terça-feira, 30 de agosto de 2016

...porque falava com autoridade!

        Jesus desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e ali ensinava aos sábados. Todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque falava com autoridade. Encontrava-se então na sinagoga um homem que tinha um espírito de demónio impuro, que bradou com voz forte: «Ah! Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Eu sei quem Tu és: o Santo de Deus». Disse-lhe Jesus em tom severo: «Cala-te e sai desse homem». O demónio, depois de o ter arremessado para o meio dos presentes, saiu dele sem lhe fazer mal nenhum. Todos se encheram de assombro e diziam entre si: «Que palavra esta! Ordena com autoridade e poder aos espíritos impuros e eles saem!». E a fama de Jesus espalhava-se por todos os lugares da região (Lc 4, 31-37).
       Dois aspectos importantes se destacam no Evangelho proposto para hoje: a autoridade do ensino de Jesus e o poder de expulsar espíritos impuros, isto é, o poder curativo.
       A autoridade de Jesus vem não apenas pela origem da Sua missão (divina), mas sobretudo da coerência de vida, entre o que ensina, professa, e o que vive, os gestos que assume na relação com as pessoas que encontram, não se encontrando n'Ele acepção de pessoas, quando muito valorizando as que se encontram marginalizadas pela sociedade, pela política e/ou pela religião.
       Por outro lado, o poder curativo é expressão que este  HOMEM vem da parte de Deus, por isso realiza prodígios. Mais, expulsa os demónios. A palavra tem uma consequência prática, efetiva e concreta na vida das pessoas. As suas palavras não são acessórias, mas essenciais, convertem. curam, expulsam os espíritos impuros, salvam, envolvem...

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Martírio de São João Batista

       A censura que João Batista fez a Herodes Agripa pela sua conduta desonesta e imoral, que o Evangelho nos descreve, valeu-lhe a morte por degolação (Mt. 14, 1-12). É o seu nascimento para o céu que a Igreja hoje celebra.
       A festa do martírio de São João Baptista remonta ao século V, na França; e ao século VI, em Roma. Está ligada à dedicação da igreja construída em Sebaste, na Samaria, no suposto túmulo do Precursor de Jesus. O próprio Jesus apresenta-nos João Baptista:

       Depois deles partirem, Jesus começou a falar a respeito de João às multidões: "Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas finas? Mas os que vestem roupas finas vivem nos palácios dos reis. Então, que fostes ver? Um profeta? Eu vos afirmo que sim, e mais do que um profeta. É dele que está escrito: "eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele preparará o teu caminho diante de ti. Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior do que João, o Baptista, e, no entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele ..." (Mt 11, 2-11).

       O martírio de João Batista liga-se à denúncia profética das injustiças cometidas pelos poderosos, inclusive o luxo da corte, cujo desfecho fatal é a morte do inocente e a opressão dos marginalizados.

Oração de coleta:
       Senhor, que na vossa admirável providência,  quisestes que São João Batista fosse o Precursor do nascimento e da morte do vosso Filho, concedei-nos que, assim como ele deu a sua vida pela justiça e pela verdade, também nós saibamos lutar corajosamente pela confissão da fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Beda Venerável, presbítero

Precursor de Cristo no nascimento e na morte

O santo precursor do nascimento, da pregação e da morte do Senhor, mostrou no momento da sua luta suprema uma coragem digna de atrair o olhar de Deus. Como diz a Escritura: Se aos olhos dos homens foi atormentado, a sua esperança estava cheia de imortalidade. Com razão celebramos festivamente o dia do seu novo nascimento, dia que ele tornou memorável com a sua própria morte e ilustrou com a gloriosa púrpura do seu sangue. Merecidamente veneramos com alegria espiritual a memória daquele que selou com o martírio o testemunho que dera do Senhor.
São João sofreu a prisão e as cadeias e deu a sua vida em testemunho do nosso Redentor, a quem devia preparar os caminhos. Não lhe foi pedido pelo perseguidor que negasse a Cristo, mas que calasse a verdade. E no entanto, ele morreu por Cristo.
Cristo disse: Eu sou a verdade. Por isso, foi por Cristo que São João derramou o seu sangue, porque foi pela verdade que o derramou. Se com o seu nascimento, a sua pregação e o seu batismo dera testemunho de Cristo que havia de nascer, pregar e batizar, também com o seu martírio precursor deu testemunho da futura paixão do Senhor.
Assim terminou a sua vida este homem tão insigne e valoroso, derramando o seu sangue depois de longo e penoso cativeiro. Ele que anunciara a liberdade duma paz superior, é lançado pelos ímpios na prisão; é encerrado na escuridão do cárcere aquele que veio para dar testemunho da luz e a quem a própria Luz, que é Cristo, denominou como uma lâmpada que arde e alumia; e foi batizado com o próprio sangue aquele a quem foi concedido baptizar o Redentor do mundo, ouvir a voz do Pai que falava do Filho, ver a graça do Espírito Santo que descia sobre Ele. Por isso, longe de lhe parecer penoso, era pelo contrário fácil e desejável para ele suportar pela verdade os tormentos temporais, que lhe faziam antever a recompensa das alegrias eternas.
A morte não era para João Batista apenas uma realidade inevitável da natureza ou uma dura necessidade. Ele desejou a como o melhor modo de confessar o nome de Cristo e receber assim a palma da vida eterna. Bem diz o Apóstolo: A vós foi concedido por Cristo não só acreditar n’Ele, mas também sofrer por Ele. E se ele diz que sofrer por Cristo é um dom concedido aos eleitos, é porque os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória futura que se há de manifestar em nós.
Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia

BENTO XVI no martírio de São João Batista

Estimados irmãos e irmãs
Nesta última quarta-feira do mês de Agosto celebra-se a memória do martírio de são João Batista, o precursor de Jesus. No Calendário romano, é o único santo do qual se celebra tanto o nascimento, a 24 de Junho, como a morte ocorrida através do martírio. A memória hodierna remonta à dedicação de uma cripta de Sebaste, em Samaria onde, já em meados do século IV, se venerava a sua cabeça. Depois, o culto alargou-se a Jerusalém, às Igrejas do Oriente e a Roma, com o título de Degolação de são João Batista. No Martirológio romano faz-se referência a uma segunda descoberta da preciosa relíquia, transportada naquela ocasião para a igreja de São Silvestre em Campo Márcio, em Roma.

