc 14, 25-33). É uma preferência para incluir. Quem não tem tempo para Deus dificilmente terá tempo para os outros. Amar a Deus antes de todas as coisas, para não endeusar as coisas nem instrumentalizar as pessoas. Quem ama a Deus ama e cuida dos Seus filhos.
       2 – «Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não fostes fiéis no bem alheio, quem vos entregará o que é vosso?»
       A nossa vida passa pelos pormenores. E, por conseguinte, a nossa felicidade. Alguns casamentos fracassam não que tenha havido algum acontecimento extraordinário mas pelo desgaste da rotina, da indiferença, da desatenção aos pormenores, a falta de um elogio, a repetição de gestos que desagradam ao outro, o esquecer-se de perguntar pelo dia de trabalho ou como correu aquela conversa, chateando-se porque algo está fora do lugar habitual.
       Os momentos extraordinários existem. Em certos momentos plenizam a vida e celebram escolhas, trajetos, vivências. Noutros momentos, iniciam novas oportunidades, sonhos, propósitos, novas vidas. Contudo, se vivêssemos em festa diariamente deixava de ser festa para ser rotina. A vida escreve-se em cada segundo, minuto, em cada instante. É feita de pequenos nadas que nos enchem a alma e preenchem e dão sentido à vida: um passeio de bicicleta, a confeção de uma refeição, um sorriso de orelha a orelha, uma conversa com o/a melhor amigo/a, apanhar cerejas, plantar uma árvore, as primeiras palavras do/a filho/a, o cheiro a terra da primeira chuva de outono, uma recordação recuperada!
       Jesus continua a preparar os seus discípulos. Conta-lhes mais uma parábola. Um homem rico tinha um administrador que lhe desperdiçava os bens. Chama-o para prestar contas. Consciente que irá ser despedido, prepara-se para o futuro, chamando os devedores do seu senhor, aliviando-lhes as dívidas, através da alteração das notas de débito.
       Jesus elogia os filhos deste mundo pela sua esperteza, mas desafiando os filhos da luz a "usar" as mesmas armas no trato com os seus semelhantes. Tratá-los bem, com delicadeza, docilidade, ajudando-os, servindo-os, preparando a vida futura, a eternidade onde os semelhantes ajudados possam retribuir ao acolher-nos na eternidade.
       3 – Servir a Deus passa pela fidelidade nas pequenas coisas. Onde a vida germina e se resolve. Pelo cuidado com os nossos semelhantes. Deus garante-nos o Céu. Os nossos semelhantes são a eternidade que começa a despontar. Sem eles, o caminho para Deus fica bloqueado. Ainda que quiséssemos aceder diretamente a Deus, o próprio Deus Se fez um de nós, em Cristo Jesus, escondendo-Se no meio de nós. Para O encontrarmos temos a vida facilitada, encontramo-l'O no nosso próximo.
       O que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. O Senhor Deus "levanta do pó o indigente e tira o pobre da miséria, para o fazer sentar com os grandes, com os grandes do seu povo" (Salmo). Ninguém é inútil, ninguém está a mais, todos filhos de Deus. A opção de Deus, revelada em Jesus, Rosto e Presença da Misericórdia divina, é preferencial pelos desvalidos, os excluídos da vida, doentes, pobres, mulheres, crianças, pecadores, publicanos. Ofender e escandalizar um dos pequeninos, queridos e amados por Deus, é pecado que brada aos céus.
       O profeta Amós alerta-nos, em nome de Deus: "Escutai bem, vós que espezinhais o pobre e quereis eliminar os humildes da terra. Vós dizeis: «Quando passará a lua nova, para podermos vender o nosso grão? Quando chegará o fim de sábado, para podermos abrir os celeiros de trigo? Faremos a medida mais pequena, aumentaremos o preço, arranjaremos balanças falsas. Compraremos os necessitados por dinheiro e os indigentes por um par de sandálias. Venderemos até as cascas do nosso trigo». Mas o Senhor jurou pela glória de Jacob: «Nunca esquecerei nenhuma das suas obras».
       Não estamos sós. Ele segue connosco. Daí também a importância da oração, para nos mantermos ligados, ininterruptamente, e n'Ele adquirirmos a sabedoria do coração: "Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei no vosso amor e no amor do próximo, dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento, para alcançarmos a vida eterna" (oração de coleta).
       4 – O Apóstolo São Paulo, dirigindo-se a Timóteo, exorta-nos a fazer "preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todas as autoridades, para que possamos levar uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade". Na verdade, sublinha, "isto é bom e agradável aos olhos de Deus, nosso Salvador; Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou à morte pela redenção de todos... Quero, portanto, que os homens rezem em toda a parte, erguendo para o Céu as mãos santas, sem ira nem contenda".
       A oração dilata o nosso coração. Quanto mais perto de Deus mais disponíveis para os outros. Em Cristo, Deus vem salvar a humanidade inteira. Quanto mais nos inteirarmos da vontade de Deus, pela oração, maior a consciência de que Ele é Pai de todos, Pai de misericórdia e como Pai quer que todos os filhos se salvam. Se queremos ser Seus filhos, teremos de cuidar dos outros como irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Am 8, 4-7; Sl 112 (113); 1 Tim 2, 1-8; Lc 16, 1-13

