sexta-feira, 25 de maio de 2018

Pode um homem repudiar a sua mulher?

       Jesus pôs-Se a caminho e foi para o território da Judeia, além do Jordão. Voltou a reunir-se uma grande multidão junto de Jesus e Ele, segundo o seu costume, começou de novo a ensiná-la. Aproximaram-se então de Jesus uns fariseus, que, para O porem à prova, Lhe perguntaram: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio para se repudiar a mulher». Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo sobre este assunto. Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério» (Mc 10, 1-12).
       A pergunta colocada a Jesus tem a sua pertinência e tem certamente muita atualidade. Porém, a resposta não é reactiva, Jesus não apresenta uma solução face à dificuldade que possa existir no relacionamento do casal, do homem e da mulher. Nesta como em outras situações, ao invés de ficar com muitas explicações, justificações, a argumentar, Jesus aponta um ideal a prosseguir: qualidade nas relações, empenho, diálogo, paciência, caridade. O cristão não pode apostar nos mínimos garantidos. Não há uma receita. O desafio é sempre melhorar, na família, na sociedade, na Igreja, dar o máximo, alegrar-se no serviço ao outro, não desistir das pessoas, procurar viver a unidade com os outros, estar atento aos pequenos sinais, dar atenção às pessoas que estão perto, não descurar os pormenores com a desculpa de falta de tempo, não esconder as dificuldades mas assumi-las e procurar que não sejam obstáculo.
       Mas atenção: quando Jesus aponta um ideal não o faz para aligeirar a nossa ambição. Pelo contrário, o ideal apontado é sempre uma possibilidade que deveremos buscar, com a ajuda da oração, com a força da fé, confiantes que Deus sustenta a nossa vida e a nossa relação com os outros. Chegam-nos experiências que servem de testemunho e desafio mas que podem também servir de exemplo para outros. Há casais que terminam o dia de mãos dadas, mesmo que tenham discutido. Não adormecem sem dar as mãos, sem se beijarem e sem rezar uma avé-maria ou um pai-nosso juntos...

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Não sejais motivo de escândalo

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de pecado, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de pecado, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de pecado, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga». Na verdade, todos serão salgados com fogo. O sal é coisa boa; mas se ele perder o sabor, com que haveis de temperá-lo? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros» (Mc 9, 41-50).
       Em primeiro lugar, a certeza: ninguém ficará sem recompensa por fazer o bem, mesmo que seja um copo de água dado em nome de Jesus.
       Por outro lado, nada de escandalizar, com palavras e obras, os que nos rodeiam, especialmente as pessoas mais simples. Quanto maior for o nosso esclarecimento e a nossa responsabilidade, maior há-de ser o nosso compromisso com os outros, com a verdade, com o bem, com Jesus Cristo.
       No mundo a nossa postura deverá ser a de Jesus Cristo, no mundo mas sem sermos do mundo. Deveremos ser como o sal na comida, temperar, dar sabor e sentido ao mundo actual e contribuir positivamente para a sua transformação.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Quem não é contra nós é por nós

       João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impe-dir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós» (Mc 9, 38-40).
       O ciúme e a inveja, a partir de uma certa dose destroem, matam, são um empecilho para o bem, para a caridade. Os discípulos encontram alguém que em nome de Jesus faz o que eles fazem, anuncia Jesus e realiza prodígios. Logo, os discípulos, sentindo-se invadidos, procuram impedi-lo por ele não estar, não e não fazer parte do GRUPO. O argumento não é que esse homem estivesse a fazer mal, mas simplesmente porque não faz parte do grupo.
       À primeira vista sentem-se ameaçados no seu posto, como se o bem que outros fazem pudesse diminuir ou desfocar o bem que eles podem fazer. Por outro lado, bem visível, ciosidade grupal, quem está fora racha lenha, não deve ter acesso à mesma glória. Também as fronteiras de Jesus são mais largas, ou melhor, as fronteiras são também ponto de encontro e não de divisão. Se ele não está contra, então já começou a estar a favor, já está a caminho. Por outras palavras, é possível que outros, outros grupos, possam fazer o bem e manifestarem o poder de Deus.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja

Maria, Mãe da Igreja…
A Cruz, a Hóstia e a Virgem Maria 

       O Papa Francisco propôs a toda a Igreja a memória (litúrgica) da Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, a celebrar na segunda-feira a seguir à solenidade de Pentecostes, este ano a 21 de maio. O decreto Ecclesia Mater foi publicado a 11 de fevereiro de 2018, no 160.º aniversário da primeira aparição da Virgem Maria em Lurdes. 
       Há lugares e ordens religiosas que já celebravam sob esta invocação. O Papa quis que esta invocação fosse celebrada em toda a Igreja. 
       O decreto dá a tónica deste sublinhado: «A Mãe, que estava junto à cruz (cf. Jo 19, 25), aceitou o testamento do amor do seu Filho e acolheu todos os homens, personificado no discípulo amado, como filhos a regenerar à vida divina, tornando-se a amorosa Mãe da Igreja, que Cristo gerou na cruz, dando o Espírito. Por sua vez, no discípulo amado, Cristo elegeu todos os discípulos como herdeiros do seu amor para com a Mãe, confiando-a a eles para que estes a acolhessem com amor filial»
       A vida dos cristãos há de assentar em três pilares, como salienta o mesmo decreto: «Esta celebração ajudará a lembrar que a vida cristã, para crescer, deve ser ancorada no mistério da Cruz, na oblação de Cristo no convite eucarístico e na Virgem oferente, Mãe do Redentor e dos redimidos». 
       Na verdade, a promoção desta devoção visa favorecer o sentido materno da Igreja nos pastores, nos religiosos e nos leigos. Integra, se quisermos, a revolução da ternura tantas vezes proposta pelo Papa Francisco. 
       No comentário ao decreto publicado, o Cardeal Robert Sarah (Prefeito da Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos), enfatiza o conteúdo desta devoção mariana: «O desejo é que esta celebração, agora para toda a Igreja, recorde a todos os discípulos de Cristo que, se queremos crescer e enchermo-nos do amor de Deus, é preciso enraizar a nossa vida sobre três realidades: na Cruz, na Hóstia e na Virgem – Crux, Hostia et Virgo. Estes são os três mistérios que Deus deu ao mundo para estruturar, fecundar, santificar a nossa vida interior e para nos conduzir a Jesus Cristo. São três mistérios a contemplar no silêncio»
       O sim de Maria faz d’Ela a Mãe de Jesus. A Igreja é o Corpo de Cristo e nós somos os membros deste corpo. Maria é Mãe de todo o Corpo, de Cristo, em primeiro lugar, e dos membros, que somos nós. É, com propriedade, Mãe nossa, Mãe da Igreja. Com Ela aprendamos a doçura da intercessão e da proximidade a Jesus.

Texto publicado originalmente na Voz de Lamego, 22 de maio de 2018

Quem quiser ser o primeiro será o último de todos

       Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia, mas Ele não queria que ninguém o soubesse; porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens e eles vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará». Os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de O interrogar. Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis no caminho?». Eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles, abraçou-a e disse-lhes: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou» (Mc 9, 30-37).
        A sensibilidade de Jesus é evidente no trato com os discípulos. Eles discutem. Jesus não intervém de imediato. Ou os chama à parte para falar com eles, ou lhes explicar alguma situação. Do mesmo modo os discípulos não perguntam a torto e direito, perguntam quando chegam a casa, ou quando estão a sós com Jesus. É mais uma lição interessante, num aspeto muito concreto da vida, para os pais e para os filhos, para os professores e para os alunos, sobretudo quando há necessidade de "repreender".
       Já estavam em casa quando Jesus os questiona. Depois de ouvirem Jesus a revelar tempos futuros de perseguição e morte, os discípulos ficam apreensivos e ansiosos com o que se vai passar, e procuram saber que lugar/papel ocupará cada um nessa ocasião. Estão ainda numa perspetiva muito incipiente, de disputa de lugares, de poder, de chefia. Jesus assenta-lhes o estômago: o maior é o que estiver a servir mais o seu semelhante.

sábado, 19 de maio de 2018

Solenidade de Pentecostes - 20 de maio de 2018

Simão Pedro, tu, segue-Me

       Pedro, ao voltar-se, viu que o seguia o discípulo predilecto de Jesus, aquele que, na Ceia, se tinha reclinado sobre o seu peito e Lhe tinha perguntado: «Senhor, quem é que Te vai entregar?» Ao vê-lo, Pedro disse a Jesus: «Senhor, que será deste?». Jesus respondeu-lhe: «Se Eu quiser que ele fique até que Eu venha, que te importa? Tu, segue-Me». Divulgou-se então entre os irmãos o boato de que aquele discípulo não morreria. Jesus, porém, não disse a Pedro que ele não morreria, mas sim: «Se Eu quiser que ele fique até que Eu venha, que te importa?» É este o discípulo que dá testemunho destes factos e foi quem os escreveu; e nós sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. Jesus realizou muitas outras coisas. Se elas fossem escritas uma a uma, penso que nem caberiam no mundo inteiro os livros que era preciso escrever. (Jo 21, 20-25).
       Esta é uma situação ilustrativa da postura de Jesus.
       Os outros devem merecer-nos toda a preocupação. Jesus dá a vida por nós ao invés de salvar a Sua pele. No entanto, a preocupação pelos outros deve significar serviço ao próximo, dedicação, entrega, e não inveja, ciúme, maledicência. Pedro pergunta a Jesus pelo discípulo predilecto. Jesus responde-lhe que o importante para ele e para os outros é que cada um faça a sua parte e o faça bem. "Tu, segue-Me". O outro tem a melhor parte? E como definimos isso? O outro tem qualidades que eu queria ter? E as qualidades que eu tenho faço-as render? A vida do outro é melhor, é mais faustosa? Como é que sei disso? Será que o outro não inveja também a minha vida?