Estas breves referências históricas ajudam-nos a compreender como é antiga e profunda a veneração de são João Batista. Nos Evangelhos realça-se muito bem o seu papel em relação a Jesus. De modo particular, são Lucas narra o seu nascimento, a sua vida no deserto e a sua pregação, e no Evangelho de hoje são Marcos fala-nos da sua morte dramática. João Batista começa a sua pregação sob o imperador Tibério, em 27-28 d.C., e o convite claro que ele dirige ao povo que acorre para o ouvir é que prepare o caminho para receber o Senhor, e endireitem as veredas tortas da própria vida através de uma conversão radical do coração (cf. Lc 3, 4). Contudo, João Batista não se limita a pregar a penitência e a conversão mas, reconhecendo Jesus como «o Cordeiro de Deus» que veio para tirar o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29), tem a profunda humildade de mostrar em Jesus o verdadeiro Enviado de Deus, pondo-se de lado a fim de que Jesus possa crescer, ser ouvido e seguido. Como último gesto, João Batista testemunha com o sangue a sua fidelidade aos mandamentos de Deus, sem ceder nem desistir, cumprindo a sua missão até ao fim. São Beda, monge do século IX, nas suas Homilias diz assim: «São João, por [Cristo] deu a sua vida; embora não lhe tenha sido imposto que negasse Jesus Cristo, só lhe foi imposto que não dissesse a verdade» (cf. Hom. 23: ccl 122, 354). E ele dizia a verdade, e assim morreu por Cristo, que é a Verdade. Precisamente pelo amor à Verdade, não cedeu a compromissos nem teve medo de dirigir palavras fortes a quantos tinham perdido o caminho de Deus.

Nós vemos esta grande figura, esta força na paixão, na resistência contra os poderosos. Interroguemo-nos: de onde nasce esta vida, esta interioridade tão forte, tão recta e tão coerente, empregue totalmente por Deus e para preparar o caminho para Jesus? A resposta é simples: da relação com Deus, da oração, que é o fio condutor de toda a sua existência. João é o dom divino longamente invocado pelos seus pais, Zacarias e Isabel (cf. Lc 1, 13); uma dádiva grande, humanamente inesperada, porque ambos eram de idade avançada e Isabel era estéril (cf. Lc 1, 7); mas a Deus nada é impossível (cf. Lc 1, 36). O anúncio deste nascimento verifica-se precisamente no contexto da oração, no templo de Jerusalém; aliás, acontece quando Zacarias recebe o grande privilégio de entrar no lugar mais sagrado do templo para fazer a oferta do incenso ao Senhor (cf. Lc 1, 8-20). Também o nascimento de João Batista é marcado pela oração: o cântico de alegria, de louvor e de acção de graças que Zacarias eleva ao Senhor e que nós recitamos todas as manhãs nas Laudes, o «Benedictus», exalta a obra de Deus na história e indica profeticamente a missão do filho João: preceder o Filho de Deus que se fez carne, para lhe preparar as estradas (cf. Lc 1, 67-79). Toda a existência do precursor de Jesus é alimentada pela relação com Deus, de modo particular o período transcorrido em regiões desertas (cf. Lc 1, 80); as regiões desertas que são lugares de tentação, mas também lugares onde o homem sente a própria pobreza, porque desprovido de apoios e certezas materiais, e compreende que o único ponto de referência sólido permanece o próprio Deus. Mas João Batista não é apenas um homem de oração, do contacto permanente com Deus, mas também um guia para esta relação. Citando a oração que Jesus ensina aos discípulos, o «Pai-Nosso», o evangelista Lucas anota que o pedido é formulado pelos discípulos com estas palavras: «Senhor, ensinai-nos a rezar, como também João ensinou aos seus discípulos» (cf. Lc 11, 1).

Caros irmãos e irmãs, celebrar o martírio de são João Batista recorda-nos, também a nós cristãos deste nosso tempo, que não se pode ceder a compromissos com o amor a Cristo, à sua Palavra e à Verdade. A Verdade é Verdade, não existem compromissos. A vida cristã exige, por assim dizer, o «martírio» da fidelidade quotidiana ao Evangelho, ou seja, a coragem de deixar que Cristo cresça em nós e que seja Cristo quem orienta o nosso pensamento e as nossas acções. Mas isto só se verifica na nossa vida se a nossa relação com Deus for sólida. A oração não é tempo perdido, não é roubar espaço às actividades, inclusive às obras apostólicas, mas é precisamente o contrário: se formos capazes de ter uma vida de oração fiel, constante e confiante, o próprio Deus dar-nos-á a capacidade e a força para viver de modo feliz e tranquilo, para superar as dificuldades e testemunhá-lo com coragem. São João Batista interceda por nós, a fim de sabermos conservar sempre o primado de Deus na nossa vida. Obrigado!
in BENTO XVI, Audiência Geral de 29 de agosto de 2012.