São Roberto Belarmino, bispo e doutor da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu no ano de 1542 em Montepulciano, na Toscana. Entrou na Companhia de Jesus em Roma e foi ordenado sacerdote. Sustentou célebres disputas em defesa da fé católica e ensinou Teologia no Colégio Romano. Eleito cardeal e nomeado bispo de Cápua, contribuiu com a sua actividade junto das Congregações Romanas para a resolução de numerosos problemas. Morreu em Roma no ano 1621.
 
ORAÇÃO de coleta:
       Senhor, que nos destes em São Roberto Belarmino um exemplo admirável de ciência e fortaleza para defender a fé da vossa Igreja, por sua intercessão, concedei ao vosso povo a alegria de conservar a integridade da sua fé. Por Nosso Senhor. 
São Roberto Belarmino, bispo, sobre a elevação da mente para Deus

Inclinai o meu coração para os vossos mandamentos

Senhor, Vós sois bom, indulgente e cheio de misericórdia! Quem Vos não servirá de todo o coração, depois de ter começado a saborear, por pouco que seja, a suavidade do vosso domínio paterno? Que mandais, Senhor, aos vossos servos? Tomai o meu jugo sobre vós. E como é o vosso jugo? O meu jugo é suave e a minha carga é leve. Quem não tomará sobre si da melhor vontade um jugo que não oprime mas alivia, um fardo que não pesa mas reconforta? Por isso, com razão acrescentastes: E encontrareis descanso para as vossas almas. E qual é este vosso jugo que não traz fadiga mas descanso? Certamente, aquele primeiro e maior mandamento: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração. Que há de mais fácil, mais suave e mais doce do que amar a bondade, a beleza e o amor? E tudo isto sois Vós, Senhor meu Deus.
E prometeis ainda um prémio aos que observam os vossos mandamentos, sendo estes, já por si mesmos, mais preciosos que o ouro e mais doces que o mel dos favos? Sim, prometeis efectivamente um prémio, um prémio de imenso valor, segundo a palavra do apóstolo São Tiago: O Senhor prometeu a coroa da vida para aqueles que O amam. E o que é a coroa da vida? É o maior bem que podemos pensar ou desejar, como diz São Paulo, citando Isaías: Nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam.
Sim, é verdadeiramente grande a recompensa pela observância dos vossos mandamentos. E não é somente aquele primeiro e maior mandamento que é mais útil ao homem que obedece, do que a Deus que manda; todos os outros mandamentos de Deus aperfeiçoam, honram, instruem, iluminam e tornam bom e feliz aquele que os cumpre. Portanto, se tens alguma sabedoria, compreenderás que foste criado para a glória de Deus e para a tua salvação eterna. Este é o teu fim, este é o centro da tua alma, este é o tesouro do teu coração. Se alcançares este fim, serás feliz; se dele te afastares, serás infeliz.
Por conseguinte, deves considerar como verdadeiramente bom o que te conduz ao teu fim e como verdadeiramente mau o que dele te afasta. Para o sábio, a prosperidade e a adversidade, a riqueza e a pobreza, a saúde e a doença, a honra e a ignomínia, a vida e a morte, são coisas que, por si mesmas, nem se devem procurar nem evitar. Se contribuem para a glória de Deus e a tua felicidade eterna, são bens e devem ser desejados; se impedem essa glória e felicidade, são males e devem ser evitados.

