quinta-feira, 23 de março de 2017

Segui o caminho do Senhor e sereis felizes!

       "Foi isto que ordenei ao meu povo: ‘Escutai a minha voz, e Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo. Segui sempre o caminho que vou indicar-vos e sereis felizes’. Mas eles não ouviram nem prestaram atenção: seguiram as más inclinações do seu coração obstinado, voltaram-Me as costas, em vez de caminharem para Mim" (Jer 7, 23-28).
       "Todo o reino dividido contra si mesmo, acaba em ruínas e cairá casa sobre casa. Se Satanás está dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino? Vós dizeis que é por Belzebu que Eu expulso os demónios. Ora, se Eu expulso os demónios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos discípulos? Por isso eles mesmos serão os vossos juízes. Mas se Eu expulso os demónios pelo dedo de Deus, então quer dizer que o reino de Deus chegou até vós" (Lc 11, 14-23).

       O expulsar os espíritos impuros é uma característica de Alguém com poder divino, como perdoar os pecados. Desta forma, Jesus confirma que vem da parte de Deus, para instaurar um tempo novo, para nos introduzir nos caminhos de Deus, na certeza que vivendo de acordo com a Sua vontade nos realizamos como pessoas e como comunidade. Aliás, é essa também a mensagem comunicada através de Jeremias.
       O gesto de Jesus, contudo, provoca uma reacção negativa, o que indicia que doravante a sua situação não vai ser fácil. Uma crescente oposição à Sua palavra e à Sua postura hão-de conduzi-l'O ao Calvário, para testemunhar o amor de Deus para connosco.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Aura Miguel. Conversas... com o Papa Francisco

AURA MIGUEL (2017). Conversas em Altos Voos. Encontros e entrevista com o Papa Francisco. Lisboa: Paulus Editora. 146 páginas.
"A matéria-prima deste livro é a entrevista de uma hora que o Papa Francisco concedeu à Rádio Renascença, a 8 de Setembro de 2015, na Casa Santa Marta. Mas este livro inclui detalhes inéditos sobre como é viajar com o Papa Francisco e como é o seu estilo descontraído, dentro do avião e não só; há várias peripécias documentadas em muitas fotos, aqui reproduzidas, bem como minuciosos relatos dos bastidores. Mas o motivo principal deste livro relaciona-se com a próxima visita do primeiro Papa latino-americano a Fátima. A nossa esperança é que estas páginas ajudem a conhecer melhor o ilustre peregrino que aí vem e reforcem o amor dos portugueses pelo Sucessor de Pedro, tão inseparavelmente ligado à Mensagem que a Virgem, há cem anos, confiou a três crianças portuguesas" (contracapa).
       Aura Miguel é "vaticanista", isto é, jornalista, da Rádio Renascença, e que está creditada junto da Santa Sé (Vaticano), acompanhando o Papa nas suas viagens apostólicas. Já conta mais de 80 viagens no avião que transporta o Papa para diversos países. Acompanhou João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco. São muitas as histórias e as curiosidades. Neste livro conta o primeiro encontro com o Papa Francisco, como lhe solicitou uma entrevista para a Rádio Renascença e como Francisco respondeu num novo voo, numa nova Viagem Apostólica, seis meses depois, entregando-lhe um envelope, com a data para entrevista, o lugar e a hora.
       A entrevista realizou-se a 8 de setembro de 2015, Natividade de Nossa Senhora, na Casa de Santa Marta, por ocasião da Visita Ad Limina dos Bispos portugueses, com início a 7 de setembro.
       A publicação do livro e da entrevista, disponível digitalmente na Rádio Renascença, prepara e antecipa a Visita do Papa Francisco a Portugal como Peregrino de Fátima.
       A entrevista começa precisamente por falar do conhecimento que o Papa tem dos portugueses, falando também encontro com os Bispos portugueses, com a acentuação nos jovens e na catequese, partindo depois para outros temas como a surpresa da eleição, as periferias, os jovens e a Europa envelhecida, os valores e a educação, a paz em que sente apesar de tamanha responsabilidade, o Jubileu da Misericórdia, a cultura do encontro, a criatividade na educação, os direitos e os deveres, os direitos com a verdade, a felicidade e os problemas a enfrentar, o empenho político e o cuidado pela criação, a preferência de uma Igreja acidentada que uma Igreja doente por não sair...
       Além de outras curiosidades que constam do livro, o facto do Papa Francisco, juntamente com o envelope, ter entregado a Aura Miguel duas pagelas, uma de Santa Teresa do Menino Jesus e outra de São José.

Leituras: PAPA FRANCISCO - A Verdade é um Encontro

PAPA FRANCISCO (2015). (2.ª Edição). A Verdade é um Encontro. Homilias em Santa Marta. Prior Velho: Paulinas Editora. 568 páginas.
       Uma das novidades do pontificado do Papa Francisco, eleito a 13 de março e iniciando oficialmente o pontificado a 19 de março de 2017, foi a celebração quotidiana da Eucaristia na Capela de Casa de Santa Marta onde fixou a sua residência.
       Todos os dias, pela manhã, o Papa celebra com outros sacerdotes e para diversas pessoas, de paróquias, comunidades, grupos, funcionários do Vaticano, alunos dos colégios, congregações. Funciona como uma Missa paroquial, aos dias de semana, à mesma hora, para começar bem o dia. A diferença está nos fiéis que mudam de dia para dia e no facto de o pároco ser o Papa.
       As homilias diárias são familiares, íntimas, expressivas, com diversas imagens, exemplos, com muitas perguntas, com expressões que imediatamente circulam pelo mundo inteiro. É, de algum modo, um laboratório, já que as pistas de reflexão são muitas vezes desenvolvidas em discursos, mensagens, nos documentos pontifícios e aprofundadas nas Homilias em Eucaristias solenes.
       Logo após a celebração da Eucaristia, a Santa Sé, pelos órgãos competentes, faz chegar um breve resumo das palavras do Papa, acompanhadas de uma imagem, um pequeno vídeo...
       Não é a homilia inteira, como é explicado na apresentação do livro, não faria muito sentido, pois é um comentário a partir das leituras, procurando desafiar, propor, refletir, com pausas, interrogações, aproximando-se quase de uma conversa familiar. O acesso a estes trechos está disponível na plataformas da Internet da Santa Sé, mas também em muitas páginas ligadas a Dioceses, paróquias, comunidades, partilhadas, espalhadas. O livro tem a vantagem de ser sublinhado e mastigado. Quando lemos num ecrã, pelo menos para mim é assim, quase sempre o fazemos a correr, ou se for em vídeo, ouvimos e já estamos a fazer outra coisa, o livro ajuda a tomar mais atenção (claro que também há distrações).
       Este volume, na segunda edição, contém as "homilias" do primeiro ano de pontificado. Lendo, percebe-se melhor as intervenções mais públicas do Papa: pecadores mas não corruptos... misericórdia... cristãos aguados (água das rosas)... humildes mas não ingénuos... perdão... adoração de Deus (cuja dificuldade é notória nas pessoas e nas comunidades)... economia e os pobres... a riqueza e a avareza... pecadores concretos (e não abstratos, genéricos)... obras de misericórdia e juízo final, a fé vive-se, é concreta... cristãos alegres, na certeza que Deus nos ama ao ponto de em Jesus dar a vida por nós... a contradição dos cristãos da sexta-feira santa sem a Páscoa, tristes, melancólicos, sempre a protestar por tudo e por nada... incapazes de sorrir, de levantar a cabeça... pessoas com cara de santinhos mas que na verdade são hipócritas... perfeitos, pessoas boas, sem levantar ondas, como o jovem do Evangelho, certinho mas que no final não segue Jesus, pelo Seu caminho... Conhecer, confiar em Jesus, seguir Jesus pelo Seu caminho... ainda que com dificuldades e perseguição... a cruz é parte essencial da vida do cristão e da Igreja... Igreja em saída... ir às periferias... rezar com coragem, lutando com Deus como fizeram Abraão, Jacob, Moisés, David... fieis a Deus e ao povo... o encontro com Jesus na Eucaristia.. Lamentar-se faz mal ao coração... a fé não se negoceia... o perigo de falar dos outros... os mexericos matam... não maquilhar a vida, mas aceitar o bem e o mal... cristãos mornos fazem mal à Igreja... A Igreja é mãe, é uma história de amor... Um bom cristão não se lamenta... um cristão que se lamenta continuamente, deixa de ser um bom cristão: é o senhor ou a senhora "lamúrias"... o problema não é sermos pecadores: o problema é não nos arrependermos do pecado, não termos vergonha daquilo que fizemos... cultura do encontro, construtores de pontes e não de muros... a originalidade cristã não é a uniformidade...
       Seguir Jesus, caminhar com Jesus, adorar Jesus...