sábado, 27 de agosto de 2016

Domingo XXII do Tempo Comum - ano C - 28 de agosto

       1 – Para o banquete nupcial, o Senhor Jesus escancara as portas, para que todos possam entrar, pois todos são convidados. O reino de Deus não é um privilégio, nem para pobres nem para ricos, é para todos. No Evangelho de hoje, a opção preferencial pelos pobres é visível nas palavras de Jesus. Nós selecionamos. Deus não seleciona. É Pai. Todos são filhos. Porém, a primazia neste reino novo são os que não tem lugar à mesa dos reinos deste mundo, excluídos, pobres, doentes, pecadores, publicanos, mulheres, crianças, estrangeiros.
       “Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos”.
       Optar não é excluir. Nem discriminar. Deus não faz aceção de pessoas. Jesus mostra-o bem com a postura que assume. Foi convidado por um fariseu reconhecido e aceitou o convite. Naquele tempo, só alguns, poucos, podiam oferecer um banquete. Sendo convidado, Jesus não Se faz rogado, nem pergunta pelo bilhete de identidade. Se é Sua a iniciativa aproxima-se dos mais frágeis.
       Falando de convidar e de convidados. Convidamos as pessoas de quem gostamos, familiares, amigos, sabendo à partida que nos retribuirão, ou convidamos já a retribuir outro convite anterior. É claro que também convidaremos pessoas de quem gostamos e que não nos poderão retribuir.
       Jesus não retribui. Os convites que Lhe são feitos tem diversas motivações: amizade, agradecimento, mas também pela fama de que desfruta. Jesus não tem meios económicos para retribuir. Nem Ele nem os discípulos. Vivem da boa vontade alheia, do apoio de algumas mulheres bem colocadas, dos amigos e das famílias dos discípulos.
       Jesus retribui. Não do mesmo jeito, mas de um jeito maior. O banquete de Jesus é para sempre. Abre-nos as portas da eternidade. Não para compensar os banquetes para os quais foi convidado, mas por infinito Amor, porque sim, porque assim é o Ser e o Agir do Pai. Assim é o Ser e o Agir de Jesus. O convite é para todos, a começar pelos pequeninos. Condições: amar e servir!
       2 – Numa festa mais formal, hoje em dia, há lugares marcados. Previamente, os noivos, os pais da criança batizada, o protocolo, distribuem os convidados por diferentes mesas e espaços. Para não haver situações de embaraço na hora de sentar, os lugares são previamente marcados, pelo que basta consultar a respetiva lista de distribuição. Facilmente imaginaremos, uma pessoa a ter que sair do lugar para aquela família ficar junta, ou para se sentar aquele amigo, pois nas outras mesas não é conhecido de ninguém. Se o ambiente for familiar, será fácil resolver estas minudências.
       A presença de Jesus faz-se notar. É um personagem "excêntrico", diferente. Um profeta ou um mendigo? Veste como galileu. Roupas simples. E simples é o Seu olhar e a Sua postura. Observam-n'O. Deixa-Se ver, deixa-Se tocar, está no meio do povo! Não está à margem, não tem um grupo de guardas a protegê-l'O. A Sua proteção é o Pai e a ligação de amor que com Ele mantém em permanência. Espera pela Sua vez. Vê que os convidados procuram o melhor lugar.
       Aproveita a situação e conta-lhes uma parábola: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».
       De novo a opção pela humildade. No reino de Deus, preconizado por Jesus, não há disputas de lugares, mas de serviço. Entre vós, quem quiser ser o maior, seja o servidor de todos. Quem quiser ser o primeiro, seja o último, seja aquele que serve. A disputa é ao nível do serviço e do amor.
       3 – A recomendação de Ben Sirá, o sábio de Israel, vem no mesmo sentido: «Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso. Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor. Porque é grande o poder do Senhor e os humildes cantam a sua glória. A desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes. O coração do sábio compreende as máximas do sábio e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria».
       A humildade e a sabedoria são irmãs. A ignorância e a arrogância são irmãs. A humildade abre-nos aos outros e leva-nos a procurar melhorar, aprender, corrigir. A prepotência e a soberba encerram-nos no nosso egoísmo e orgulho, levando-nos a pensar que somos melhores do que todos e, se não precisamos de ninguém, acabaremos por ser engolidos pelo cinismo e pela burrice!
       Refira-se que a humildade não visa o reconhecimento, pois se me faço humilde para que os outros me aplaudam, chamem-lhe outra coisa, mas certamente não é humildade. A humildade assume-se numa atitude de natural generosidade, benevolência, ao serviço dos outros. Ben Sirá incentiva aqueles que têm mais poder (humano) a serem ainda mais humildes. O lugar que ocupam não os deve ensoberbecer, pelo contrário, deve levá-los a usar o poder e a sabedoria para melhor servirem os demais. Isto agrada ao Senhor. É mandamento divino que nos torna mais humanos.
       4 – A grandeza e o poder Jesus Cristo, Rei do universo, Filho de Deus, manifestam-se na Encarnação, no abaixamento, esvaziando-Se de Si, para nos dar Deus, para nos dar o Céu, a eternidade do Pai. No Seu imenso amor, assume-Se frágil, pequeno, pobre, faz-Se pecado por nós, para nos engrandecer, para nos redimir, para nos elevar à estatura de filhos amados de Deus.
       Ele é tão grande, que Se faz tão pequenino. Deixa-Se pegar ao colo e deixa-Se matar!
       Na Epístola aos Hebreus o autor sagrado lembra-nos como nos aproximamos do mistério de Deus, já não em imagem, mas na realidade da salvação presente em Jesus Cristo e que Ele nos concedeu em abundância, pela Sua morte e ressurreição, agrafando-nos à glória do Pai.
       «Vós aproximastes-vos do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, de muitos milhares de Anjos em reunião festiva, de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu, de Deus, juiz do universo, dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição e de Jesus, mediador da nova aliança»
       Próximos de Deus, na mediação plena e amorosa de Jesus, não cessemos de implorar a bênção e a misericórdia do Pai. «Deus do universo, de quem procede todo o dom perfeito, infundi em nossos corações o amor do vosso nome e, estreitando a nossa união convosco, dai vida ao que em nós é bom e protegei com solicitude esta vida nova» (Coleta).
       Que a obra de Deus em nós começada, pelo batismo, pela água e pelo Espírito, seja por Ele em nós fortalecida. Que a nossa vida e as nossas escolhas não impeçam a graça de Deus, não sejamos opacos, mas transpareçamos o Evangelho da Alegria e da Caridade.