O semeador saiu para semear a sua semente

        Ele falou-lhes por meio da seguinte parábola:
       «O semeador saiu para semear a sua semente. Quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho: foi calcada e as aves do céu comeram-na. Outra parte caiu em terreno pedregoso: depois de ter nascido, secou por falta de humidade. Outra parte caiu entre espinhos: os espinhos cresceram com ela e sufocaram-na. Outra parte caiu em boa terra: nasceu e deu fruto cem por um».
       Dito isto, exclamou: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça».
       Os discípulos perguntaram a Jesus o que significava aquela parábola e Ele respondeu:
       «A vós foi concedido conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros serão apresentados só em parábolas, para que, ao olharem, não vejam, e, ao ouvirem, não entendam. É este o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus. Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem, mas depois vem o diabo tirar-lhes a palavra do coração, para que não acreditem e se salvem. Os que estão em terreno pedregoso são aqueles que, ao ouvirem, acolhem a palavra com alegria, mas, como não têm raiz, acreditam por algum tempo e afastam-se quando chega a provação. A semente que caiu entre espinhos são aqueles que ouviram, mas, sob o peso dos cuidados, da riqueza e dos prazeres da vida, sentem-se sufocados e não chegam a amadurecer. A semente que caiu em boa terra são aqueles que ouviram a palavra com um coração nobre e generoso, a conservam e dão fruto pela sua perseverança» (Lc 8, 4-15)
       Para que melhor possamos compreender e sobretudo para que possamos acolher e viver em Reino de Deus, Jesus narra diversas parábolas. Hoje é sobre o semeador que saiu a semear... depois falar-nos-á do proprietário que nas diferentes horas dos dias sai à praça para chamar trabalhadores para a sua vinha, por outras palavras, chama-nos ao Seu reino de amor a todas as horas da nossa vida.
       Somos convidados a tornarmo-nos terra fértil para que a Palavra de Deus germine em abundância em nós, e através de nós, pelo testemunho de vida, germine para o mundo que nos rodeia.
       Nem sempre somos a terra fértil. Quantas vezes nos tornamos inóspitos, terra árida, ressequida, sem água, dura como a pedra, no cansaço, na irritação, no ódio, na inveja, no ciúme, na sede de vingança. Mas Deus não cessa de lançar a semente à terra. Cabe-nos cuidar da nossa casa, na terra que é a nossa vida, para que irrigados do amor, do perdão, da bondade de Deus possamos acolhê-l'O, partilh'a-l'O, comunicá-lO ao mundo inteiro.
sobre esta parábola pode ver  a Reflexão Dominical, proposta para o XV Domingo do tempo Comum (2011).

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Pinheiros: Festa e Romaria de Santa Eufémia