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Simão Pedro, tu amas-Me?

       Quando Jesus Se manifestou aos seus discípulos junto ao mar de Tiberíades, depois de comerem, perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, amas-Me tu mais do que estes?». Ele respondeu-Lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta os meus cordeiros». Voltou a perguntar-lhe segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-Me?». Ele respondeu-Lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas». Perguntou-lhe pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu amas-Me?». Pedro entristeceu-se por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez se O amava e respondeu-Lhe: «Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; mas quando fores mais velho, estenderás a mão e outro te cingirá e te levará para onde não queres». Jesus disse isto para indicar o género de morte com que Pedro havia de dar glória a Deus. Dito isto, acrescentou: «Segue-Me». (Jo 21, 15-19).


       O seguimento de Jesus não exige talentos especiais, nem cursos, nem riquezas materiais, a única exigência é o amor. Por isso, Jesus não pergunta a Pedro se tem muitas qualidades e habilitações, se é mais ou menos instruído, pergunta-lhe: Pedro, tu amas-Me. Depois da resposta de Pedro, Jesus diz-lhe: "Segue-Me". Só amando verdadeiramente Jesus, podemos segui-l'O.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Somente os doentes se curam

Luigi Maria Epicoco (2018). Somente os doentes se curam. O lado humano do (não) crente. Lisboa: Paulus Editora. 120 páginas.
       Quem recomenda um livro, uma leitura, é porque acha oportuno para que outros possam apreciar a escrita e sobretudo o conteúdo. Este é um pequeno livro que parte do encontro de Jesus com os discípulos de Emaús, para nos falar do cuidado, a atenção, a cura, a Igreja como estalagem, como lugar para retemperar forças, readquirir coragem, regressar com a dignidade refeita.
       Mas nada melhor que ler alguns pedaços deste belíssimo trabalho. Numa altura que a questão da eutanásia se levanta na sociedade portuguesa, o que podemos fazer antes de chegarmos aí, antes de desistirmos do outro que sofre e pede ajuda?!

"A verdadeira viagem não é só chegar. A verdadeira viagem é tudo o que acontece entre a partida e a chegada"
"A autenticidade é aquilo que resta de nós quando perdemos tudo"
"Se não podemos viver, como poderemos ser livres?"
"A amizade é aquela relação que nos fazer permanecer humanos quando a vida nos tira tudo e nos leva até a perder a nossa humanidade"
"Preciso da amizade. Porque só onde houver amigos poderei encontrar coragem para dar a vida"
"Quando um homem não encontra amizade na mulher que ama, quando muito levará pão para casa, mas não dará a vida por aquela mulher.."
"Não somos amigos porque temos a mesma fé; somos amigos porque temos a mesma humanidade"
É a ausência de amigos que, às vezes, torna a vida insuportável. Não é nem a dor nem o mal que torna a vida impossível de viver, mas a ausência de amigos.
"O pedido de eutanásia é o grito da solidão pela ausência de amigos".
Precisamos mais de amigos do que de pão.
Sozinhos só conseguimos perceber as contradições, os absurdos, os vazios da vida...
"O infinito do verbo amar é ficar, é permanecer apesar de tudo.
Amar é ficar ao pé da cruz de quem se ama, bebendo até ao fim do cálice amargo da impotência.
A maior dor é não poder fazer nada perante o sofrimento de quem se ama.
Mas o amor verdadeiro é ficar apesar da impotência, apesar de não podermos carregar aquela cruz.
O amor é Maria e João aos pés da Cruz.
O amor é Cristo que morre apesar de tudo, mas não estando sozinho...
Amamos quando permanecemos, mesmo quando já não vale a pena ficar"

"O amor é ficar quando o Sol se põe e o dia escurece."

Estalagem - Igreja

"Só o Templo e o Sagrado nos preparam para reconhecer Deus misturado na história"
"O erro é pensarmos que o Sagrado pode conter Deus"
"É a beleza da liturgia que me pode ajudar a reconhecer Cristo mesmo no rosto dos pobres, ou na beleza da criação ou nas sombras de uma dor ou no esplendor de uma alegria..."

A estalagem também é familiaridade, acolhimento e refúgio para a noite. Com frequência pergunto a mim mesmo se a Igreja será ou não um lugar onde paramos para restaurar forças. Um lugar não para morar, mas antes e sempre um pedacinho da casa que encontramos, um lar onde possamos reaquecer-nos, onde encontramos uma iguaria quente para satisfazer aquela fome de felicidade que nos instigou ao caminho.
A Igreja é a estalagem, não a habitação definitiva que, para nós, cristãos, é o Céu.
A Igreja é feita de homens e os homens fazem-se também das suas quedas, das suas fragilidades e das suas incoerências; mas podem, no entanto, ser tocados pela misericórdia de Deus. E a experiência da misericórdia não consiste na anulação da nossa humanidade, mas na posse da íntima certeza de que, por mais que caiamos, fomos feitos para estar de pé. Que, por mais que possamos errar, fomos feitos para as coisas certas. Que, embora possamos fazer mal, somos feitos para amar. A misericórdia e Deus são aqueles braços de mãe de de pais que nos põem de pé quando caímos, quando ainda estávamos a aprender a caminhar. Não podemos evitar que na Igreja haja quedas, mas podemos fazer com que a Igreja tenha a experiência da misericórdia. E a experiência da misericórdia não é uma esmola dada de cima para baixo. A misericórdia é a experiência de sentir-se acolhido, escutado e levado a sério. A misericórdia é a experiência da verdade que ilumina e aquece, mais ainda do que aquela verdade que julga e humilha.... A misericórdia é a beleza que une as nossas liturgias ao rosto dos pobres, e a nossa caridade ao único pão que realmente conta: Jesus Cristo. Aso nossos pobres damos roupas e comida, mas quase nunca nos apercebemos de que a única verdadeira caridade é dar-lhes Cristo juntamente com as roupas e a comida. A estalagem não é só um prato quente e um lugar abrigado. Por isso, a Igreja nunca é simplesmente um espaço, é, antes de tudo, alguém. A Igreja é o povo de Deus.
Esta hospedaria é, antes de mais, aquele lugar onde a Eucaristia acontece à mesa. Não basta estarmos juntos para dizer que somos Igreja. Não basta o culto das festas para tornar-nos comunidade. Não basta que nos sentemos uns ao lado dos outros para dizer que também encontrámos Cristo. A experiência da Igreja é a experiência daquele lugar onde acontece Eucaristia. Onde Aquele estrangeiro parte o pão diante dos nossos olhos e faz que O reconheçamos precisamente «ao partir do pão». Sem Eucaristia, a estalagem torna-se um mero entretenimento....

"Todos se sentam igualmente à volta da mesma mesa. No máximo uma hierarquia de lugares, mas existe igualdade de perspetiva. Sentados à mesa podemos olhar-nos olhos nos olhos. Mas olhar nos olhos não faz que cada um de nós deixe de ser ele próprio."

Há uma tremenda intimidade no gesto de comer do mesmo prato... a partilha cria comunhão... Sem partilha não há comunhão... É a comunhão que nos torna mais humanos....

Jesus escolhe os pés. Talvez o faça porque debaixo da planta dos pés da pessoa está o mapa do caminho que percorreu. Onde foi, em que poça caiu, que veredas fatigantes percorreu ou quanta erva fresca calcou. Os pés são o símbolo de tudo aquilo que percorremos com a nossa vida. Lavá-los significa libertar-se de toda aquela terra, , muito frequentemente feita de dor, que ficou agarrada a eles. Só quando alguém se afastou significativamente da sua própria história é que pode sentar-se à mesa com Jesus e ouvi-l'O; diferentemente, continuará  manter o pensamento naquela terra, naquela dor, naqueles pedras cravadas na carne, e já não haverá tempo para aperceber-se de mais nada além dos seus próprios pés. Não haverá pores do sol ou paisagens, rostos ou amor, esperanças ou silêncios, cores ou músicas. Toda a atenção se fixará sempre no seu mapa secreto relegado para o fundo do nosso corpo, naquela parte que toca a terra com todo o resto do corpo, da cabeça ao coração... Jesus liberta os discípulos de uma atenção errada e habilita-os a sentir, a ver, a aperceber-se, a comer, a saborear, a chorar...
O cristianismo é pôr-se de joelhos diante dos pés dos outros e não a curvar-se aos próprios... Deixar que nos lavem os pés e lavarmos os pés uns aos outros.