Tabuaço: Festa do Pai-nosso | Dia do Pai | 2017

       Nos últimos anos, a Festa do Pai-nosso, dos meninos do 2.º ano de catequese, da nossa paróquia, tem sido na solenidade de São José, também Dia do Pai. Este ano, o dia 19 coincidiu com o 3.º Domingo da Quaresma, sendo transferida a Salinidade de São José para segunda-feira, dia 20. Porém, a Festa do Pai-nosso manteve-se no dia 19 de março, assinalando-se também o dia do Pai.
       Uma celebração belíssima, valorizada por alguns gestos específicos, como o Ofertório, com gestos relacionados com a liturgia da Palavra e com os pais. No Pai-nosso, a formação de um anagrama, com as letras transformadas em orações e a coreografia do Pai-nosso.
       No momento de Ação de Graças, a distribuição a todos os pais de um porta-chaves, feito pela catequese e catequistas e pelo Grupo de Jovens, e também a distribuição de um copo branco, a cada pessoa, com a palavra "Sede de Deus", gesto este inserido na Caminhada da Quaresma-Páscoa, iniciativa pastoral da nossa Diocese de Lamego.

       Algumas fotos deste bela e terna celebração:


Para mais fotos, visitar a Paróquia de Tabuaço no Facebook

Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas

       Na liturgia da Palavra proposta para esta quarta-feira, no centro aparecem os Mandamentos, dados por Deus ao povo, através do grande líder de Israel, Moisés. Mandamentos que se torna LEI e, conforme as palavras de Moisés, uma lei que engrandece o povo de Israel, tal a justeza e o equilíbrio dos preceitos emanados por inspiração divina:
Moisés falou ao povo, dizendo: «Agora, Israel, escuta os preceitos que vos dou a conhecer e põe-nos em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus dos vossos pais. Ensinei-vos estas leis e preceitos, conforme o Senhor, meu Deus, me ordenara, a fim de os praticardes na terra de que ides tomar posse. Observai-os e ponde-os em prática, porque eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos, que, ao ouvirem falar de todas estas leis, dirão: ‘Que povo tão sábio e prudente é esta grande nação!’. Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento? Mas tende cuidado; prestai atenção para não esquecer tudo quanto viram os vossos olhos, nem o deixeis fugir do pensamento em nenhum dia da vossa vida. Ensinai-o aos vossos filhos e aos filhos dos vossos filhos» (Deut 4, 1.5-9).
       No Evangelho, Jesus valida a LEI e os seus mandamentos, dizendo claramente que não veio para pôr em causa, mas para levar à plenitude. Como poderemos verificar, por todo o Evangelho (nas suas quatro versões e visões), a plenitude da Lei é a caridade, o amor sem limites, o amor levado ao limite de dar a vida.
Disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus» (Mt 5, 17-19).

terça-feira, 21 de março de 2017

Assim procederá convosco o Vosso Pai

       "...E agora Vos seguimos de todo o coração, Vos tememos e buscamos o vosso rosto. Não nos deixeis ficar envergonhados, mas tratai-nos segundo a vossa bondade e segundo a abundância da vossa misericórdia. Livrai-nos pelo vosso admirável poder e dai glória, Senhor, ao vosso nome" (Dan 3, 25.34-43).

       Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque me pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração» (Mt 18, 21-35).
       A liturgia da Palavra deste dia apresenta-nos uma aspecto fundamental na vida do crente: o arrependimento dos pecados, reconhecendo a própria culpa, a conversão so Senhor de todo o coração e a vida nova daí resultante.
       Na primeira leitura, Azarias faz uma súplica de arrependimento, em seu nome e de todo o povo, para que Deus não leve em conta os seus pecados, mas na Sua misericórdia infinita olhe para o Seu pequeno povo e não esqueça a Sua aliança. O compromisso de Azarias e do povo é caminhar na presença do Senhor, segundo os Seus mandamentos.
       No Evangelho, encontramos Pedro a perguntar a Jesus quantas vezes devemos perdoar. A resposta de Jesus é inequívoca: sempre! Em todas as circunstâncias, em qualquer situação, todos os que nos ofenderem ou se a mesma pessoa nos ofender muitas vezes. Não é uma tarefa fácil. É um desafio salutar. Aceitar o outro com as suas limitações é pedir que os outros nos aceitem nas nossas insuficiência.
       Não esquecer, que o perdão nos é dado, antes de mais, pelo próprio Deus. Só Ele nos purifica e nos livra da culpa do pecado. É essa precisamente a lição a tirar da parábola de Jesus, do administrador infiel, que vê perdoada a sua grande dívida mas não é capaz de perdoar uma ninharia ao seu semelhante...