       Santa Eufémia, virgem e mártir, recolhe a veneração de um mar de gente, um pouco por todo o mundo, em muitas terras portuguesas, sendo-lhe dedicados santuários, igrejas, capelas.
       É a padroeira da paróquia de Pinheiros, concelho de Tabuaço, Diocese de Lamego. Há muito que a sua festa se converteu numa importante romaria para as paróquias do concelho, mas igualmente para outras paróquias vizinhas, de Armamar e de Moimenta da Beira.
       Saliente-se, contudo, que ao longo de todo ano se deslocam a Pinheiros pessoas de diversas proveniências, cumprindo promessas, fazendo votos, agradecendo as graças concedidas por sua intercessão, oferendo a Sagrada Eucaristia em honra de Santa Eufémia.
       Morreu num tempo de grande perseguição à Igreja, em 16 de Setembro de 304. Muitos foram mortos só por serem cristãos e assumirem sem medo a sua fé.
       Santa Eufémia, Santa Bárbara, Santa Marinha, Santa Inês, Santa Luzia, Santa Catarina de Alexandria, São Lourenço, São Sebastião, São Cornélio e São Cipriano, que a Igreja celebra a 16 de setembro, e tantos homens e mulheres que desde que morreram foram venerados como santos e cuja devoção se preservou e acentuou ao longo dos tempos. O fervor com que nos dirigimos a Santa Eufémia, confirma-nos na certeza de que a sua vida é um exemplo a seguir e que a sua intercessão nos faz sentir mais próximos do Senhor.
       A palavra mártir aponta imediatamente para o que significa, testemunha, neste caso, testemunha da fé em Jesus Cristo. Assim sendo, cada cristão há-de chegar a ser mártir, uma vez que é testemunha da fé, da intimidade e da vivência em Jesus Cristo. Mas depois há alguns testemunhos que se tornaram mais eloquentes porque tiveram que dar a vida por causa da sua fé em Jesus Cristo.
       O próprio Jesus Cristo testemunhou a Verdade, a Vida, a Fé em Deus Pai, com a Sua Mensagem mas também com a sua Morte. Depois d’Ele muitos outros, muitos outros não temeram a ofensa, a perseguição, a morte, por amor ao Mestre dos Mestres, sendo cristãos pela vida e pela morte.
       Eufémia nasceu à volta do ano 288, na cidade de Calcedónia.
       A família era nobre e respeitável. Procurava viver e ensinar os ideais cristãos.
       Com o imperador Diocleciano, as perseguições do império aos cristãos acentuam-se. Eufémia testemunha a crueldade nas acusações, nas torturas e na morte de muitos cristãos, só por terem esse nome. Não fraqueja. Os mártires incentivam-na a também se apresentar como cristã, pronta para o sacrifício, por amor a Jesus Cristo.
        Prisco, o procônsul, juiz perseguidor, dá-lhe a oportunidade, como jovem, bela e nobre, de renunciar à sua fé. Eufémia mantém-se firme, sofrendo, por isso, diversos tormentos. Não vacila.
       Diz o grande Santo Ambrósio: “A santa e gloriosa Eufémia conservou a virgindade e mereceu ser cingida com a coroa do martírio. Pelas suas preces o inimigo foi vencido, o adversário Prisco eliminado, a virgem tirada do fogo da fornalha, sã e salva, as pedras duras transformadas em pó, as feras amansaram-se e submeteram-se, todos os suplícios foram superados pela oração; por fim, trespassada pela espada, deixou a prisão da carne e, jubilosa, juntou-se ao coro celeste…”
       A fama da sua santidade, rapidamente se espalhou. O corpo, incorruptível, foi preservado, em Calcedónia. Em 620, com a perseguição dos persas, os cristãos mudaram o seu corpo para Constantinopla, para uma Igreja mandada construir em sua honra por Constantino, imperador romano. Com imperador Nicetor, que era contra símbolos religiosos, os cristãos temeram que os restos mortais de Santa Eufémia desaparecessem. A lenda refere que numa noite de tempestade, o sarcófago desapareceu da cidade. Talvez tenha sido levado por pescadores cristãos. Em Julho de 800, deu à costa em Rovinj, onde se encontra à veneração, na atual Croácia. O Sarcófago trazia dentro um pergaminho: “… este é o corpo de Santa Eufémia de Calcedónia, virgem e mártir de Calcedónia, filha do nobre senador, nascida para o céu em 16 de Setembro de 304, Ano do Senhor” (304 AD).
       É considerada a protetora da pele.

(FONTE: apresentação da Novena e resenha biográfica, edição publicada em 2009, disponível na Paróquia de Pinheiros).

São Cornélio, Papa, e São Cipriano, Bispo

São Cornélio:
       Foi papa de 251 a 253, eleito 14 meses depois do Papa São Fabião ter sido morto. As perseguições à Igreja era devastadoras.
       São Cipriano disse acerca de São Cornélio: “Depois de ter sido elevado à dignidade episcopal,... por vontade de Deus, ...quanta fé, quanta virtude e quanta resolução mostrou no valor com que tomou a cadeira episcopal, no tempo em que o tirano, inim igo dos bispos de Deus, sofreria de melhor vontade um competidor ao trono, do que um bispo de Roma…” 
       Padeceu diversos tormentos, mas confessou sempre a fé em Jesus Cristo. Cansou os juízes e os verdugos. Condenaram-no à morte, e foi morto a 14 de Setembro de 253.