"Comer é partir, despedaçar, mastigar, destruir...
Quem não tem fé é que precisa de ver...

"O cristão é um porteiro que não deve adormecer... Na prática somos cristãos não só para nós mesmos mas principalmente para os outros.
O Senhor deu-nos a fé como um posto de trabalho"

"Depois da Ressurreição de Jesus, há fundamentalmente dois lugares onde podemos encontrar Cristo: na Eucaristia e no ser humano.
A Eucaristia, representada pela pobreza do pão, é o lugar onde Ele continua a estar presente na História. Isto é escandaloso, como Paulo no-lo recorda; e é escandaloso porque nos é inconcebível que Deus possa estar numa coisa tão simples tão frágil.

"Como homens não somos chamados à Cruz, mas à Ressurreição, tal como um mãe não é chamada às dores mas ao parto. As coisas estão ligadas entre si, mas com um diferença radical: as dores são temporárias e subordinadas ao parto. E o que nasce é infinitamente mais do que aquele momento doloroso. ... Ele não nos trouxe uma cruz para também nós sermos crucificados. Ele não é um Deus que ama o nosso sofrimento, porque até foi pregado nas cruzes de cada um de nós, recordando-nos de que são provisórias, precárias e a prazo, como todas as coisas desta jornada da vida.

Papa FRANCISCO - DEUS É JOVEM

FRANCISCO (2018). Deus é Jovem. Uma conversa com Thomas Leoncini. Lisboa: Planeta. 128 páginas.
       Tudo o que traz o nome do Papa Francisco chama a atenção e desperta simpatia e curiosidade. Mas não é nenhum favor. O magistério do Papa está constantemente a ser comentado, discutido, escrutinado. É, sem dúvida, uma personalidade que tem o favor da maioria dos meios de comunicação social e desde a primeira hora granjeou a admiração de católicos, de crentes, e de pessoas do mundo inteiro, ainda que, como é óbvio, também suscite maledicência, ódios, suspeições.
       Mas mais que ler comentários acerca de uma pessoa, o recomendável é ler e/ou ouvir o que escreveu e/ou o que disse e escreveu. Não faltam textos, mensagens, discursos, frases. Atente-se, porém, ao facto de também circularem frases e textos que lhe são atribuídos mas que efetivamente não são da sua autoria, pois atribuir-lhos permite uma muito maior divulgação! Por conseguinte, numa perspetiva de verdade, convém saber as fontes, a originalidade, o fundamento. Nada como consultar a página da Santa Sé - https://w2.vatican.va/content/vatican/pt.html - ou as Notícias do Vaticano - https://www.vaticannews.va/pt.html - ou a presença no Papa nas plataformas como Instagram ou Twitter, mas que se encontram referenciadas nas duas páginas anteriores; em Portugal, entre outras páginas fidedignas, a Agência Ecclesia e a Rádio Renascença.
       Dito isto, há muitos textos, entrevistas, mensagens que estão publicadas e acessíveis. Hoje a nossa sugestão vai para esta entrevista com Thomas Leoncini. Em vésperas do Sínodo sobre os jovens, o título é, já por si, ilustrativo, da preocupação de envolver os jovens na vida da Igreja e do mundo, preparando-os hoje, escutando-os, dando-lhes voz e vez, envolvendo-os nas decisões do presente e do futuro. Para quem escutou ou leu as homilias do Papa, mensagens, documentos, reconhece o estilo, a linguagem, o conteúdo. Com efeito, a simplicidade do Papa argentino reveste-se de profundidade, de fé, de entusiasmo, mas não de ingenuidade, como ele próprio afirmou em outras entrevistas. A coerência é visível, para quem teve oportunidade de ler homilias e entrevistas do Papa quando ainda era cardeal em Buenos Aires, ou outras intervenções anteriores.
       Na entrevista, sobressai a proposta de colocar em diálogo privilegiado os jovens e os velhos, o sonho e a esperança, a memória e o futuro, o entusiasmo e a serenidade. Com efeito, unindo os extremos poderá ser a melhor garantia para salvar a humanidade, retirando-a de manipulações, medos, instrumentalização, recusando a cultura do descarte a favor da cultura do encontro, da misericórdia, do diálogo.
       É mais um extraordinário contributo para compreender o pensamento e a vida do atual Pontífice, sem filtros, acessível, direto, sem fugir ou contornar as questões, como expectável no Servo dos Servos de Deus. O crédito às gerações presentes e futuras, os seus anseios, as suas garras, ao serviço da inclusão, da humanização das relações entre pessoas, dentro das famílias, na política e na cultura, em dinâmica de diálogo franco, sincero, frontal, mas visando o compromisso e compromisso que transformem a sociedade, o mundo deste tempo, preparando-nos para o dia de amanhã.
       Boa leitura.

VL – A Páscoa gera esperança, vida e comunidade

Jesus é a nossa Páscoa. A vida toda se encaminha para este grande e admirável mistério da nossa salvação. Tudo acontece e tudo parte da Páscoa de Jesus, da Sua paixão redentora, da Sua ressurreição e ascensão aos Céus, para junto do Pai, que Ele nos revela e que n'Ele e por Ele Se nos dá na oferenda da Sua vida por inteiro. 

A morte, diante da Ressurreição, é, afinal, um momento provisório. Sério, intenso, dramático, desolador, mas ainda assim passageiro, momentâneo, pois o que é definitivo é a vida em Deus. Se tudo tivesse ficado naquele sepulcro, onde 40 horas antes foi depositado, então a dispersão seria completa, a vida incompleta, o vazio encheria e destruiria a esperança que n'Ele muitos colocaram. 

Depois do sábado, dia sagrado para os judeus, Maria Madalena, na versão joanina e que nos foi proposta em dia de Páscoa, ainda escuro, vai ao sepulcro, vê a pedra retirada e imediatamente corre para avisar Sião Pedro e o discípulo amado: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». A desolação continua! Pedro e o discípulo amado correm para ir ver o que aconteceu. Ao entrarem no túmulo e, vendo a disposição das ligaduras e do sudário, percebem que algo de extraordinário aconteceu, conforme o Mestre predissera e segundo as Escrituras, Jesus já não Se encontra no túmulo, mas está vivo, ressuscitou! 

A Páscoa de Jesus, a ressurreição de entre os mortos, algo de inusitado e ao alcance somente de Deus – «A ressurreição é um acontecimento dentro da história, que, todavia, rompe o âmbito da história e a ultrapassa» (Joseph Ratzinger/Bento XVI) –, gera conforto, alegria, esperança, gera comunidade e encontro. 

A condenação de Jesus, a Sua crucifixão e a Sua morte são geradoras de dispersão, de abandono, de desolação. Os discípulos perderam Aquele que os mantinha unidos como grupo. Há, ainda, resquícios dos elos que antes se tinham criado, veja-se a cadeia de testemunho: Maria Madalena vai ter com Pedro e com o discípulo amado e os dois vão juntos ao túmulo de Jesus. É possível que a presença de Maria, Mãe de Jesus, tenha agilizado e fortalecido os laços de proximidade e comunhão. 

Na estrada de Emaús, os dois discípulos expressam bem o desconforto que provocou a morte de Jesus, as esperanças que n'Ele tinham depositado e como tudo se esboroou! Com o Seu regresso ao convívio dos vivos, os elos que ligavam os discípulos, a motivação para estarem juntos regressa em força. A esperança é alimentada pela presença do Senhor ressuscitado!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4455, de 3 de abril de 2018

VL – Passar da carne de Cristo para a carne dos irmãos

É o mistério da nossa fé, é a Páscoa de Jesus Cristo, é a Igreja, a Eucaristia.

A fé leva-nos à celebração do que professamos. Fazemos memorial, recordando o passado e tornando-o presente na nossa vida e no nosso tempo. Jesus deu-nos o Espírito Santo e o Espírito Santo dá-nos, na Igreja, nos Sacramentos, dá-nos Jesus no Seu mistério de entrega e de vida nova.

Por sua vez, a celebração do mistério pascal fixa-nos em Jesus Cristo, pois o que está em jogo é o Seu corpo, a Sua vida dada e recebida pelo Pai, dada e recebida pelos Seus seguidores. De uma vez para sempre, Jesus Se ofereceu até à morte na Cruz. Uma e outra vez, sempre, quando fazemos o mesmo que Ele faz, em comunidade, pela ação do Espírito Santo, anunciamos a Sua morte até que Ele venha, deixamos que a Sua ressurreição nos torne novas criaturas.