       5 – Em Santo Agostinho – cuja memória se celebra hoje, Padroeiro secundário da Diocese de Lamego – podemos encontrar um testemunho de vida, cuja conversão clarifica a abertura a Deus e a humildade, reconhecendo as suas imperfeições, a sua pequenez diante da misericórdia de Deus. Na juventude distanciou-se da fé e vivência cristã da sua Mãe, Santa Mónica, para, depois, se deixar converter a Jesus e ao Seu Evangelho, fazendo-Se pequeno.
       Para Santo Agostinho, a salvação é dom que necessita do nosso aval. Deus criou-nos sem nós mas não nos salva sem nós, sem o nosso assentimento, a nossa adesão à Sua misericórdia. O único bloqueio à misericórdia de Deus não é o nosso pecado ou a nossa fragilidade humana, é o nosso fechamento e recusa em acolher Deus. Basta que abramos uma brecha e Deus atua, salvando-nos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Sir 3, 19-21. 30-31; Sl 67 (68); Hebr 12, 18-19. 22-24a; Lc 14, 1. 7-14.

Santa Mónica, Mãe de Santo Agostinho

       Santa Mónica, natural de Tagaste, em África, é conhecida como Mãe de Santo Agostinho.
        Terá nascido pelo ano 331. Foi criada/educada com uma escrava, o que significa que deveria ser filha de nobres, recebendo uma educação rígida, também ao nível religioso.

        Não se sabe muito da sua infância ou juventude. Casou-se com Patrício, aos 17 ou 18 anos. Tinha um certo estatuto social mas parece que Santa Mónica não se sentia feliz, tendo que suportar as infidelidades do marido e um temperamento violento. Conseguiu que o marido se convertesse ao cristianismo. Morrendo o marido, ela dedicou-se por inteiro aos filhos.

        Para Santo Agostinho, e segundo ele próprio, ela foi o alicerce que o conduziu à fé verdadeira, convertendo-o ao cristianismo. Mónica rezava constantemente, com lágrimas, pela conversão do filho.

        Deu sempre uma grande testemunho de boa esposa e boa mãe, procurando educar os seus três filhos, Agostinho, Navigius e Perpétua, na grandeza do cristianismo.

        Santo Agostinho olha para a mãe como santificadora, mas salientando o fardo feminino que carrega. A dimensão positiva do sexo feminino era representada por Maria
, Mãe de Deus, e a parte negativa, que se entrega à tentação, por Eva. Assim foi vista santa Mónica por seu filho e pela  Igreja Católica.

        Morreu com 56 anos, pelo ano de 387,
em Ostia, o ano da conversão do seu filho. O seu corpo foi descoberto no ano de 1430 e trasladado para Roma. Foi reconhecida pela Igreja como Santa, não por ter realizado milagres, mas por ter conseguido a conversão de Santo Agostinho, ensinando-lhe os ideais cristãos.

        É padroeira das mães.
Oração (de coleta);
       Senhor nosso Deus, consolação dos que choram, Vós que atendestes misericordiosamente as lágrimas de Santa Mónica pela conversão do seu filho Agostinho, concedei-nos, pela intercessão da mãe e do filho, que saibamos chorar os nossos pecados para alcançar a graça do vosso perdão. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Santo Agostinho, bispo

Procuremos alcançar a sabedoria eterna

Ao aproximar se o dia em que ela ia partir desta vida – dia que Vós conhecíeis, mas nós ignorávamos – sucedeu, segundo creio, por disposição de vossos secretos desígnios, que nos encontrámos sozinhos, eu e ela, encostados a uma janela, cuja vista dava para o jardim interior da casa que nos hospedava, em Óstia, onde, afastados das multidões, depois da fadiga de uma longa viagem, retemperávamos as forças, antes de embarcarmos. Conversávamos a sós muito suavemente e, esquecendo o passado e voltando nos para o futuro, interrogávamo-nos mutuamente, à luz da Verdade presente, que sois Vós, qual seria a vida eterna dos Santos, que nem os olhos viram nem os ouvidos escutaram nem jamais passou pelo pensamento do homem. Mas os nossos corações suspiravam pela corrente celeste, que brota da vossa fonte, a fonte de vida, que está em Vós.
Assim falava eu, embora não por este modo e por estas palavras; contudo bem sabeis, Senhor, quanto o mundo e os seus prazeres nos pareciam vis naquele dia em que assim conversávamos. Minha mãe acrescentou ainda: «Filho, quanto a mim, já nada me dá gosto nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, porque já nada espero deste mundo. Havia só uma razão pela qual eu desejava prolongar um pouco mais esta vida: ver-te cristão católico, antes de eu morrer. Deus concedeu me esta graça de modo superabundante, pois vejo que já desprezas a felicidade terrena para servires o Senhor. Que faço eu ainda aqui?».
Não me lembro bem do que lhe respondi a respeito destas palavras. Entretanto, passados cinco dias ou pouco mais, ela caiu de cama com febre. Num daqueles dias da sua doença, perdeu os sentidos e durante um curto espaço de tempo não dava acordo dos presentes. Acorremos logo e depressa recuperou os sentidos. Vendo nos de pé, junto de si, a mim e ao meu irmão, disse-nos como quem procura alguma coisa: «Onde estava eu?».
Depois, vendo nos atónitos de tristeza, disse: «Sepultareis aqui a vossa mãe». Eu estava calado e tentava conter as lágrimas. Meu irmão, porém, proferiu algumas palavras, mostrando a preferência de que ela não morresse em país estranho, mas na sua pátria. Ouvindo isto, fixou nele um olhar cheio de angústia, censurando o por pensar assim e, olhando depois para mim, disse: «Repara no que ele diz». E em seguida disse para ambos: «Sepultai este corpo em qualquer parte e não vos preocupeis com ele. Só vos peço que vos lembreis de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejais». Tendo feito esta recomendação com as palavras que pôde, calou se. Entretanto agravava-se a enfermidade e o sofrimento prolongava-se.
Finalmente, no nono dia da sua doença, aos cinquenta e seis anos de idade e no trigésimo terceiro da minha vida, aquela alma piedosa e santa libertou se do corpo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora

       Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo. Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias. Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e adormeceram. No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’. Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas. As insensatas disseram às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’. Mas as prudentes responderam: ‘Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores’. Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo: as que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial; e a porta fechou-se. Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram: ‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’. Mas ele respondeu: ‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’. Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora» (Mt 25, 1-13).
        Vigilância. Como peregrinos na terra não a devemos usurpar como se nos tornássemos, pelo nascimento, donos e senhores e como se estivéssemos cá para sempre. Por outro lado, o não estarmos para sempre não é uma desvantagem, mas um desafio a fazermos o melhor que sabemos e podemos para dar qualidade ao tempo que cá passamos, contribuindo para tornar um mundo uma habitação saudável para todos.
       Um dia vamos morrer.
       Não sabemos a hora.
       Pode ser a qualquer instante.
       Quando chegar esse momento, que contas ainda teremos que fazer, deixaremos em aberto escolhas, decisões? Deixaremos a nossa vida a meio? Há que viver, com paixão, com intensidade, com sentido, relativizando o tempo cronológico para não nos ensoberbecermos nem nos dispensarmos do compromisso...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Vigiai, pois não sabeis em que dia virá o vosso Senhor

        Disse Jesus aos seus discípulos: «Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem. Quem é o servo fiel e prudente, que o senhor pôs à frente da sua casa, para lhe dar o alimento em tempo oportuno? Feliz aquele servo que o senhor, ao chegar, encontrar procedendo assim. Em verdade vos digo que lhe confiará a administração de todos os seus bens. Mas se o servo for mau e disser consigo: ‘O meu senhor demora-se’, e começar a espancar os companheiros e a comer e beber com os ébrios, quando o senhor daquele servo chegar, em dia que ele não espera e à hora que ele não pensa, expulsá-lo-á e lhe dará a sorte dos hipócritas. Aí haverá choro e ranger de dentes» (Mt 24, 42-51).
       A fragilidade da vida, que é também a sua grandiosidade, é por demais evidente. Hoje estamos. Amanhã não sabemos. Há, então, que aproveitar a vida, realizá-la, gastá-la, vivê-la. Cada momento é importante, cada palavra, cada gesto.
       Para os crentes, por maioria de razão, a vida é tão importante, e tão efémera, que há que viver como se fosse o último dia, dar tudo, dar-se sem limites. Não deixar para amanhã, ou para depois, ou para quando formos maiores, ou mais velhos. O nosso compromisso é para hoje, para aqui e agora (hic et nunc), com o nosso semelhante, com o mundo actual. Como não sabemos o dia em que seremos chamados à Casa do Pai, há que estar vigilantes e viver como se fosse agora...

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

São Bartolomeu, Apóstolo

       São Bartolomeu, que hoje celebramos, é um dos 12 Apóstolos e, tradicionalmente, é tido como Natanael. O nome Bartolomeu aponta para a sua filiação, filho de Talmay (Bar Talmay), e Natanael, que significa "Deus deu", será o seu nome próprio.
       É conhecida a passagem do Evangelho de São João quando Filipe vai ter com Natanael e lhe diz: "Encontramos o Messias", ao que Natanael responde: "De Nazaré pode vir alguma coisa boa?". Mas quando se encontra com Jesus é reconhecido por Ele: "Aqui está um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento". Ao conhecimento que Jesus mostra sobre Natanael, este responde com a sua profissão de fé: "Rabi, tu és filho de Deus, Tu és o Rei de Israel".
       Segundo fontes histórias, Bartolomeu/Natanael teria pregado o Evangelho até à Índia, e segundo a tradição terá sido morto por esfolamento. Veja-se a imagem da Capela Sistina, em que São Bartolomeu aparece com a sua pele na mão.