sábado, 18 de março de 2017

Georges Bernanos - DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA

GEORGES BERNANOS (2016). Diário de um pároco de aldeia. Prior Velho: Paulinas Editora. 264 páginas.
       O título já deixa antever um conjunto de vivências num lugar em que as pessoas se conhecem, em que as novidades, os boatos, as insinuações se espalham rapidamente, onde a privacidade é muito relativa. O padre, numa pequena aldeia, rústica, vai escrevendo um diário com as suas impressões, encontros, dificuldades, tornando visível a intriga e o mau-estar entre o pároco, vindo de uma família simples, o senhor conde, benemérito da paróquia e que tem outros familiares mais bem colocados, com outros contacto, como um tio padre.
       Padre jovem, por um lado, e acabado de chegar, as dificuldades cedo se fazem notar. No catecismo ou na celebração da Eucaristia, por vezes com poucas pessoas, outras vezes desinteressadas. Os jovens, em fase adolescente, provocam-no e gozam com ele. As condições sócio-económicas são mínimas. Alimenta-se mal. Por vezes a refeição é vinho aquecido com pão. Pouco mais. As dívidas são do conhecimento da povoação. Os sacerdotes amigos tentam alertá-lo, chamá-lo à razão. De algum modo, até pode ter razão e iniciativa, mas o melhor é não levantar ondas nem enfrentar os poderes instituídos.
       O conde, a esposa e a filha são o rosto mais visível da oposição ao padre. Os pecados que escondem, e talvez para os esconder, voltam-se contra o padre. Ora o convidam ora o alertam para não se meter em determinados assuntos, que não lhe dizem respeito.
       Querendo ser fiel ao ministério sacerdotal não deixa de ouvir, de exortar, de intervir. A saúde é que não ajuda. E os comentários sobre a sua conduta também não. É considerado um bêbado, ainda que não se considere tal. A fraqueza, a batina gasta, uma cor de meter dó, amarelo, sumido, faz pena vê-lo assim e assim se vê, ainda que a bebida (vinho aquecido com pão) seja o único que o seu frágil estômago vai aguentando. Adia a ida ao médico. Quando vai ao médico, a revelação de cancro deixa-o de rastos. Não há muito a fazer.
       Mas não é a doença terminal que mais o afeta, mas o silêncio de Deus. Há muito que vive com dificuldades em falar com Deus, em rezar, em se colocar confiante nas mãos de Deus. Os que se aproximam dele, desabafam, falam e voltam a falar e, no entanto, há um silêncio e um vazio que o preenchem. Faz com que os outros se abram, mas fecha-se, discreto, como que desejando apagar-se. Até a morte quer que seja silenciosa.
"A minha morte está ali. É uma morte igual a qualquer outra, e eu entrarei nela com os sentimentos de um homem muito comum, muito vulgar. É mesmo mais que certo que não saberei morrer melhor do que soube governar a minha pessoa. Vou ser na morte tão desastrado, tão acanhado como na vida... Meu Deus dou-te tudo, de boa vontade. Simplesmente, não sei dar, dou como quem deixa que lhe tirem as coisas. O melhor que tenho a fazer é estar sossegado. Pois se eu não sei dar, Tu, Tu sabes tirar... E no entanto teria gostado de ser, pelo menos uma vez, uma só vez, liberal para contigo... O heroísmo à minha medida está em não ter heroísmo, visto que me faltam as forças, agora o que eu queria é que a minha morte fosse pequena, o mais pequena possível, que se não distinguisse dos outros acontecimentos da minha vida. No fim de conta é a minha natural inépcia..."
Para leituras próximas outras sugestões:
       Obviamente que são livros muito diferentes, Tomáš Halík e Timothy Radcliffe ajduam-nos a refletir em Deus e na Sua presença amoroso na nossa vida, também nos momentos difíceis e até obscuros, apontando para um Deus que em Jesus Cristo Se revela dócil, compreensivo, próximo, exigente.
       Cormac McCarthy mostra que a fé pode ser ténue, mas a força do amor é inabalável, até ao fim. Shusaku Endo, no seu romance com fundo histórico e que deu origem ao filme com o mesmo nome, questiona até que ponto a fé é sustentável nas adversidades e nas monstruosidades. Todos os títulos nos falam da busca de Deus, do questionamento de Deus, da fé e do amor, da vida e da generosidade, da noite e da dúvida e da treva, mas com aquela réstia de esperança que tudo possa ser diferente.

Não deixe de ler o seguinte o comentário ao livro: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Domingo III da Quaresma - 19 de março de 2017