Isto vale para o Sacramento – a Eucaristia por excelência – vale para a vida. A instituição da Eucaristia e o Lava-pés surgem no mesmo contexto, a mesma entrega de Jesus que nos envolve no cuidado aos irmãos. Quem come a Sua carne, comungando-O, não pode deixar de comungar o Seu proceder, a Sua opção preferencial pelos mais frágeis. Não há Missa, bem celebrada, que não leve à missão. A Eucaristia eucaristia-nos!

Na última Audiência Geral das quartas-feiras (4 de abril), o Papa Francisco, culminando uma série de catequeses dedicadas à Eucaristia, evidenciava que «os cristãos não vão à missa para cumprir um dever semanal e depois se esquecer. Vão à missa para participar da ressurreição do Senhor e depois viver mais como cristãos… Participar na Eucaristia compromete-nos em relação aos outros, de maneira especial aos pobres, educando-nos a passar da carne de Cristo para a carne dos irmãos, onde Ele espera ser por nós reconhecido, servido, honrado e amado». A fé não nos espiritualiza, a fé encarna-nos na vida dos outros, pois também Jesus encarnou na nossa humanidade. Uma fé desencarnada não é, certamente, fé cristã!

Pode intuir-se que Tomé (cf. Jo 20, 19-31), e nós com ele, será mais feliz se tiver a capacidade de tocar as feridas dos irmãos e perceber que cuida das chagas dos irmãos.

Um jornalista disse a Santa Teresa de Calcutá que nem por um milhão dólares daria banho a um leproso. Ela respondeu-lhe que também não o faria, por preço nenhum, mas fazia-o por amor, lembrando que amar a Deus e amar os irmãos formam o mesmo mandamento de amor.

João Batista Libânio - a Ética do Quotidiano

LIBÂNIO, João Batista (2015). A Ética do Quotidiano. Obra póstuma. Prior Velho: Paulinas Editora. 200 páginas.
       O autor terminou a revisão final, em vésperas de morrer. A pendrive só foi encontrada algum tempo depois, mas permitiu a publicação desta obra sobre a ética do quotidiano. Crescendo num ambiente em que o contacto com a extrema pobreza vive ao lado da riqueza luxuosa, num país marcado pelos problemas sociais, tráfico de droga, guetos, favelas, conflitos, assaltos, trabalho infantil, exploração sexual, o autor brasileiro é uma das vozes esclarecidas da Teologia da Libertação.
       A sua reflexão, porém, não se enreda na luta de classes, na destruição de uns para outros ocuparem os seus lugares, mas aponta à transcendência, para garantir a perenidade dos valores, da ética, da vida, da dignidade da pessoa. O convite é que a racionalidade se abre ao divino sob pena de tudo relativizar.
       No primeiro capítulo, as questões sobre a vida, sublinhando os avanços científicos e tecnológicos, mas apresentando a ética da pessoa, da sua vida e da sua dignidade, acima de experiências ou instrumentalização em prol da ciência, do lucro, jogando com o controlo da vida, quer no início quer no fim. A a religião, a fé, é a garantia que a vida não pode ser relativizada, pois só Deus é o Senhor da vida e da morte. Quem não admite a existência de Deus cedo cederá ao relativimo.
       O segundo capítulo é um tema que continua na ordem do dia, a ecologia, o cuidar da casa comum. O perigo da destruição da terra, a escassez da água, a crise energética, as catástrofes, os dois extremos, a terra regenera-se por maior que seja a destruição, ou a um ecologismo que sacrificaria a pessoa em prol do ambiente. É possível a coabitação. Também aqui a dimensão da fé, da religião, da Bíblia. Deus criou o ser humano e deu-lhe o cuidado do mundo, não para o destruir, mas para o administrar.
       No terceiro capítulo, a ética e o cuidado, partindo desde logo do cuidado da mãe em relação ao filho, alargando-se à vida, olhando para os outros como semelhantes, não como estorvo ou empecilho, ainda que desde o início, com Caim e Abel, as pessoas vejam os irmãos como inimigos a abater. O cuidado é atitude de quem reconhece o outro como igual, como auxiliar, como imagem e semelhança de Deus.
       No quarto capítulo, a educação da ética, sublinhando a importância da educação, desde o berço, em casa, passando pela infância, pela adolescência, pela juventude. A educação é fundamental para salvar a humanidade, para salvar o mundo.
       No quinto capítulo, a ética e o mundo da informação. Num mundo em que parece valer tudo, o direito à informação e à devassa sobrepõe ao direito à dignidade e à privacidade. Aqui como em outras dimensões da vida, há de encontrar-se o equilíbrio, na certeza de que não vale tudo. O direito de informar terá em conta o bem e a verdade, a dignidade das pessoas.

Vale a pena ler também o dissensão do portal do

Alberto Mendes - CUIDADOS PALIATIVOS

MENDES, A.P.M. (2016). Cuidados Paliativos. Diagnóstico e intervenção espiritual. Lisboa: Multinova. 144 páginas.
       A vida é a raiz, o fundamento, o início de tudo o que tem a ver com o ser humano. Só depois vem o sofrimento, a morte, os conflitos, a desistência, a comodidade, a inveja, o egoísmo! Por conseguinte, para a Igreja, para os cristãos, mas também para cada pessoa de boa vontade, a vida deveria estar em primeiro lugar, a vida e o bem, a verdade e a beleza, a bondade e a ternura, a compaixão e o amor!
       Num tempo em que a comodidade é colocada em primeiro lugar, o sofrimento surge como um empecilho mortal, e aqueles que sofrem roubam-nos a tranquilidade de uma vida indolor! Com efeito, tudo devemos fazer para resistir ao mal e combater o sofrimento! Tudo, tudo o que nos humaniza e dá mais qualidade à nossa vida e das pessoas que estão à nossa beira. O sofrimento, a doença e a morte estão no horizonte da vida, mas deveria prevalecer a amizade, a empatia, a audácia de gastar a vida a favor dos outros.
       Aproximamo-nos perigosamente do fim, pois a vida parece deixar de ser mistério, dom, e de ser inviolável, para ser descartável, tal como as pessoas. A vida é manipulável desde o início até ao fim, logo que surjam dificuldades ou se vislumbre sofrimento. A resposta de alguns ou de muitos, e do Estado parece ser: acabe-se com a vida para acabar com o sofrimento! Depois da despenalização do aborto, da sua legalização e do financiamento do mesmo, em nome da modernidade, é agora tempo de discutir e propor a eutanásia e suicídio assistido, legalizando, promovendo e financiando a morte, quando, por todas as razões, se deveria apoiar, promover, proteger, financiar, celebrar a vida, dispensando recursos para tal!
       Neste contexto, pode ser incluído e recomendado um livro como este, que enfrenta as incompreensões do sofrimento, da doença e da morte inevitável, procurando ajudar, envolver e minorar o sofrimento dos doentes (terminais), apoiando também as suas famílias, reconhecendo-os como interlocutores, respeitando os seus ritmos, os silêncios.
       A proposta é abrangente, multidisciplinar, contemplado clínicos, psicólogos, capelão, atendendo aos aspetos físicos, psicológicos, espirituais, procurando uma permanente ligação à família. A diminuição da dor passa também por dignificar o mistério da pessoa, as suas dúvidas e anseios, os seus medos e os seus ritmos. 

... para que sejam consumados na unidade!

        Jesus ergueu os olhos ao Céu e disse: "Pai santo, não peço somente por eles, mas também por aqueles que vão acreditar em Mim por meio da sua palavra, para que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós e o mundo acredite que Tu Me enviaste. Eu dei-lhes a glória que Tu Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam consumados na unidade e o mundo reconheça que Tu Me enviaste e que os amaste como a Mim. Pai, quero que onde Eu estou, também estejam comigo os que Me deste, para que vejam a minha glória, a glória que Me deste, por Me teres amado antes da criação do mundo. Pai justo, o mundo não Te conheceu, mas Eu conheci-Te e estes reconheceram que Tu Me enviaste. Dei-lhes a conhecer o teu nome e dá-lo-ei a conhecer, para que o amor com que Me amaste esteja neles e Eu esteja neles" (Jo 17, 20-26).
       A oração de Jesus não é somente prece/súplica, é também desafio aos seus discípulos, daquele e deste tempo, de todos os tempos. Por isso, Jesus pede por aqueles e por todos aqueles que vão acreditar. Jesus pede a unidade, que brota, tem a sua raiz, no amor de Deus. Deus ama-nos, se permanecermos no Seu amor, permanecemos unidos.
       Num mundo e num tempo de grandes divisões no mundo e na Igreja, apesar desta aldeia global que a comunicação engendra, as palavras de Jesus ressoam com mais força, sabendo que na construção da unidade está a construção de uma sociedade mais fraterna, mais justa, mais humana. Por outro lado, a unidade inicia-se na oração. Vejam-se algumas iniciativas concretas entre confissões cristãs e/ou entre religiões. Pode não ser fácil o diálogo e a compreensão, mas a oração conjunta aproxima: reza-se ao mesmo DEUS. É um bom ponto de partida...