     São Bartolomeu é o padroeiro de Santa Leocádia, que celebra hoje a sua festa.
Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: "Encontrámos Aquele de quem está escrito na Lei de Moisés e nos Profetas. É Jesus de Nazaré, filho de José".
Disse-lhe Natanael: "De Nazaré pode vir alguma coisa boa?"
Filipe respondeu-lhe: "Vem ver".
Jesus viu Natanael, que vinha ao seu encontro, e disse:
"Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento".
Perguntou-lhe Natanael: "Donde me conheces?".
Jesus respondeu-lhe: "Antes que Filipe te chamasse,
Eu vi-te quando estava debaixo da figueira".
Disse-lhe Natanael: "Mestre, Tu és o Filho de Deus,
Tu és o Rei de Israel!" (Jo 1, 45-51).
Oração (de colecta):
       Senhor, fortalecei em nós a fé pela qual o apóstolo São Bartolomeu se consagrou de coração sincero a Cristo vosso Filho e concedei, por sua intercessão, que a vossa Igreja seja o sacramento de salvação para todos os povos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

BENTO XVI sobre São Bartolomeu:

Queridos irmãos e irmãs!
Na série dos Apóstolos chamados por Jesus durante a sua vida terrena, hoje quem atrai a nossa atenção é o apóstolo Bartolomeu. Nos antigos elencos dos Doze ele é sempre colocado antes de Mateus, enquanto varia o nome daquele que o precede e que pode ser Filipe (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 14) ou Tomé (cf. Act 1, 13). O seu nome é claramente um patronímico, porque é formulado com uma referência explícita ao nome do pai. De facto, trata-se de um nome provavelmente com uma marca aramaica, Bar Talmay, que significa precisamente "filho de Talmay".

Não temos notícias de relevo acerca de Bartolomeu; com efeito, o seu nome recorre sempre e apenas no âmbito dos elencos dos Doze acima citados e, por conseguinte, nunca está no centro de narração alguma. Mas, tradicionalmente ele é identificado com Natanael: um nome que significa "Deus deu". Este Natanael provinha de Caná (cf. Jo 21, 2), e portanto é possível que tenha sido testemunha do grande "sinal" realizado por Jesus naquele lugar (cf. Jo 2, 1-11). A identificação das duas personagens provavelmente é motivada pelo facto que este Natanael, no episódio de vocação narrada pelo Evangelho de João, é colocado ao lado de Filipe, isto é, no lugar que Bartolomeu ocupa nos elencos dos Apóstolos narrados pelos outros Evangelhos. Filipe tinha comunicado a este Natanael que encontrara "aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, filho de José de Nazaré" (Jo 1, 45). Como sabemos, Natanael atribuiu-lhe um preconceito bastante pesado: "De Nazaré pode vir alguma coisa boa?" (Jo 1, 46a). Esta espécie de contestação é, à sua maneira, importante para nós. De facto, ela mostra-nos que segundo as expectativas judaicas, o Messias não podia provir de uma aldeia tanto obscura como era precisamente Nazaré (veja também Jo 7, 42). Mas, ao mesmo tempo realça a liberdade de Deus, que surpreende as nossas expectativas fazendo-se encontrar precisamente onde não o esperávamos. Por outro lado, sabemos que Jesus na realidade não era exclusivamente "de Nazaré", pois tinha nascido em Belém (cf. Mt 2, 1; Lc 2, 4) e que por fim provinha do céu, do Pai que está no céu.

Outra reflexão sugere-nos a vicissitude de Natanael: na nossa relação com Jesus não devemos contentar-nos unicamente com as palavras. Filipe, na sua resposta, faz um convite significativo: "Vem e verás!" (Jo 1, 46b). O nosso conhecimento de Jesus precisa sobretudo de uma experiência viva: o testemunho de outrem é certamente importante, porque normalmente toda a nossa vida cristã começa com o anúncio que chega até nós por obra de uma ou de várias testemunhas. Mas depois devemos ser nós próprios a deixar-nos envolver pessoalmente numa relação íntima e profunda com Jesus; de maneira análoga os Samaritanos, depois de terem ouvido o testemunho da sua concidadã que Jesus tinha encontrado ao lado do poço de Jacob, quiseram falar directamente com Ele e, depois deste colóquio, disseram à mulher: "Já não é pelas tuas palavras que acreditamos, nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo" (Jo 4, 42).

Voltando ao cenário de vocação, o evangelista refere-nos que, quando Jesus vê Natanael aproximar-se exclama: "Aqui está um verdadeiro Israelita, em quem não há fingimento" (Jo 1, 47). Trata-se de um elogio que recorda o texto de um Salmo: "Feliz o homem a quem Iahweh não atribui iniquidade" (Sl 32, 2), mas que suscita a curiosidade de Natanael, o qual responde com admiração: "Como me conheces?" (Jo 1, 48a). A resposta de Jesus não é imediatamente compreensível. Ele diz: "Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira" (Jo 1, 48b). Não sabemos o que aconteceu sob esta figueira. É evidente que se trata de um momento decisivo na vida de Natanael. Ele sente-se comovido com estas palavras de Jesus, sente-se compreendido e compreende: este homem sabe tudo de mim, Ele sabe e conhece o caminho da vida, a este homem posso realmente confiar-me. E assim responde com uma confissão de fé límpida e bela, dizendo: "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel" (Jo 1, 49). Nela é dado um primeiro e importante passo no percurso de adesão a Jesus. As palavras de Natanael ressaltam um aspecto duplo e complementar da identidade de Jesus: Ele é reconhecido quer na sua relação especial com Deus Pai, do qual é Filho unigénito, quer na relação com o povo de Israel, do qual é proclamado rei, qualificação própria do Messias esperado. Nunca devemos perder de vista nenhuma destas duas componentes, porque se proclamamos apenas a dimensão celeste de Jesus, corremos o risco de o transformar num ser sublime e evanescente, e se ao contrário reconhecemos apenas a sua colocação concreta na história, acabamos por descuidar a dimensão divina que propriamente o qualifica.