       1 – O ser humano adulto é constituído por cerca de 75% de água. Curioso, pois o que se vê é solidez, carne, ossos, pele, músculo. Nas crianças a percentagem aumenta para cerca de 85%, maior elasticidade, e nos idosos baixa para cerca de 50%, daí a necessidade de beberem mais líquidos para equilibrar o organismo. E por falar em corpo, a água é um dos elementos fundamentais para a saúde da pessoa. Os médicos sempre recomendam: beber muita água e fazer desporto e alimentar-se com comida saudável.
       Em muitas regiões da terra, a água é um bem escasso, provocando lutas, violência e guerra. Nas guerras tradicionais uma das formas de ganhar vantagem era controlar o acesso à água potável, vigiando as fontes, impedindo que a água chegasse às populações inimigas. Na guerra da Jugoslávia as pessoas arriscavam serem mortas ao irem buscar água, gastando horas a caminhar para os locais onde havia água, esperando horas na fila. É um pouco como a eletricidade, vemos a sua importância quando falha. Vivemos num paraíso, bastam uns segundos, abrir a torneira, ou uns minutos para a ir buscar!
       A escassez de água é um drama do nosso tempo. Já existe o Dia Mundial da Água, incentivando a sua racionalização, a preservação dos solos e aquíferos, sensibilizando a distribuição/partilha da água e para que, sendo um direito, não leve à corrupção e à exploração das populações que não têm fácil acesso a água potável. É o petróleo do século XXI. Em muitos lugares, já á mais cara que o gasóleo.
       A terra é constituída por cerca de 70% de água, mas só 3% dessa água é doce e menos de 1% está acessível. A pescaria, a pecuária, a agricultura, a indústria... tudo depende da água... para beber, para lavar, para regar, para cozinhar... Em algumas partes do planeta não há água, pelo que a solução é comprá-la, noutros lugares, a água é tão cara que não há condições de pagar! É um direito por cumprir!
       2 – «Dá-Me de beber». Junto ao poço de Sicar, Jesus encontra uma Mulher, samaritana, logo inimiga dos judeus, que há muito não se davam. Jesus não deixa que a nacionalidade seja um impedimento para lhe pedir água, ainda que ela se admire por tal atrevimento. Jesus prossegue: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva».
       Mas como é possível tirar água de um poço fundo sem um balde? Dá que pensar! Será que está bom da cabeça? Será Ele maior que Jacob? Porém, Jesus não despega e reafirma o DOM: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna».
       Como um de nós, a Samaritana entrevê uma oportunidade: «Senhor, dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la». Depreendemos das suas palavras o tempo gasto e o cansaço em ir buscar água à fonte. A Samaritana está fixa numa necessidade básica, urgente e fundamental, mas biológica. Jesus deu um passo em frente, está a falar de SEDE de Deus, de sentido, de uma saciedade que nos humaniza, nos apazigua e, simultaneamente, nos compromete com os outros. A água recebida, como todo o dom, é água partilhável. Assim a vida. Recebeste de graça, dai de graça!
       3 – O diálogo continua e apercebemo-nos que Jesus entra na nossa vida sem invadir a nossa liberdade. Propõe-nos um caminho de felicidade, vida abundante, abertura aos outros, compromisso e "obediência" (= escuta) a Deus, por forma a garantir que os outros são DOM e não são dispensáveis.
       A Samaritana é uma mulher insaciável. Que fazer quando estamos insatisfeitos com a nossa vida? Comemos, enfartamo-nos ou vamos às compras, compramos até o que não precisamos, mas pelo menos preenchemos tempo e talvez alguns vazios que nos esgotam. Esta mulher não está bem com a vida que leva. Nada a satisfaz. A sua sede fá-la perder-se com as pessoas. Como não lembrar também aquele jovem que vai ter com Jesus e lhe pergunta o que fazer para entrar na vida eterna, isto é, o que fazer para se sentir útil e ser feliz. A resposta de Jesus respeita o ritmo de cada um. Vai, vende, dá, vem e segue-Me!
       Jesus não assume uma atitude invasiva. Não há n'Ele palavras recriminatórias, tão-somente uma constatação que resulta da escuta, da atenção, do Seu cuidado para com esta mulher e que a faz sentir amada, a faz sentir pessoa. Jesus não lhe pergunta pelos pecados, pergunta-lhe pela vida e pelo sentido da vida. Para Jesus, o caminho da felicidade passa pela adoração, em espírito e verdade, a adoração de Deus que é Pai. Não há fronteiras, há opções. Não há privilegiados, há pessoas que abrem o seu coração a Deus!
       4 – O verdadeiro encontro com Jesus realiza a conversão, a mudança de vida. A mulher sai transformada da presença de Jesus. Disponível para dar testemunho. Com efeito, parte e vai à cidade anunciar o Messias: «Ele disse-me tudo o que eu fiz». A conversão faz-se a partir do anúncio e do testemunho recebido, mas só se torna decisivo no encontro com Jesus. Muitos vierem ao Seu encontro, com sede própria e pediram-Lhe que ficasse algum tempo. Jesus não Se faz rogado e fica com eles durante dois dias. No final o testemunho deste encontro transformador: «Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».
       E nós? Que transformações se operam na nossa vida no encontro com Jesus? Há diferenças na minha, na tua, na nossa vida por sermos cristãos? Experimentamos a alegria de pertencermos a Cristo? Anunciamos Jesus aos outros, pelas palavras e pelos gestos, ou guardamos a fé só para nós?
       Quem se aproxima de Jesus é iluminado pelo Seu olhar, pelo Seu amor. E quando alguém se aproxima de nós, pressente a presença de Deus, a Sua luz e o Seu amor? Ou somos velas já sem chama?
       5 – Os discípulos ficam surpreendidos quando voltam para junto de Jesus. Tinham ido à cidade buscar alimento. Espantam-se com o facto de Jesus estar (sozinho) em amena caveira com uma mulher. E como se isso não bastasse, é samaritana! O certo é que para Jesus não há exceções. Todos contam. Homens e mulheres. Nativos e estrangeiros. Santos e pecadores. Eu conto. Tu contas. Contamos todos.
       A vida de Jesus e dos Seus discípulos não é fácil. Andar por aldeias e cidades, sem poiso certo, gera cansaço e desgaste. Trazem pouca coisa. Os recursos são escassos. Contam com a boa vontade de algumas mulheres convertidas e de seus maridos que simpatizam com Ele! Contam com as dádivas de algumas famílias que os acolhem e de outras que se tornam amigas. Se eles estavam esfomeados, também Jesus deveria estar. Insistem para que coma! A não ser que já o tenha feito! A resposta de Jesus é taxativa: «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a sua obra».
        Como não lembrar as palavras de Jesus no deserto: nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Claro que o alimento biológico é imprescindível e não cai do céu como que por magia, mas é fruto do trabalho honesto e dedicado de cada um de nós. Contudo, o homem é mais do que o alimento e do que vestuário. Na verdade, há pessoas miseráveis a viver em palácios e pessoas bem aventuradas a viver em bairros de lata. Isso não significa a defesa da miséria material, mas sublinha que a felicidade exige mais de nós. O que temos pode ajudar-nos a viver mais confortavelmente. O que somos, a família e os amigos, o que damos e o quanto nos damos, em tempo e gastando a vida, define o que nos faz felizes e nos realiza como pessoas.
       6 – Deus não nos deixa sem resposta. Ele escuta as nossas preces. «O Senhor está ou não no meio de nós?». A provocação de Moisés vem depois da sua conversa com Deus. Nem sempre a oração é fácil, nem sempre Deus nos responde da forma como esperávamos, mas não deixa de velar, de cuidar, de nos abençoar. Deus sacia a sede daquele povo e através de Moisés manda-o avançar, pôr-se a caminho. A sede também é saciada pelo esforço em caminhar, pela ação do nosso bastão, dos nossos braços. Toda a criação é dom de Deus. Mas o dom é partilhável ou deixa de ser dom. Cabe-nos tornar acessíveis os bens da criação para toda a humanidade, com o nosso trabalho e com a nossa partilha solidária.

       7 – São Paulo é um pouco como a Samaritana, um pouco como nós, busca água em fontes que saciam momentaneamente a sede. O problema não é a sede, as fontes é que não têm a água que a nossa vida precisa.
       O Apóstolo perseguiu Jesus até ao dia em que se deixou encontrar e surpreender por Ele. A sua sede encontra uma fonte que sacia a sua busca. Aos Romanos, revela que está em paz, apoiado na graça de Deus, na esperança que não engana, «porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios… Dificilmente alguém morre por um justo; por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer. Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores».
       Vale a pena aqui evocar a figura de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) que, como Paulo, como a Samaritana, chegou um dia e disse: "é esta a verdade". Tendo passado a noite a ler a autobiografia de Santa Teresa de Ávila, encontra Jesus e o cristianismo. Logo pedirá o batismo. Tanto que buscou que encontrou. Mas a chegada não é o fim, é o início de um novo caminho que a levará ao martírio!

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Ex 17, 3-7; Sl 94 (95); Rom 5, 1-2. 5-8; Jo 4, 5-42.

Pai, dá-me a parte da herança que me toca...

       É-nos proposto, para este sábado, o Evangelho em que Jesus apresenta Deus como um Pai infinitamente misericordioso, pronto a perdoar, que se lança aos braços dos filhos desavindos, que faz festa pelo regresso dos que se transviaram. É a conhecida parábola do filho pródigo, muito mais parábola do Pai Misericordioso.
       Por outro lado, agudiza-se o debate com os fariseus e doutores da lei. São como o filho mais velho, zelosos, e que julgam que por estarem há mais tempo na religião têm todos os direitos e podem decidir quem entra e quem sai, quem tem ou não direito à salvação.
       Por outro lado ainda, o convite à alegria e à festa, que por vezes se esquece na religião que assenta sobretudo na tradição e não na conversão pessoal, e na intimidade com Deus e com os outrso.
       Vale a pena ler toda a parábola:
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Certo homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar- se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a túnica mais bela e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque o teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’» (Lc 15, 1-3.11-32).

sexta-feira, 17 de março de 2017

A pedra rejeitada torna-se pedra angular

        Jesus disse aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros, e eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim mandou-lhes o seu próprio filho, pensando: ‘Irão respeitar o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança’. Agar¬raram-no, levaram- no para fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?» Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam-Lhe: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos». Ao ouvirem as parábolas de Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que falava deles e queriam prendê-l’O; mas tiveram medo do povo, que O considerava profeta (Mt 21, 33-43.45-46).
       Nos textos sagrados sugeridos para este dia, aparecem-nos duas situações semelhantes. José, por ser o preferido, ou o eleito, é vendido como escravo para o Egipto. O ciúme e a inveja fazem dele um alvo a abater. Mas rejeitado, será ele a acudir a toda a família, ao seu povo, para o resgatar da miséria.
       Jesus conta a parábola de um proprietário, que planta, que cerca, que cuida da vinha. Na altura da "colheita" manda recolher os frutos. Mas os vinhateiros matam os servos e mais tarde matam o próprio filho. Nesta para´bola está condensada a história de Israel e a vinda de Jesus. O proprietário é Deus. Os vinhateiros o povo, a humanidade; Jesus, o filho enviado, mas também rejeitado.
       Apesar de rejeitado será Ele a pedra angular, pela Sua morte e ressurreição, trará a salvação para toda a humanidade. estejamos atentos para podermos receber aqueles que vêm em nome de Deus e para produzirmos frutos em abundância para que os possamos devolver a Deus.

quinta-feira, 16 de março de 2017

O pobre Lázaro e rico avarento...