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Não peço que os tires do mundo...

       Eu sei que, depois da minha partida, se hão-de introduzir entre vós lobos devoradores que não pouparão o rebanho. De entre vós mesmos se hão-de erguer homens com palavras perversas, para arrastarem os discípulos atrás de si. Por isso, sede vigilantes e lembrai-vos que, durante três anos, noite e dia, não cessei de exortar com lágrimas cada um de vós. Agora entrego- vos a Deus e à palavra da sua graça, que tem o poder de construir o edifício e conceder a herança a todos os santificados (Atos 20, 28-38).
       Jesus ergueu os olhos ao Céu e orou deste modo: «Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que Me deste, para que sejam um, como Nós. Quando Eu estava com eles, guardava-os em teu nome, o nome que Me deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição; e assim se cumpriu a Escritura. Mas agora vou para Ti; e digo isto no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da minha alegria. Dei-lhes a tua palavra e o mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo. Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade» (Jo 17, 11b-19).

       Jesus é o Sacerdote por excelência. O único Mediador entre Deus e os homens. N'Ele a verdadeira humanidade e a verdadeira divindade. Traz-nos Deus, e coloca a nossa natureza em Deus. Também na Oração Jesus assume o Seu sacerdócio a favor da humanidade. Reza pedindo por nós. Consagra-Se por nós, por nossa salvação.
       Nesta parte da oração fica bem claro: o mundo é o espaço de compromisso dos seguidores de Jesus. Ele não pede ao Pai para nos tirar do mundo, mas para nos livrar do mal.
       Jesus, na Oração Sacerdotal, ao pedir ao Pai pelos discípulos, despede-se deles. O mesmo acontece com São Paulo que se despede da comunidade de Éfeso. Explicitamente Jesus reza para que Deus Pai proteja os Seus discípulos do mal. A consciência é apurada: eles não são do mundo mas estão no mundo. O desejo de Jesus é que os seus seguidores partilhem da Sua alegria e da verdade.
       Por seu lado, São Paulo, que esteve três anos em Éfeso, despede-se da comunidade com palavras de advertência, na consciência que depois de partir alguns "lobos" se converterão em cordeiros para adulterar o trabalho realizado. Ecoam as palavras de Bento XVI, que ao chegar a Portugal, ainda no avião, utiliza palavras próximas das de São Paulo, alguns dentro da própria comunidade, ou nas palavras do Papa, alguns dos ataques mais ferozes vem do interior da Igreja, do pecado dos seus membros. A vigilância deve ser constante.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Eu já não estou no mundo, mas eles estão...

       Jesus ergueu os olhos ao Céu e disse: «Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho Te glorifique e, pelo poder que Lhe deste sobre toda a criatura, Ele dê a vida eterna a todos os que Lhe confiaste. É esta a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo. Eu glorifiquei-Te sobre a terra, consumando a obra que Me encarregaste de realizar. E agora, Pai, glorifica-Me junto de Ti mesmo com aquela glória que tinha em Ti, antes que houvesse mundo. Manifestei o teu nome aos homens que do mundo Me deste. Eram teus e Tu mos deste e eles guardam a tua palavra. Agora sabem que tudo quanto Me deste vem de Ti, porque lhes comuniquei as palavras que Me confiaste e eles receberam-nas: reconheceram verdadeiramente que saí de Ti e acreditaram que Me enviaste. É por eles que Eu rogo; não pelo mundo, mas por aqueles que Me deste, porque são teus. Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu; e neles sou glorificado. Eu já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, enquanto Eu vou para Ti» (Jo 17, 1-11a).
       Jesus aproxima-Se da Sua hora, de ser glorificado pela morte e ressurreição.
       Antes e como faz em todos os momentos cruciais, esta magnífica oração, conhecida como Oração Sacerdotal, uma vez que Jesus surge como verdadeiro Mediador entre Deus Pai e os Apóstolos, em Deus e a humanidade inteira.
       É uma oração riquíssima, repleta de ensinamentos. Por lado, mostra a soberania de Deus e de Jesus sobre toda a criação. Por outro, a finalidade da vinda de Jesus: a vida eterna para todos os que acreditarem. A mediação: pelos que estão no mundo, para que não se percam mas sejam salvos pela oração de Jesus.
       Ficamos conscientes do que é importante também para nós: acreditar em Deus e n'Aquele que Ele enviou Jesus Cristo. É o ponto de partida e o ponto de chegada...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

São Matias, Apóstolo

       "Queremos recordar aquele que depois da Páscoa foi eleito o lugar do traidor. Na Igreja de Jerusalém a comunidade propôs dois para serem sorteados: "José, de apelido Barsabás, chamado justo, e Matias" (Atos 1, 23). Foi precisamente este o pré­-escolhido, de modo que "foi associado aos onze Apóstolos" (Atos 1, 26). Dele nada mais sabemos, a não ser que também tinha sido testemunha de toda a vicissitude terrena de Jesus (cf. Atos 1, 21-22), permanecendo-lhe fiel até ao fim. À grandeza desta sua fidelidade acrescenta-se depois a chamada divina a ocupar o lugar de Judas, como para compensar a sua traição. Tiramos disto mais uma lição: mesmo se na Igreja não faltam cristãos indignos e traidores, compete a cada um de nós equilibrar o mal que eles praticam com o nosso testemunho transparente a Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador".

BENTO XVI, A Santidade não passa de moda. Editorial Franciscana. Braga: 2010.
Audiência Geral de 18 de outubro de 2006: AQUI.


Oração de coleta:
       Senhor, que escolhestes São Matias para tomar parte no ministério dos Apóstolos, concedei, por sua intercessão, que nos alegremos sempre no vosso amor e sejamos um dia contados entre os vossos eleitos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

sábado, 12 de maio de 2018

Ascensão de Jesus ao Céu - ano B - 13 de maio de 2018

Agora deixo o mundo e vou para o Pai

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Em verdade, em verdade vos digo: Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará. Até agora não pedistes nada em meu nome: pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa. Tenho-vos dito tudo isto em parábolas mas vai chegar a hora em que não vos falarei mais em parábolas: falar-vos-ei claramente do Pai. Nesse dia pedireis em meu nome; e não vos digo que rogarei por vós ao Pai, pois o próprio Pai vos ama, porque vós Me amastes e acreditastes que Eu saí de Deus. Saí de Deus e vim ao mundo, agora deixo o mundo e vou para o Pai» (Jo 16, 23b-28).
       Jesus está de partida.
       Mas logo há-de voltar.
       A garantia é do próprio Jesus: não vos deixarei órfãos, enviar-vos-ei o Espírito Santo. Mais, como nos diz hoje, tudo o que pedirmos em Seu nome o Pai no-lo concederá. Não ficamos sós porque Ele nos dá o Espírito; não ficamos sós porque na oração estaremos em comunhão íntima com Ele e com o Pai; não ficaremos sós se cumprirmos os Seus mandamentos, porque Ele e o Pai farão em nós a Sua morada.
       Como refere o próprio Jesus, Ele veio ao mundo de junto de Deus Pai, "Saí de Deus e vim ao mundo" e, diz-nos também Ele, "agora deixo o mundo e vou para o Pai". O razão é a mesma: por amor. Porque o Pai nos ama vem até nós; e porque nos ama regressa ao Pai para que a morte biológica não seja um entrave à Sua presença no mundo.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A vossa tristeza converter-se-á em alegria...

       Em vésperas de celebramos a Ascensão do Senhor, que entre nós se celebra no próximo domingo, Jesus previne os discípulos dos tempos que se aproximam. O texto dos Atos dos Apóstolos mostram como Jesus, através do Espírito Santo, cumpre o que prometeu. Ele está presente, cooperando com os discípulos, manifestando-Se também nas dificuldades.
Quando Paulo estava em Corinto, certa noite o Senhor disse-lhe numa visão: «Não temas, continua a falar, que Eu estou contigo e ninguém porá as mãos sobre ti, para te fazer mal, pois tenho um povo numeroso nesta cidade». Então Paulo demorou-se ali ano e meio a ensinar aos coríntios a palavra de Deus. Quando Galião era procónsul da Acaia, os judeus levantaram-se todos contra Paulo e levaram-no ao tribunal, dizendo: «Este homem induz as pessoas a prestarem culto a Deus à margem da lei». Quando Paulo ia a abrir a boca, disse Galião aos judeus: «Judeus, se se tratasse de alguma injustiça ou grave delicto, escutaria certamente as vossas queixas, como é meu dever. Uma vez, porém, que são questões de doutrina e de nomes da vossa própria lei, o assunto é convosco. Eu não quero ser juiz dessas coisas». E mandou-os sair do tribunal. Todos então se apoderaram de Sóstenes, chefe da sinagoga, e começaram a bater-lhe em frente do tribunal. Mas Galião não se importou nada com isso. Paulo demorou-se ainda algum tempo em Corinto; depois despediu-se dos irmãos e embarcou para a Síria, em companhia de Priscila e Áquila, e rapou a cabeça em Cêncreas, por causa de um voto que fizera (Atos 18, 9-18)
       No Evangelho, o aviso e a promessa de Jesus:
«Em verdade, em verdade vos digo: Chorareis e lamentar-vos-eis, enquanto o mundo se alegrará. Estareis tristes, mas a vossa tristeza converter-se-á em alegria. A mulher, quando está para ser mãe, sente angústia, porque chegou a sua hora. Mas depois que deu à luz um filho, já não se lembra do sofrimento, pela alegria de ter dado um homem ao mundo. Também vós agora estais tristes; mas Eu hei-de ver-vos de novo e o vosso coração se alegrará e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria. Nesse dia, não Me fareis nenhuma pergunta» (Jo 16, 20-23a).