São Cipriano
       É uma das figuras maiores da Igreja dos primeiros séculos. Foi bispo de Cartago de 249 a 258. Terá nascido em 210. Antes da conversão era professor. Foi baptizado cerca do ano 245 e desde então procurou levar uma vida santa. Pelo seu valor e virtude, tornou-se chefe dos cristãos de África, reunindo à sua volta cerca de 100 bispos.
       A perseguição ao cristianismo levou-o à morte. Foi condenado à espada. Chegou ao local da execução, tirou o manto, prostrou-se por terra e rezou… quando chegou o carrasco, Cipriano mandou que lhe dessem 25 moedas de ouro para o animarem. Os cristão presentes estenderam lençóis e toalhas em seu redor. Colocou ele mesmo a venda nos olhos e um sacerdote, Juliano, com um subdiácono, atou-lhe as mãos, a seu pedido, porque ele o não podia fazer. Assim foi morto à espada.

Oração de colecta:
       Senhor, que destes ao vosso povo, em São Cornélio e São Cipriano, pastores dedicados e mártires invencíveis, concedei-nos, por sua intercessão, que, fortalecidos pela fé, trabalhemos incansavelmente pela unidade da Igreja. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Das Cartas de São Cipriano, bispo e mártir

Fé generosa e firme

Cipriano a Cornélio, irmão no episcopado.
Tivemos conhecimento, irmão caríssimo, do glorioso testemunho da vossa fé e fortaleza, e a glória da vossa pública confissão de fé deu-nos tanta alegria que nos consideramos participantes e companheiros dos vossos méritos e louvores. De facto, se formamos todos uma só Igreja, se temos um só coração e uma só alma, qual é o sacerdote que não se congratula com a glória de outro sacerdote, como se fosse própria, e qual é o irmão que não se alegra com a felicidade dos seus irmãos?
Não se pode exprimir suficientemente a alegria e o contentamento que aqui se manifestaram, quando fomos informados da vossa vitória e fortaleza, quando soubemos que vós fostes um verdadeiro chefe dos irmãos na confissão da fé e que a mesma confissão de fé do chefe foi confirmada pela confissão dos irmãos. Deste modo, sendo o primeiro a caminhar para a glória, levastes muitos companheiros a participar da mesma glória; e sendo o primeiro a confessar a fé em nome de todos, persuadistes o povo à confissão da mesma fé. Não sabemos o que mais havemos de louvar em vós, se a vossa fé generosa e inquebrantável, se a inseparável caridade dos irmãos. Assim se manifestou publicamente a coragem do bispo à frente do seu povo e se afirmou claramente a fidelidade do povo em plena solidariedade com o seu bispo. Em vós toda a Igreja de Roma deu um magnífico testemunho, unida num só coração e numa só voz.
Brilhou em todo o seu esplendor, irmão caríssimo, a fé que o Apóstolo elogiava na vossa comunidade. Já então ele previa em espírito esta gloriosa coragem e fortaleza. Já então, anunciando o futuro, celebrava a glória dos vossos méritos e, exaltando os louvores dos pais, estimulava a coragem dos filhos. Com a vossa perfeita concórdia e com a vossa fortaleza, destes a todos os cristãos um magnífico exemplo de união e constância.
Irmão caríssimo, a providência do Senhor nos adverte que está iminente a hora do nosso combate. A bondade divina nos vai prevenindo, com salutares inspirações, de que se aproxima o dia da nossa prova. Por isso, em nome da caridade que nos une, ajudemo-nos uns aos outros, perseverando assiduamente com todo o povo nos jejuns, vigílias e orações. Estas são as nossas armas celestes que nos conservam firmes, fortes e perseverantes. Estes são os dardos espirituais e os baluartes divinos que nos protegem.
Lembremo-nos uns dos outros, em perfeita concórdia e unidade de espírito; oremos sempre e em toda a parte uns pelos outros; e procuremos aliviar esta hora de tribulação e angústia com a nossa mútua caridade.