       Disse Jesus aos fariseus: «Havia um homem rico, que se vestia de linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre chamado Lázaro jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com os restos caídos da mesa do rico; mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’. Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que, se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo’. O rico exclamou: ‘Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento’. Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas: que os oiçam’. Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’. Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos’» (Lc 16,19-31).
       Esta parábola de Jesus é ainda mais provocante e significativa nos dias que correm.
       Em todos os tempos, é visível a dicotomia entre os que mandam e os que obedecem, os que têm e os que nada têm, os que vivem abastadamente e os que vivem na indigência.
       Ao tempo de Jesus, existiam os homens livres e os escravos. Uns viviam regaladamente em seus palácios, subjugando súbditos, gozando a vida, dando largas a todos os luxos, vivendo faustosamente, sem se importarem dos que viviam na miséria, não porque não tivessem feito por isso, mas simplesmente porque eram de outra classe e não tinham direito a almejar por melhores condições de vida. Um fosso gigantesco, determinado por nascimento. Quem nascia em família pobre, seria sempre pobre; quem nascesse em berço de ouro, viveria sempre na abundância, a não ser que acontecesse alguma desgraça.
       No nosso tempo, o fosso entre ricos e pobres, entre magnatas e pedintes, alargou-se, muitas vezes não pelo mérito dos primeiros, mas pelo trabalho e inteligência dos segundos. Não está em causa a criação de riqueza, quando resulta do trabalho honesto e recompensa uns e outros, patrões e trabalhadores. O problema é quando a riqueza se faz à custa dos mais pobres, dos que trabalham, dos malabarismos corruptos, da desonestidade. Por isso também se verifica que há cada vez um fosso maior, mas também que há cada vez mais pobres e uma crescente concentração de riqueza num número cada vez mais reduzido de pessoas e de empresas.
       Em tempo de crise vem ao de cima a fragilidade das economias que procuram satisfazer apenas o lucro esquecendo as pessoas e as famílias. Faltou a aposta na formação, habilitação e (re)qualificação) - daria menos lucro -, no investimento em novos produtos, na modernização de equipamentos e gestão, na reconversão de empresas, na promoção do melhor que havia e há nas empresas: as pessoas.
       Certamente que Jesus, naquele e neste tempo, não diaboliza a economia ou a riqueza, mas enquadra-a num contexto mais amplo. A pessoa há-de estar em primeiro lugar. A economia não é um fim em si mesmo, deve estar ao serviço da pessoa, da sua dignidade, do seu desenvolvimento.
       E ainda que por vezes a pobreza se tenha tornado endémica - "pobres sempre os tereis" -, a responsabilidade dos cristãos é permanente, procurar viver solidariamente como irmãos, partilhar com os mais desfavorecidos, não apenas os bens materiais, mas os valores, a cultura, os bens intelectuais e espirituais, lembrando aqui o provérbio japonês: não se deve dar o peixe, mas deve dar-se a cana e ensinar a pescar. Obviamente, que num primeiro momento é necessário também prover ao alimento e aos bens materiais essenciais, dar o peixe e a cana, ensinar a pescar...

quarta-feira, 15 de março de 2017

O Filho do homem vai ser entregue...

        Disse-lhes Jesus: «Vamos subir a Jerusalém e o Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, que O condenarão à morte e O entregarão aos gentios, para ser por eles escarnecido, açoitado e crucificado. Mas ao terceiro dia Ele ressuscitará»...
       «Sabeis que os chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem entre vós quiser tornar-se grande seja vosso servo e quem entre vós quiser ser o primeiro seja vosso escravo. Será como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção dos homens» (Mt 20, 17-28).
       Jesus não veio para ser servido como um príncipe ou como uma rei, mas veio ao mundo para servir e dar a vida a favor da humanidade inteira.
       Hoje, o Evangelho mostra-nos a anúncio da paixão de Jesus. A caminhada para Jerusalém - a cidade santa - é uma caminhada para o desfecho da missão, rumo à CRUZ. Neste trajeto, a mãe dos filhos de Zebedeu pede a Jesus que os coloque à Sua esquerda e à Sua direita. É a procura pelo melhor lugar. Os outros discípulos contestam, pois também disputam os lugares mais importantes. Jesus inverte a lógica: quem quiser ser o maior faça servo de todos. O serviço é o caminho de Jesus Cristo até ao Pai, até à eternidade.
       O fim anunciado, mas não o esperado pelos discípulos de Jesus. No II Domingo da Quaresma, o Evangelho apresentava-nos a Transfiguração de Jesus, que surge precisamente neste contexto, em que Jesus lhes diz que será entregue às autoridades dos judeus, e depois será morto.

terça-feira, 14 de março de 2017

Respeitai o direito, protegei, fazei justiça, defendei

       A palavra de Deus proposta para esta terça feira acentua a misericórdia de Deus. Jesus colocava a misericórdia de Deus como ideal comparativo para nos centrarmos na vivência da misericórdia. Hoje, na primeira leitura, a bondade de Deus, e o Seu perdão, estão ao alcance de todos, importa, antes de mais, iniciar um caminho positivo, de honestidade, de atenção ao semelhante, de prática da justiça e da caridade. Uma vez mais, as boas obras testam e aprofunda a fé.

Mas atentemos ao texto:
       Escutai a palavra do Senhor, chefes de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, povo de Gomorra: «Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos a malícia das vossas acções, deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde então para discutirmos as nossas razões, – diz o Senhor. Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã. Se fordes dóceis e obedientes, comereis os bens da terra. Mas se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados pela espada» (Is 1, 10.16-20).
       No Evangelho, Jesus remete-nos para a necessidade das boas obras confirmarem o que professamos pelas palavras, procurando a correspondência entre o que nos exigimos e o que exigimos ao nosso irmão, optando por um caminho de humildade, e não de sobranceria. É no reconhecimento da nossa limitação, que podemos abrir-nos aos outros e a Deus.