       A imagem que Jesus utiliza para explicar aos seus discípulos o misto de tristeza que os afeta com a alegria que estão para experimentar. Ele vai partir... e a separação física é sempre demasiado dolorosa, sobretudo quando se trata da morte biológica. Jesus anuncia a Sua morte, mas aponta já para a ressurreição. A morte e subsequente separação conduzirá os discípulos à desilusão, ao lamento, ao luto. Jesus não "evita" a morte física, mas prepara os discípulos para os novos tempos.
       Voltemos à imagem da mulher que está para ser mãe. Por ora as dores, o sofrimento, os enjoos e o incómodo de "carregar" com mais um corpo, uma vida. Mas nada se compara à alegria que está para vir. Suporta-se o sofrimento, por maior que seja, pensando sobretudo nas alegrias que chegarão com a chegada do fruto do amor, a vida nova. Assim deverá ser com os discípulos de Jesus Cristo. Preparam-se para O ver partir, e Jesus ajuda-os a ultrapassar os limites espaço-temporais, para se fixarem já na vida nova que está para vir, com o Espírito Santo.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Daqui a pouco já não Me vereis...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Daqui a pouco já não Me vereis e pouco depois voltareis a ver-Me». Alguns discípulos disseram entre si: «Que significa isto que nos diz: ‘Daqui a pouco já não Me vereis e pouco depois voltareis a ver-Me’, e ainda: ‘Eu vou para o Pai’?». E perguntavam: «Que é esse pouco tempo de que Ele fala? Não sabemos o que está a dizer». Jesus percebeu que O queriam interrogar e disse-lhes: «Procurais entre vós compreender as minhas palavras: ‘Daqui a pouco já não Me vereis e pouco depois voltareis a ver-Me’. Em verdade, em verdade vos digo: Chorareis e lamentar-vos-eis, enquanto o mundo se alegrará. Estareis tristes, mas a vossa tristeza converter-se-á em alegria» (Jo 16, 16-20).
        Jesus diz categoricamente aos seus discípulos que o seguimento não traz recompensas visíveis. Pelo facto de O seguirem, não terão a vida facilitada, ao invés, terão que enfrentar muitas provações. Este aviso tem como fito tranquilizar os discípulos, para que quando as dificuldades advierem não sejam apanhados de surpresa e desanimem.
       Mas Jesus, como prometido, não os deixará sós, enviará de junto do Pai o Espírito Santo que lhes revelará toda a verdade.
       Há situações na nossa vida que temos de ser nós a resolver, ninguém nos poderá substituir. Como por exemplo quando uma mãe quereria substituir o filho no sofrimento ou numa doença,... Mas o sabermos que podemos contar com alguém, que embora não resolva mas que se solidariza, compartilha o nosso sofrimento, isso dá-nos ânimo para superar a provação. Assim, o sabermos que Deus está também nas nossas dificuldades e preocupações, dá-nos alma para caminhar, para lutar, para vencer o que é humanamente possível vencer...

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Ainda tenho muitas coisas para vos dizer...

       Disse Jesus aos seus discípulos: "Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há-de vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vos há-de anunciá-lo. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vos há-de anunciá-lo" (Jo 16, 12-15).
       O anúncio de Jesus sobre o envio do Espírito Santo, Espírito de verdade, torna-se mais explícito e acentuado. A Sua partida não significará ausência, mas uma presença ainda mais entranhada no coração e na vida dos seus discípulos, por ação do Espírito Santo.
       Por outro lado, a assistência do Espírito Santo revelará toda a verdade que Jesus anunciou ao longo da Sua vida e com o mistério da Sua morte e ressurreição. O Espírito Santo é a garantia que Deus permanece na história dos homens.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Agora vou para Aquele que Me enviou

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Agora vou para Aquele que Me enviou e nenhum de vós Me pergunta: ‘Para onde vais?’. Mas por Eu vos ter dito estas coisas, o vosso coração encheu-se de tristeza. No entanto, Eu digo-vos a verdade: É do vosso interesse que Eu vá. Se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se Eu for, Eu vo-l’O enviarei. Quando Ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do julgamento: do pecado, porque não acreditam em Mim; da justiça, porque vou para o Pai e não Me vereis mais; do julgamento, porque o príncipe deste mundo já está condenado» (Jo 16, 5-11).
       Aproximamo-nos da celebração litúrgica da ASCENSÃO de Jesus ao Céu e, por conseguinte, o Evangelho mostra Jesus a preparar os seus discípulos para os tempos futuros, para a Sua "ausência" física, dando dicas concretas para que a ausência seja PRESENÇA até ao fim dos tempos.
       A partida de alguém, também a de Jesus, para os amigos e familiares, reveste-se sempre de alguma tristeza e apreensão. Se for por um tempo limitado, procura-se mitigar a dor pela brevidade do tempo e por outras formas de presença. telefonando, conectando-se pela internet, nestes meios modernos que também servem para aproximar pessoas. Se a separação é para sempre, é muito mais dolorosa. Não voltaremos a ver àquela pessoa nesta vida terrena e finita.
       Jesus vai ascender para Deus. Porquanto, está com os seus discípulos, anda a pregar, ainda nem sequer chegou ao momento da morte, mas intuindo o futuro, prepara os seus discípulos para tempos mais difíceis, para quando morrer, para quando ressuscitar/ascender aos Céus. Fica a promessa: o envio do Espírito. Jesus permanecerá com os Seus, permanecerá vivo, através do Espírito Santo que recordará toda a verdade anunciada e, mistericamente, permitirá a presença real de Jesus nos Sacramentos.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Espírito da verdade dará testemunho de Mim

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Quando vier o Paráclito, que Eu vos enviarei de junto do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim. E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio. Disse-vos estas palavras para não sucumbirdes. Hão-de expulsar-vos das sinagogas; e mais ainda, aproxima-se a hora em que todo aquele que vos matar julgará que presta culto a Deus. Procederão assim por não terem conhecido o Pai, nem Me terem conhecido a Mim. Mas Eu disse-vos isto, para que, ao chegar a hora, vos lembreis de que vo-lo tinha dito» (Jo 15, 26 - 16, 4a).
         O Evangelho continua a apresentar-nos a "catequese" de Jesus sobre o Espírito Santo.
        Ele vai partir, mas não nos deixa órfãos, envia-nos, de junto de Deus Pai, o Espírito Santo.
       O Espírito Santo procede do Pai, e por isso, tal como Pai, também o Espírito dará testemunho de Jesus. É o Paráclito, o Defensor, o Espírito da verdade. Vem para iluminar, para esclarecer, para revelar o que já antes Jesus comunicara. Nesse sentido Jesus dirá aos Seus discípulos que não têm de temer, Ele estará presente pelo Espírito Santo, nem precisarão de se preocupar com o que hão-de dizer, quando forem levados à presença das autoridades, o Espírito falará neles e por eles. Esta certeza renova a esperança dos discípulos.
       Mas também os discípulos são chamados a testemunhar Jesus Cristo...

domingo, 6 de maio de 2018

Ó minha Mãe, minha Amada

Ó minha mãe, minha mãe
Ó minha mãe, minha amada

Canção popular e popularizado, por exemplo, por Zeca Afonso e pela Tuna Académica de Coimbra
Aqui: interpretação de José Carlos Soares, no final da Eucaristia, em dia da Mãe

sábado, 5 de maio de 2018

Se Me perseguiram a Mim, também a vós...

Tem-nos feito companhia o Evangelho de João e as palavras de Jesus confiadas aos seus discípulos, de uma forma mais intimista, como Alguém que está de partida e quer deixar uma mensagem que congregue os que ficam.
Disse Jesus aos seus discípulos: «Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro Me odiou a Mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas porque não sois do mundo, pois a minha escolha vos separou do mundo, é por isso que o mundo vos odeia. Lembrai-vos das palavras que Eu vos disse: ‘O servo não é mais do que o seu senhor’. Se Me perseguiram a Mim, também vos perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Mas tudo isto vos farão por causa do meu nome, porque não conhecem Aquele que Me enviou» (Jo 15, 18-21).

        O Testamento  (entenda-se por Testamento, testemunho, aliança, ou mesmo herança) de Jesus é a Sua Vida, sobretudo com o mistério da Sua paixão redentora. Ele dá a vida. Atesta a fidelidade de Deus para com a humanidade. Cumpre a promessa divina de nunca desistir do ser humano. Sela a Aliança, com a humanidade inteira, com o Seu sangue, com a Sua vida, e não com sacrifícios de animais.
       É neste sentido que os discípulos orientarão as suas vidas. A vida do Mestre é exemplo. Como Ele faz assim devem fazer os discípulos. O tratamento a que foi sujeito, também os discípulos o serão. O discípulo não é maior do que o Mestre. Neste ponto Jesus não tem nada de político ou diplomático, não negoceia com os discípulos, não os ilude, não suaviza as dificuldades que virão, não esconde o futuro. Há indícios claros do que está para acontecer com Ele e, consequentemente, o que sucederá também aos Seus discípulos. Jesus diz-lhes claramente.
       Importa perseverar até ao fim, para que o TESTAMENTO de Jesus seja também o nosso testamento, uns para com os outros e para com o mundo, neste tempo e no lugar em que nos encontramos.

       Por outro lado, o livro dos Atos dos Apóstolos, lido aos e nos dias da semana, em tempo de Páscoa, mostra-nos a Igreja que se forma, se edifica, se expande, partindo da oração, invocando a presença do Espírito Santo, deixando-se guiar por Deus e procurando responder a cada nova situação, com delicadeza e tolerância, tudo para que Cristo ocupe o centro.
Paulo chegou a Derbe e depois a Listra. Havia lá um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia crente e de pai grego. Os irmãos de Listra e de Icónio davam dele bom testemunho. Querendo Paulo levá-lo consigo, mandou-o circuncidar, por causa dos judeus que havia na região, pois todos sabiam que seu pai era grego. Nas cidades por onde passavam, transmitiam as decisões dos Apóstolos e anciãos de Jerusalém, recomendando que se cumprissem. Desse modo as Igrejas eram confirmadas na fé e cresciam em número, de dia para dia. Como o Espírito Santo os tinha impedido de anunciarem a palavra de Deus na Ásia, atravessaram a Frígia e o território da Galácia. Quando chegaram à fronteira da Mísia, tentaram dirigir-se à Bítínia, mas o Espírito de Jesus não lho permitiu. Atravessaram então a Mísia e desceram a Tróade. Durante a noite, Paulo teve uma visão: Um macedónio estava de pé diante dele e fazia-lhe este pedido: «Passa à Macedónia e vem ajudar-nos». Logo que ele teve esta visão, procurámos partir para a Macedónia, convencidos de que Deus nos chamava para anunciar ali o Evangelho (Atos 16, 1-10).
       Há algumas tradições judaicas que são cumpridas não por que sejam necessárias, mas para não provocar animosidades desnecessárias. O importante é Jesus Cristo e o Seu evangelho. As comunidades vão perseverando e aumentando o número dos cristãos. Quem guia a Igreja, como conclui o autor sagrado, é o Espírito de Cristo. 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Domingo VI da Páscoa - ano B - 6 de maio de 2018

Que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei

       A nossa referência, o nosso centro, Pastor e Guia, é Jesus Cristo. Em continuidade com os dias anteriores, diz-nos claramente quais as condições para o seguirmos: servindo amando, amando servindo.
Disse Jesus aos seus discípulos: «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros» (Jo 15, 12-17).

       Simples e claro, o mandamento de Jesus: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Não é uma cartilha com muitas palavras, com muitas regras ou exigências, é um Mandamento que engloba o essencial. Será Seu discípulo todo aquele que viver este mandamento.
       A medida, porém, vai pelo máximo e não pelos mínimos garantidos. O amor de Jesus por nós tem a medida da vida, é um amor sem medida, sem limites. "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos".
       Ele escolhe-nos para nos amar. Nesta escolha, a Sua vida pela nossa, a Sua entrega até à Cruz para nossa salvação.
       Nos Atos dos Apóstolos, são-nos mostrados os progressos da evangelização.  Mas também as dificuldades, dentro e fora da comunidade. Os primeiros cristãos são originários do judaísmo e num primeiro momento quase se confundem, uma vez que judeus e cristãos frequentam os mesmos locais de culto e citam a mesma Escritura Sagrada, seguem as mesmas tradições. As conversões de gentios, de pagãos, estranhos ao judaísmo, exigem novas respostas, enquadramentos, pois não será necessário seguir práticas específicas do judaísmo quando o essencial é Jesus Cristo e o Seu Evangelho.

Os Apóstolos e os anciãos, de acordo com toda a Igreja de Jerusalém, resolveram escolher alguns irmãos, para os mandarem a Antioquia com Barnabé e Paulo: eram Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens de autoridade entre os irmãos. Mandaram por eles esta carta: «Os Apóstolos e os anciãos, irmãos vossos, saúdam os irmãos de origem pagã, residentes em Antioquia, na Síria e na Cilícia. Tendo sabido que, sem nossa autorização, alguns dos nossos vos foram inquietar, perturbando as vossas almas com as suas palavras, resolvemos de comum acordo escolher delegados para vo-los enviarmos, juntamente com os nossos queridos Barnabé e Paulo, homens que expuseram a vida pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso vos mandamos Judas e Silas, que vos transmitirão de viva voz as nossas decisões. O Espírito Santo e nós decidimos não vos impor outras obrigações, além destas que são indispensáveis: abster-vos das carnes imoladas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das relações imorais. Procedereis bem, evitando tudo isto. Adeus». Feitas as despedidas, os delegados desceram a Antioquia, onde reuniram a assembleia e entregaram a carta. Quando a leram, todos ficaram contentes com aquelas palavras de estímulo (Atos 15, 22-31).

quinta-feira, 3 de maio de 2018

São Filipe e São Tiago, Apóstolos

Pequena nota biográfica:
       Filipe, nascido em Betsaida, foi discípulo de João Baptista e depois seguiu a Cristo.
       Tiago, primo do Senhor, filho de Alfeu, foi bispo de Jerusalém; escreveu uma epístola; levou uma vida de grande mortificação e converteu à fé muitos judeus. Recebeu a coroa do martírio no ano 62.
 
Oração (colecta):
       Senhor, que todos os anos nos alegrais com a festa dos apóstolos São Filipe e São Tiago, concedei-nos, por sua intercessão, que sejamos associados à paixão e ressurreição do vosso Filho, para chegarmos à contemplação da vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo...
 
Do Evangelho segundo São João:
       "Disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida: ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». Disse-Lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta». Respondeu-lhe Jesus: «Há tanto tempo estou convosco e não Me conheces, Filipe? Quem Me vê, vê o Pai»" (14, 6-14).

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Santo Atanásio, bispo e doutor da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu em Alexandria no ano 295; no Concílio de Niceia, acompanhou o bispo Alexandre e foi seu sucessor no episcopado. Lutou incansavelmente contra a heresia dos arianos; por isso teve de suportar muitos sofrimentos e foi exilado várias vezes. Escreveu importantes obras doutrinais e apologéticas. Morreu a 2 de maio do ano de 373.
       Bento XVI, nas catequeses das quarta-feiras, nas Audiências Gerais, aproveitou para propor o testemunho de alguns santos, como referência para os dias de hoje. Para o papa emérito, Atanásio foi um "autêntico protagonista da tradição cristã", considerado como "coluna da Igreja", um modelo da ortodoxia, no Oriente e no Ocidente. Foi, sem dúvida, "um dos Padres da Igreja antiga mais importantes e venerados. Mas sobretudo este grande santo é o apaixonado teólogo da encarnação do Logos, o Verbo de Deus, que como diz o prólogo do quarto evangelho 'Se fez carne e veio habitar entre nós' (Jo 1,14)".
       Num tempo em que havia diversas correntes teológicas, umas que colocavam em causa a divindade de Jesus, outros a sua humanidade, outros que acentuavam uma das dimensões em favor da outra, Atanásio foi um dos mais importantes adversários da heresia ariana.
       Antes de se tornar diácono e secretário do Bispo de Alexandria, Egipto, recebeu uma boa educação cristã e teológica. Participou com o Seu Bispo no Concílio de Niceia. A doutrina ariana defendia que Jesus era como que um Deus criado por Deus, um ser intermediário entre Deus e os homens. Deus permanecia sempre inacessível à humanidade. Os Bispos reunidos em Niceia prepararam o "símbolo da fé", que seria posteriormente completado pelo Concílio de Constantinopla. O termo "consubstancial" clarifica que o Logos, o Filho, é da mesma substância do Pai, é Deus de Deus, e portanto a Sua divindade é assegurada.
       Com a morte do Bispo de Alexandria, Alexandre, Atanásio torna-se seu sucessor, tornando-se mais uma vez decidido defensor da ortodoxia, recusando qualquer compromisso ou cedência doutrinal com os arianos. Com interesses políticos também envolvidos, as doutrinas arianas e o próprio Ário foram reabilitados, mais por exigência dos imperadores romanos. Atanásio, por cinco vezes, entre 336 e 366, foi obrigado a abandonar a sua cidade, totalizando 17 anos de exílio e de testemunho da fé. Foi oportunidade para continuar a divulgar e defender o Concílio. Santo Antão tornou-se um forte aliado na defesa de fé de Santo Atanásio. Com o regresso definitivo a Alexandria dedicou-se a pacificar as comunidades cristãs.
       A obra mais famosa de Santo Atanásio é o tratado Sobre a encarnação do Verbo, onde se encontra uma afirmação muito conhecida. Diz que "o Verbo de Deus 'se fez homem para que nos tornássemos Deus; Ele fez-se visível no corpo para que tivéssemos a ideia do Pai invisível, e Ele suportou a violência dos homens para que herdássemos a incorruptibilidade' (54,3)".Santo Atanásio defende um Deus acessível, não secundário, mas verdadeiro," através da nossa comunhão com Cristo podemos unir-nos realmente a Deus".
       Das suas obras destacam-se as cartas a Serapião, refletindo sobre o Espírito Santo, e os textos meditativos sobre os salmos e, como best-seller, a biografia de Santo Antão (A Vida de Santo Antão), escrita pouco depois da morte deste célebre abade, enquanto Atanásio vivia exilado e junto dos monges do deserto egípcio.
Oração de Coleta:
        Deus eterno e omnipotente, que suscitastes na Igreja o bispo Santo Atanásio para defender a fé na divindade do vosso Filho, concedei-nos que, auxiliados pela sua doutrina e proteção, possamos conhecer-Vos sempre melhor para Vos amar cada vez mais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia.
BENTO XVI, A santidade não passa de moda. Editorial Franciscana. Braga 2010