Vejamos as palavras de Jesus aos discípulos e à multidão:
       «Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens: alargam as filactérias e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’. Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’, porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’, porque um só é o vosso pai, o Pai celeste. Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’, porque um só é o vosso doutor, o Messias. Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Mt 23, 1-12).

segunda-feira, 13 de março de 2017

Não condeneis e não sereis condenados...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco» (Lc 6, 36-38).
        A medida da nossa vivência cristã é Jesus Cristo.
       Não é uma medida por baixo, com os mínimos garantidos, é uma medida sempre a crescer até à estatura de Jesus Cristo. Ele dá a vida por nós, resgatando-nos ao pecado e à morte, é a Sua medida. Não dá pouco nem muito, dá-Se totalmente, entrega-Se em cada gesto, em cada palavra, em cada olhar, em cada encontro, em cada sorriso, em cada afago. Por conseguinte, é seguido pelos esquecidos e odiados da sociedade do Seu tempo, come com eles, chama-os, aproxima-Se deles, vai nas suas direcções para os fazer regressar à vida.
       Hoje deixa-nos uma referência fundamental: ser misericordiosos como o Pai do Céu é misericordioso. Se Ele é a nossa medida e se a Sua medida é Deus Pai, então a medida do nosso amor é o Deus de Jesus Cristo, próximo, misericordioso, pronto para perdoar, para Se fazer próximo e em Jesus nosso irmão.
       Que melhor atitude quaresmal que o perdão, a misericórdia, a bondade, a generosidade para com os outros! Um dia disseram-nos que só gostando de nós poderíamos gostar dos outros. Mas Jesus vai mais longe, quanto mais nos dermos aos outros tanto mais nos sentiremos bem connosco e com o mundo que nos rodeia.

sábado, 11 de março de 2017

Domingo II da Quaresma - ano A - 12 de março de 2017

       1 – Antes da Páscoa, a Paixão; antes da saciedade o caminho; antes da ressurreição, a morte; no meio das trevas, a LUZ que vem do alto. Quando recebemos uma má notícia, que nos envolve, dizemos que levamos um murro no estômago, deixamos de ver, de ouvir, parece que fica tudo escuro, tudo vazio, que o mundo acabou naquele momento. Se um olhar nos encontrar e descobrir uma brecha no nosso coração, um olhar, um gesto, um abraço, uma palavra, o silêncio que perscruta, talvez não desapareçamos!
       É neste contexto que surge a Transfiguração de Jesus diante dos Apóstolos mais próximos, Pedro, Tiago e João (e talvez Judas). Jesus tinha-lhes revelado que ia ser preso e morto. Ao mesmo tempo lhes revelou que ressuscitaria três dias depois. Mas os discípulos já não escutaram essa parte. Ficou difícil compreender. Recordamo-nos da censura feita por Pedro a Jesus: livra-te de tal... Pedro extravasa um certo desencanto: como é que o Messias, que vem para restaurar Israel, vai ser morto? Não pode ser!
       Depois do deserto, a sós connosco e com Deus, a liturgia da palavra eleva-nos ao monte, faz-nos olhar para o alto, para Deus. No deserto, Jesus sublinha que o alimento vem de Deus e, por conseguinte, não devemos ser reféns nem do alimento, nem do poder, nem do prestígio, mas o que temos e o que somos deve ajudar-nos a construir um mundo mais justo e fraterno, onde reine Deus e o Seu amor, a Sua justiça misericordiosa. No monte, com Jesus, vislumbramos o que vai além da morte, um lampejo de esperança, de promessa a cumprir.
       A Quaresma é caminho para a Páscoa. Porém, nos tons, nos apelos, nas vivências, tudo aponta para a morte de Jesus, para aquela via-sacra, aquele caminho que leva a um desfecho cruento, prisão, bordoadas, injúrias, cuspidelas, julgamento apressado, crucifixão e morte. Penitência, jejum, oração, abstinência, sobriedade, sacrifício. Mas estes só têm sentido depois da Páscoa de Jesus, há 2 mil anos, porque vislumbramos no caminho a meta que nos conduz à ressurreição e vida nova.
       Os apóstolos, os mais próximos, têm também este vislumbre. É como um pedaço de pão para enganar a fome enquanto não são horas da refeição. Como dizia o Papa Francisco, na primeira Carta Encíclica Lumen Fidei, "A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho". No contexto da vida pública de Jesus, a transfiguração é esse rasgo de luz que ajuda a prosseguir a caminhada.

       2 – Finda a jornada do deserto, Jesus prossegue o Seu caminho, fazendo-nos entrar na Terra Prometida, sendo que Ele próprio é a Promessa que se cumpre no tempo e na história. Depois da Transfiguração é tempo de descer do monte e regressar à cidade, à vida, às rotinas do dia-a-dia, ao quotidiano, com as suas esperanças e alegrias, com as suas lutas e tristezas.
       No monte, Pedro, Tiago e João puderem ver e ouvir, e nós com eles, o Céu, a vida iluminada pela Luz vinda do Pai. Não caminhamos sozinhos. Não descemos sozinhos. Ele desce connosco. Desceu da eternidade e agora desce do monte. Levou-nos com Ele, mostrou-nos um pouco do Céu, e agora acompanha-nos de regresso a nossa casa, de regresso à nossa vida, a este mundo que temos para transformar. O recado do Céu, o recado de Deus: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
       Por vezes não é fácil perceber a voz de Deus. Como discípulos ficamos atónitos, à espera de mais sinais, à espera de outras explicações. Mas a mensagem remete-nos para Jesus que nos retira do transe: «Levantai-vos e não temais». Uma e outra vez, ouvimos Jesus a chamar-nos, a levantar-nos, a sossegar-nos, para logo nos enviar a todo o mundo, a anunciar o Evangelho, a curar os doentes, a expulsar os demónios. O que de graça recebemos, de graça devemos dar.
       A Sua voz ressoa no nosso coração. A vida pode não ser fácil, mas Ele está connosco. A Sua ressurreição é a certeza inabalável que ficará sempre do nosso lado. Quando nos assaltarem as dúvidas, rezemos ao Pai, supliquemos, abramos-Lhe o coração: "Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória".

       3 – Também Abraão, chamado por Deus, se põe a caminho. Deus desafia. Não impõe. Não Se impõe. Propõe-nos uma vida mais sublime, mais perfeita! Por Ele? Sim, por Ele porque nos ama e quem ama quer o bem da pessoa amada, sempre, em todas as circunstâncias ou não seria amar. Por nós (porque nos ama), para que tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).
       Para Deus não bastam os mínimos, mas o melhor de cada um. Abraão, num primeiro momento, deve ter ficado perturbado com o chamamento e envio do Senhor: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti uma grande nação e te abençoarei; engrandecerei o teu nome e serás uma bênção. Abençoarei a quem te abençoar, amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
       Não é coisa pouca deixar a casa, os pais, a família, a pátria, a segurança do passado, os amigos. Só não custa partir a quem não deixa nada para trás, a quem não tem laços, a quem vive no vazio. Claro que custa menos partir quando é necessário, para melhorar a vida, a própria e a daqueles que se amam. "Abraão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado". É possível que nem tenha olhado para trás. Para não chorar! E segue em frente, certo das dificuldades que irá encontrar, mas confiante na mão que o conduz, confiante na Palavra de Deus. Tem uma vida toda pela frente. Como Pai na fé será reconhecido como arameu errante, peregrino em terra estrangeira. A terra em que passa a viver é a que Deus lhe indica, é Terra Prometida. Há uma nação a construir, na qual serão abençoados todos os povos da terra. Como se verá ao longo da história da salvação o chamamento de Deus é sacramental, isto é, não se destina a premiar os chamados, mas a transformá-los em instrumento de bênção e de salvação para os outros, para todos.