terça-feira, 1 de maio de 2018

São José, Operário

Nota biográfica:
       O primeiro de Maio, considerado hoje na Europa o dia da «Festa do trabalho», foi, durante muitos anos, nos fins do século XIX e princípios do século XX, um dia de reivindicações e mesmo de lutas violentas pela promoção da classe operária.
       A Igreja que se mostrou sempre sensível aos problemas do mundo do trabalho, quis dar uma dimensão cristã a este dia. Nesse sentido, Pio XII, em 1955, colocava a «Festa do trabalho» sob a protecção de S. José, na certeza de que ninguém melhor do que este trabalhador poderia ensinar aos outros trabalhadores a dignidade sublime do trabalho.
       Operário durante toda a sua vida, S. José teve como companheiro de trabalho, na oficina de Nazaré, o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo.
       E foi, na verdade, Jesus que lhe ensinou que o trabalho nos associa ao Criador, dando-nos a possibilidade de aperfeiçoar a natureza, de acabar a criação divina. O trabalho é um serviço prestado aos irmãos. O trabalho é um meio de nos associarmos à obra redentora de Cristo. (Gaudium et Spes, 67).
Oração (colecta):
       Deus, criador do universo, que estabelecestes a lei do trabalho para todos os homens, concedei-nos que, a exemplo de São José e com a sua protecção, realizemos a obra que nos mandais e recebamos o prémio que nos prometeis. Por Nosso Senhor Jesus Cristo...


CATEQUESE DO PAPA FRANCISCO - 1 de maio de 2013:
       Caros irmãos e irmãs,
       Bom dia!
       Hoje, 1º de maio, celebramos São José Operário e iniciamos o mês tradicionalmente dedicado a Nossa Senhora. No nosso encontro de hoje, quero focar estas duas figuras importantes na vida de Jesus, da Igreja e nas nossas vidas, com duas breves reflexões: primeiro, sobre o trabalho, segundo, sobre a contemplação de Jesus.
       No Evangelho de São Mateus, em um dos momentos em que Jesus retorna à sua região, a Nazaré, e fala na sinagoga, destaca-se o espanto de seus compatriotas por sua sabedoria. Eles se perguntam: "Não é este o filho do carpinteiro?" (13,55). Jesus entra em nossa história, está entre nós, nascido de Maria pelo poder de Deus, mas com a presença de São José, o pai legal, de direito, que cuida d’Ele e também lhe ensina seu trabalho. Jesus nasce e vive em uma família, na Sagrada Família, aprendendo com São José o ofício de carpinteiro, na carpintaria em Nazaré, dividindo com ele seus compromissos, esforços, satisfação e as dificuldades do dia a dia.
       Isso nos lembra a dignidade e a importância do trabalho. O livro de Génesis nos diz que Deus criou o homem e a mulher dando-lhes a missão de encher a terra e sujeitá-la, o que não significa desfrutá-la, mas cultivá-la e protegê-la, cuidar dela com o seu trabalho (cf. Gen 1, 28; 2,15). O trabalho faz parte do plano de amor de Deus, somos chamados a cultivar e cuidar de todos os bens da criação, deste modo participamos da obra da criação! O trabalho é fundamental para a dignidade de uma pessoa. O trabalho, para usar uma imagem concreta, nos “unge” de dignidade, nos plenifica de dignidade, nos torna semelhantes a Deus, que trabalhou e trabalha, age sempre (cf. Jo 5, 17), dá a capacidade de nos manter, manter nossa família, contribuir para o crescimento da nação. E aqui penso nas dificuldades que, em vários países, se encontra hoje o mundo do trabalho e da empresa, eu penso naqueles que, não apenas os jovens, estão desempregados, muitas vezes por uma concepção puramente económica (mecanicista) da sociedade, que busca o lucro egoísta, fora dos parâmetros de justiça social.
       Eu gostaria de estender a todos o convite à solidariedade e, aos chefes do setor público, convidá-los ao encorajamento, a fazer de tudo para dar um novo impulso ao emprego, isso significa se preocupar com a dignidade da pessoa mas, acima de tudo, vos exorto a não perderem a esperança; São José também teve momentos difíceis, mas nunca perdeu a confiança e soube superá-los, na certeza de que Deus não nos abandona. E agora gostaria de falar especialmente a vós, meninos e meninas, a vocês jovens: esforçai-vos nas vossas tarefas diárias, no estudo, no trabalho, nas relações de amizade, contribuindo com os outros, o vosso futuro também depende de como vós ides viver esses preciosos anos de vida. Não tenhais medo do compromisso, do sacrifício e não olhem para o futuro com medo, mantenham viva a esperança: há sempre uma luz no horizonte.
       Acrescento uma palavra sobre uma outra situação de trabalho que me incomoda: refiro-me ao que definimos como “trabalho escravo”, o trabalho que escraviza. Quantas pessoas no mundo são vítimas deste tipo de escravidão, em que é a pessoa que serve o trabalho, enquanto deve ser o trabalho a oferecer um serviço à pessoa, para que tenhamos todos dignidade. Peço aos irmãos e irmãs na fé e todos os homens e mulheres de boa vontade, uma escolha decisiva contra o tráfico de pessoas, contexto no qual se constitui o “trabalho escravo”.
       Faço referência agora ao segundo pensamento: no silêncio das ações quotidianas, São José, juntamente com Maria, tem um centro comum de atenção: Jesus. Eles acompanham e protegem, com empenho e carinho, o crescimento do Filho de Deus feito homem por nós, refletindo sobre tudo o que acontecia. Nos Evangelhos, Lucas enfatiza duas vezes a atitude de Maria, que também é a de São José, “guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (2,19.51).Para ouvir o Senhor, devemos aprender a contemplá-Lo, perceber sua presença constante em nossas vidas; precisamos parar para dialogar com Ele, dar-lhe espaço na oração. Cada um de nós, meninas, meninos e, jovens, em grande número reunidos aqui nesta manhã, deve perguntar-se: qual o espaço dou ao Senhor? Eu paro para falar com Ele? Desde que éramos crianças, nossos pais nos acostumaram a começar e terminar o dia com uma oração, para nos ensinar a perceber que a amizade e o amor de Deus nos acompanhavam. Vamos nos lembrar mais do Senhor em nosso dia!
       E neste mês de maio, eu gostaria de lembrar a importância e a beleza da oração do Santo Terço. Recitando a Ave-Maria, somos levados a contemplar os mistérios de Jesus, refletir sobre os principais momentos de Sua vida, para que, como foi com Maria e São José, Ele seja o centro dos nossos pensamentos, da nossa atenção e de nossas ações. Seria bom que, especialmente neste mês de maio, rezássemos juntos, em família, com os amigos, na paróquia, o Santo Terço ou alguma oração a Jesus e à Virgem Maria! A oração feita em comunidade é um momento precioso para tornar ainda mais forte a vida familiar, a amizade! Aprendamos a rezar mais em família e como família!
       Queridos irmãos e irmãs, rogamos a São José e à Virgem Maria que nos ensinem a sermos fiéis a nossas tarefas diárias, a viver nossa fé nas ações do dia a dia e dar mais espaço ao Senhor em nossas vidas, a parar para contemplar Seu rosto.
       Obrigado.