       4 – A Quaresma é um pouco de tudo isto. Caminho para a Páscoa, marcado pela conversão, pela preparação, pela renúncia ao superficial, mas também à pele que se vai formando e que é preciso renovar, substituir, para que seja Cristo a revestir-nos da alegria de quem vive para amar e para servir.
       Na Sua mensagem para esta Quaresma, o nosso Bispo, D. António Couto, desafia-nos: "Despojemo-nos, não apenas do que nos sobra, mas também do que nos faz falta. Dar o que sobra não tem a marca de Deus. Jesus não nos deu coisas, algumas coisas para o efeito retiradas da algibeira, mas deu por nós a Sua vida inteira. Dar-nos uns aos outros e dar com alegria deve ser, para os discípulos de Jesus, a forma, não excecional, mas normal, quotidiana, de viver".
       O despojamento, a partilha solidária, a renúncia, mudar a agulha para o bem e para a bênção. Abraão, sublinhemo-lo novamente, não é chamado pelos seus belos olhos, é chamado por Deus para ser instrumento de bênção para todas as nações da terra. A Quaresma não visa premiar o sacrifício, o esforço, a renúncia. Não é para que fiquemos mais fortes, mais magros, mais aptos a enfrentar o sofrimento. O caminho da Quaresma abre-nos à festa da Páscoa, da Ressurreição, da Vida nova, como vislumbramos na Transfiguração de Jesus. Neste caminho podemos assumir diversos gestos, mas o importante é a conversão do coração, a proximidade a Deus, o essencial são os laços que se criam com os outros, a amizade e a família, o serviço e o perdão, a reconciliação com vida, a luta e o empenho pela justiça e pela verdade, o combate contra todas as manifestações do mal.
       É uma Quaresma que nos faz espreitar a Páscoa, solene e anual, que celebramos em cada domingo, em cada Eucaristia, mas já vislumbre da Páscoa eterna. Não há que temer o que deixamos, há que valorizar o que vem pela frente. Balançamo-nos para o amanhã, com Deus e com os outros, confiantes que muitas graças estão no nosso caminho. Ele não nos promete o "paraíso" terrestre, histórico, promete-nos a Sua vida, a Sua presença, o Seu amor, até à eternidade.

       5 – O Apóstolo São Paulo testemunha a fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo, com as dificuldades e os sofrimentos inerentes a essa opção de vida. Anima o discípulo Timóteo à mesma firmeza diante das perseguições e injúrias a que estão sujeitos, mas na certeza inabalável que a força e a graça de Deus os não abandonará. "Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça. Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, desde toda a eternidade, manifestou-se agora pelo aparecimento de Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio do Evangelho".
       As lutas e tristezas, a angústia do tempo presente em nada se compara com a alegria na eternidade. Porém, estas dores são como as da Mulher que está para ser mãe, são dores fortes, incómodas, chatas, porém, o aproximar do nascimento do filho fá-la caminhar, persistir, resistir, até que o momento chegue e expluda em luz, alegria e paz. É o tempo da Quaresma em relação à solenidade da Páscoa; é a nossa vida comprometida com o mundo atual até à Páscoa eterna.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Gen 12, 1-4a; Sl 32 (33); 2 Tim 1, 8b-10; Mt 17, 1-9.

Conferência com a Irmã Ângela Coelho sobre Fátima

       No âmbito do Centenário das Aparições de Nossa Senhora aos Pastorinhos de Fátima, e a convite do Pe. Diamantino Alvaíde, a presença da Irmã Ângela Coelho, Postuladora para a Canonização dos Pastorinhos Francisco e Jacinta e Vice-Postuladora para a beatificação da Irmã Lúcia, no Auditório Municipal, Padre Bento da Guia, a 10 de março de 2017.
       O evento foi promovido e alargado a todo o Arciprestado de Moimenta da Beira, Sernancelhe, Tabuaço. A nossa paróquia de Tabuaço contou com uma belíssima participação, com forte incidência do Grupo de Jovens (GJT).
       O encontro foi moderado pelo anfitrião, Pe. Diamantino Alvaíde. O Grupo Coral da Paróquia de Moimenta da Beira ajudou a criar um belíssimo ambiente para acolher e escutar a Irmã Ângela, que nos apresentou a Mensagem de Fátima a partir, principalmente, dos dois Beatos, Francisco e Jacinta, com muitos dados curiosos, partindo sobretudo da simplicidade das duas crianças.
       No final da exposição, tempo para responder a algumas questões colocadas pela assembleia.
       A Irmã Ângela surpreendeu muito positivamente, pela sabedoria, pela simplicidade de comunicação, pela alegria do testemunho, pela interação fácil com a assembleia, deixando algumas mensagens incisivas como, por exemplo: A minha vida vale pelo tamanho do meu amor... Fátima apela ao essencial e sobretudo a recentrar a vida em Deus... Francisco remete para o essencial - Deus; Jacinta, a generosidade do coração... Irmã Lúcia - pessoa muito inteligente, muito alegre, ensina a perseverança no meio das dificuldades, sentido de fidelidade... comunicar alegria aos outros... A mensagem de Fátima... apocalíptica? Duas dimensões essenciais: dimensão mística, oração, união a Cristo, e dimensão profética - Deus continua a caminhar connosco, conta comigo, sou responsável pela história...

       Algumas fotos deste encontro:

Outras fotos disponíveis: Paróquia de Tabuaço no Facebook.

Amai os vossos inimigos e rezai por eles

       Apresentamos, neste sábado da primeira semana da Quaresma, dois textos da liturgia, em que se acentua o cumprimento dos Mandamentos por forma a viver de acordo com a vontade de Deus, no caminho da felicidade, da salvação, da vida em abundância.
        O primeiro texto, do livro de Deuteronómio, sublinha a pertença do povo a Deus, pertença essa que exige o cumprimento, por parte do povo, dos mandamentos. São estes que assegura que o povo se mantém fiel ao Senhor. Entremos no texto:
Moisés falou ao povo, dizendo: «O Senhor, teu Deus, ordena-te hoje que cumpras estas leis e mandamentos. Tu os guardarás e cumprirás com todo o teu coração e com toda a tua alma. Hoje obtiveste a promessa do Senhor de que Ele seria o teu Deus; e tu deves seguir os seus caminhos, cumprindo os seus mandamentos, leis e preceitos, e escutando a sua voz. E hoje o Senhor obteve de ti a promessa de que serás o seu povo, como Ele tinha declarado, e cumprirás os seus mandamentos. Ele te elevará pela glória, fama e esplendor, acima de todas as nações que formou, e serás um povo consagrado ao Senhor, teu Deus, como Ele prometeu (Deut 26, 16-19).
       No evangelho, Jesus, o novo Moisés, diz claramente aos seus discípulos - e hoje somos nós - que a plenitude da Lei é o amor sem limites e sem medida. Amar até os inimigos. Será isto que distingue os seguidores de Jesus Cristo:
Disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 43-48).

sexta-feira, 10 de março de 2017

Reconcilia-te com o teu adversário...

       Nesta sexta-feira da primeira semana da Quaresma, a liturgia da palavra centra-se no perdão de Deus, que conta connosco e com o nosso arrependimento. Deus não levará em conta os nossos pecados, mas a nossa conversão. Esquecerá os nossos desvios, se de todo o coração aderirmos à Sua vontade e escolhermos o bem.

Vejamos a primeira leitura:
Assim fala o Senhor Deus: «Se o pecador se arrepender de todas as faltas que cometeu, se observar todos os meus mandamentos e praticar o direito e a justiça, certamente viverá e não morrerá. Não lhe serão lembrados os pecados que cometeu e viverá por causa da justiça que praticou. Será porventura a morte do pecador que Me agrada? – diz o Senhor Deus – Não é antes que se converta do seu mau proceder e viva? Mas se o justo se desviar da justiça e praticar o mal, imitando as abominações dos pecadores, porventura viverá? Não mais será recordada a justiça que praticou; por causa da prevaricação em que caiu e do pecado que cometeu, ele morrerá. E vós dizeis: ‘O modo de proceder do Senhor não é justo’. Escutai, casa de Israel: Será o meu modo de proceder que não é justo? Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto? Quando o justo se afastar da justiça, praticar o mal e vier a morrer, morrerá por causa do mal cometido. Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida. Se abrir os olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, certamente viverá e não morrerá» ( Ez 18, 21-28).
       No Evangelho, proposto para hoje, Jesus acentua a caridade levada até ao limite como bandeira de todos os seguidores. Não basta perdoar, é necessário procurar o perdão até daqueles que nos ofenderam. Uma vez mais Jesus inverte a postura dos seus seguidores...
        Disse Jesus aos seus discípulos: «Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo. Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. Reconcilia-te com o teu adversário, enquanto vais com ele a caminho, não seja caso que te entregue ao juiz, o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo» (Mt 5, 20-26).

quinta-feira, 9 de março de 2017

Pedi e dar-se-vos-á, procurai e encontrareis...

        Disse Jesus aos seus discípulos: «Pedi e dar-se-vos-á, procurai e encontrareis, batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque todo aquele que pede recebe, quem procura encontra e a quem bate à porta abrir-se-á. Qual de vós dará uma pedra a um filho que lhe pede pão, ou uma serpente se lhe pedir peixe? Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos Céus as dará àqueles que Lhas pedem! Portanto, o que quiserdes que os homens vos façam fazei-lho vós também: esta é a Lei e os Profetas» (Mt 7, 7-12)
       A desafio é de Jesus: pedir. Rezar incessantemente, confiar em Deus, confiar que Deus atenderá à nossa súplica. Tal como o pai não deixa de atender ao seu filho, assim também Deus não deixará sem resposta e sem auxílio aqueles que Lhe pedem com fé.
       Veja-se a belíssima oração de Ester, na primeira leitura proposta para hoje:

       «Meu Senhor, nosso único Rei, vinde socorrer-me, porque estou só e não tenho outro auxílio senão Vós e corre perigo a minha vida. Desde criança, ouvi dizer na minha tribo paterna que Vós, Senhor, escolhestes Israel entre todos os povos e os nossos pais entre os seus antepassados, para serem a vossa herança perpétua, e cumpristes tudo o que lhes tínheis prometido. Lembrai-Vos de nós, Senhor, e manifestai-Vos no dia da nossa tribulação. Fortalecei-me, Rei dos deuses e Senhor dos poderosos. Ponde em meus lábios palavras harmoniosas, quando estiver na presença do leão, e mudai o seu coração, para que deteste o nosso inimigo e o arruíne com todos os seus cúmplices. Livrai-nos com a vossa mão; vinde socorrer-me no meu abandono, porque não tenho ninguém senão Vós, Senhor» (Est 4, 17).

quarta-feira, 8 de março de 2017

Esta é uma geração perversa...

       Disse Jesus: "Esta geração é uma geração perversa: pede um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal de Jonas. Assim como Jonas foi um sinal para os habitantes de Nínive, assim o será também o Filho do homem para esta geração. No juízo final, a rainha do sul levantar-se-á com os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e aqui está quem é maior do que Salomão. No juízo final, os homens de Nínive levantar-se-ão com esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; e aqui está quem é maior do que Jonas" (Lc 11, 29-32).
       Ao ouvirmos hoje Jesus notamos uma certa indignação, ainda que Ele saiba o quanto é difícil a Sua mensagem ter plena aceitação, mas também sabe que um coração atento, disponível para o bem, para acolher os dons de Deus, poderá facilmente entrar no caminho da felicidade, da santidade, da salvação.
       Depois de vários sinais dados por Jesus - milagres, expulsão de espíritos impuros, anúncio da Palavra de Deus, acolhimento dos mais pobres e desfavorecidos, perdão dos pecados -, a incredulidade de muitos levam-n'O a ter este desabafo. Se as multidões reconhecessem o dom de Deus, como tudo seria tão diferente!
       O próprio filho do Homem - Jesus Cristo - será um sinal para esta geração, para todas as gerações. Cabe-nos acolher o sinal e deixarmo-nos converter. Não basta possuir talentos, ou receber dons, é necessário desenvolvê-los, colocá-los ao serviço dos outros. A presença de Jesus (como sinal) vale se deixarmos que a Sua presença seja impulsionadora na transformação da nossa vida e do nosso mundo.
       Por outro lado, na nossa vida há muitas situações que carecem de comprovação, como por exemplo a confiança que depositamos em alguém. Essa confiança é que nos vai levar a aproximarmo-nos dela. Se pelo contrário somos incapazes de confiar, nunca descobriremos que ela é uma pessoa de bem. A Jesus pedem-lhe um sinal inequívoco, depois de terem visto diversos prodígios. Jesus diz-lhes e diz-nos que o verdadeiro sinal é Ele mesmo, com a Sua vida e assim o será na morte e ressurreição...

terça-feira, 7 de março de 2017

Quando orardes dizei: Pai-nosso...

       "Orai assim: ‘Pai nosso, que estais nos Céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal’. Porque se perdoardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, também o vosso Pai não vos perdoará as vossas faltas" (Mt 6, 7-15).
       O Pai-nosso é a única oração que Jesus nos ensina. Concentra o essencial da mensagem cristã. Revelação de Deus como Pai, próximo, providente, preocupado com a humanidade. Soberania de Deus, nos céus e na terra. Realizando a vontade de Deus não nos sujeitaremos a ditaduras materiais ou humanas. A fé que nos conduz ao compromisso, a trabalhar honestamente pelo pão de cada dia, a partilhar do que temos com quem tem menos ou nada tem. A mensagem de perdão, bem acentuada por Jesus. O perdão traz-nos a saúde, liberta-nos do azedume, da indisposição. O perdão tem raiz no perdão de Deus. Deus ama-nos infinitamente, perdoando mesmo antes de iniciarmos o nosso processo de regresso. O sentirmo-nos perdoados deve levar-nos ao perdão ao próximo...