Da sucessiva atividade apostólica de Bartolomeu-Natanael não temos notícias claras. Segundo uma informação referida pelo historiador Eusébio do século IV, um certo Panteno teria encontrado até na Índia os sinais de uma presença de Bartolomeu (cf. Hist. eccl., V 10, 3). Na tradição posterior, a partir da Idade Média, impôs-se a narração da sua morte por esfolamento, que se tornou muito popular. Pense-se na conhecidíssima cena do Juízo Universal na Capela Sistina, na qual Michelangelo pintou São Bartolomeu que segura com a mão esquerda a sua pele, sobre a qual o artista deixou o seu auto-retrato. As suas relíquias são veneradas aqui em Roma na Igreja a ele dedicada na Ilha Tiberina, aonde teriam sido levadas pelo Imperador alemão Otão III no ano de 983. Para concluir, podemos dizer que a figura de São Bartolomeu, mesmo sendo escassas as informações acerca dele, permanece contudo diante de nós para nos dizer que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada também sem cumprir obras sensacionais. Extraordinário é e permanece o próprio Jesus, ao qual cada um de nós está chamado a consagrar a própria vida e a própria morte.
       Durante alguns meses o Papa, na Audiência Geral das quartas-feiras, falou dos Apóstolos e dos primeiros discípulos. Esses textos estão reunidos em livro: Bento XVI, Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo. As origens da Igreja. Editorial Franciscana. Braga: 2008.

BENTO XVI, Audiência Geral, 4 de outubro de 2006: AQUI.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Limpai primeiro o interior do copo

       Disse Jesus: «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Devíeis praticar estas coisas, sem omitir as outras. Guias cegos! Coais o mosquito e engolis o camelo. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, que por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo» (Mt 23, 23-26).
       A incidência de Jesus na crítica a alguns costumes dos fariseus e escribas faz-nos lembrar as palavras dos profetas de Israel em que, progressivamente, alertam para o facto das tradições e rituais, exteriores, só por si, nada valerem. O que conta, diante de Deus, é a conversão interior, a adesão firme à vontade de Deus, a prática do bem, da justiça, da caridade.
       Jesus insiste na prioridade de limpar o interior do copo, isto é, purificar o coração, a mente, os desejos, os pensamentos, a vontade. Podemos ser cumpridores dos mínimos garantidos, mas sem caridade, sem alma, sem a atenção e o cuidado ao nosso semelhante, de nada nos adianta. Seremos cristãos por fora, exteriormente, como vestuário que trocamos conforme a ocasião. Mas a nossa veste interior é Cristo, o amor e o perdão, o serviço ao outro, o dar a vida pelo irmão.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Paróquia de Pinheiros: Festa do Emigrante 2016

        Ainda na idade infantil, a Festa do Emigrante começa a ser tradição, congregando a comunidade paroquial com os residentes, com os familiares que se encontram espalhados pelo país e pelo mundo. Esta é uma altura propícia para passarem um tempo de descanso e de carregar energias na terra natal. Com efeito, os meses de julho e de agosto são os que trazem mais emigrantes.
       O dia de festa começou, como habitualmente, com a celebração da Santa Missa, seguindo-se procissão sob o patrocínio de Santa Eufémia, com passagem obrigatória no cemitério, onde se rezou por todos os familiares e amigos aí sepultados e, neste dia, em especial pelos emigrantes que já partiram para a Casa do Pai.
       A Procissão regressou à Igreja Matriz, seguindo-se um tempo de confraternização, no Cabeço dos Pombos, com o almoço oferecido pela Junta de Freguesia e com o Bar a promover receitas para a Festa de Santa Eufémia. Durante a tarde, espaço para a animação musical.
       Algumas fotos da Festa do Emigrante 2016.

Para outras fotos disponíveis, visitar a Paróquia de Pinheiros no Facebook.

Virgem Santa Maria, Rainha


O último dos mistérios para a meditação do Rosário:

Coroação de Nossa Senhora como Rainha do Céu e da Terra, dos Homens e dos Anjos.

       Aquela que nos foi dado por Mãe, pelo Filho muito amado, Jesus Cristo, no alto da Cruz, é-nos dada também como Rainha, para que a realeza de Maria nos leve pelos caminhos do Senhor e nos faça introduzir na soberania de Deus.

Nota histórica:
   A festa litúrgica da Virgem Santa Maria, foi instituída por Pio XII. Celebra-se na oitava da Assunção de Nossa Senhora, para manifestar claramente a conexão que existe entre a realeza de Maria e a sua Assunção ao céu.

ORAÇÃO COLETA
       Senhor nosso Deus, que nos destes a Mãe do vosso Filho como nossa Mãe e Rainha, fazei que, protegidos pela sua intercessão, alcancemos no Céu a glória prometida aos vossos filhos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
       Ao celebrarmos a memória da Virgem Santa Maria, nós Vos oferecemos, Senhor, os nossos dons e Vos pedimos que venha em nosso auxílio o vosso Filho feito homem, que a Vós Se ofereceu na cruz como oblação imaculada. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Bento XVI sobre esta celebração:

Estimados irmãos e irmãs
Celebra-se hoje a memória litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria invocada com o título: «Rainha». É uma festa de instituição recente, embora sejam antigas a sua origem e devoção: com efeito, foi estabelecida pelo Venerável Pio XII em 1954, no encerramento do Ano Mariano, fixando a sua data em 31 de Maio (cf. Carta encíclica Ad caeli Reginam, 11 de Outubro de 1954: aas, 46 [1954], 625-640). Nesta circunstância, o Papa disse que Maria é Rainha mais do que qualquer outra criatura em virtude da elevação da sua alma e da excelência dos dons recebidos. Ela não cessa de conceder todos os tesouros do seu amor e dos seus desvelos à humanidade (cf. Discurso em honra de Maria Rainha, 1 de Novembro de 1954). Pois bem, após a reforma pós-conciliar do calendário litúrgico, foi inserida oito dias depois da solenidade da Assunção para ressaltar o vínculo entre a realeza de Maria e a sua glorificação em alma e corpo ao lado do seu Filho. Na Constituição sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II, lemos assim: «Maria foi elevada à glória celeste e exaltada por Deus como Rainha do universo, para assim se conformar mais plenamente com o seu Filho» (cf. Lumen gentium, 59).
Esta é a raiz da festa de hoje: Maria é Rainha porque foi associada de modo único ao seu Filho, tanto no caminho terreno como na glória do Céu. O grande santo da Síria, Efrém o Sírio, acerca da realeza de Maria, afirma que deriva da sua maternidade: Ela é Mãe do Senhor, do Rei dos reis (cf. Is 9, 1-6) e indica-nos Jesus como nossa vida, salvação e esperança. O Servo de Deus Paulo VI recordava na sua Exortação apostólica Marialis Cultus: «Na Virgem Maria, de facto, tudo é relativo a Cristo e dependente d’Ele: foi em vista d’Ele que Deus Pai, desde toda a eternidade, a escolheu como Mãe toda santa e a plenificou com dons do Espírito a ninguém mais concedidos» (n. 25).
Mas agora perguntemo-nos: o que quer dizer Maria Rainha? É só um título unido a outros, a coroa, um ornamento com outros? O que quer dizer? O que é esta realeza? Como já se indicou, é uma consequência do seu estar unida ao Filho, do seu estar no Céu, isto é, em comunhão com Deus; Ela participa na responsabilidade de Deus pelo mundo e no amor de Deus pelo mundo. Existe uma ideia vulgar, comum, de rei ou rainha: seria uma pessoa com poder e riquezas. Mas este não é o tipo de realeza de Jesus e de Maria. Pensemos no Senhor: a realeza, o ser rei de Cristo está imbuído de humildade, serviço e amor: é sobretudo servir, ajudar e amar. Recordemos que Jesus foi proclamado rei na cruz com esta inscrição redigida por Pilatos: «rei dos judeus» (cf. Mc 15, 26). Naquele momento na cruz mostra-se que Ele é rei; e como é rei? Sofrendo connosco, por nós, amando até ao fim, e assim governa e cria verdade, amor e justiça. Ou pensemos também noutro momento: na última Ceia inclina-se para lavar os pés aos seus. Portanto, a realeza de Jesus nada tem a ver com a dos poderosos da terra. É um rei que serve os seus servidores; assim demonstrou durante toda a sua vida. E o mesmo é válido para Maria: é rainha ao serviço de Deus e da humanidade, é rainha do amor que vive o dom de si a Deus para entrar no desígnio da salvação do homem. Ao anjo, responde: Eis-me, sou a serva do Senhor (cf. Lc 1, 38), e no Magnificat canta: Deus considerou a humildade da sua serva (cf. Lc 1, 48). Ela auxilia-nos. É rainha precisamente amando-nos, ajudando-nos em todas as nossas necessidades; é a nossa irmã e serva humilde.
E assim já chegamos ao ponto: como exerce Maria esta realeza de serviço e amor? Velando sobre nós, seus filhos: os filhos que se dirigem a Ela na oração, para lhe agradecer ou para lhe pedir a sua tutela maternal e a sua ajuda celestial, talvez depois de se ter extraviado pelo caminho, oprimidos pela dor ou angústia, pelas vicissitudes tristes e difíceis da vida. Na serenidade ou na escuridão da existência, dirijamo-nos a Maria confiando-nos à sua intercessão contínua, porque do Filho nos possa alcançar toda a graça e misericórdia necessárias para o nosso peregrinar ao longo das sendas do mundo. Àquele que rege o mundo e tem nas suas mãos o destino do universo dirijamo-nos confiantes, por meio da Virgem Maria. Ela, desde há séculos, é invocada como Rainha celeste dos Céus; oito vezes, depois da recitação do santo Rosário, é implorada nas ladainhas lauretanas como Rainha dos Anjos, dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires, dos Confessores, das Virgens, de todos os Santos e das Famílias. O ritmo destas antigas invocações e preces diárias, como a Salve Regina, ajuda-nos a compreender que a Virgem Santa, como nossa Mãe ao lado do Filho Jesus na glória do Céu, está sempre connosco, no curso quotidiano da nossa vida.
Portanto, Rainha é título de confiança, alegria e amor. E sabemos que Aquela que tem nas suas mãos em parte o destino do mundo é boa, que nos ama e nos ajuda nas nossas dificuldades.
Caros amigos, a devoção a Nossa Senhora é um elemento importante da vida espiritual. Na nossa oração não cessemos de nos dirigir com confiança a Ela. Maria não deixará de interceder por nós junto do seu Filho. Olhando para Ele, imitemos a fé, a disponibilidade completa ao desígnio de amor de Deus, o acolhimento generoso de Jesus. Aprendamos a viver de Maria. Maria é a Rainha do céu próxima de Deus, mas é também a Mãe que está perto de cada um de nós, que nos ama e ouve a nossa voz. Obrigado pela atenção!
 BENTO XVI, Audiência Geral, 22 de agosto de 2012: AQUI.

domingo, 21 de agosto de 2016

Leituras: FÁTIMA LOPES - UM PEQUENO GRANDE AMOR

FÁTIMA LOPES (2009). Um pequeno grande amor. Lisboa: A Esfera dos Livros. 280 páginas.
       A conhecida apresentadora, tal como os programas que, ao longo dos anos, apresenta, também na escrita vem ao de cima a sensibilidade de mãe, de mulher, com uma preocupação muito humanista de escutar a vida, a história, as pessoas, respeitando, acolhendo, procurando dar pistas de discernimento, de decisão e de de luta.
       Este não é um livro fácil. Por certo. O tema retratado, em forma de romance, já na sua 17.ª edição, é por demais complexo, mas um tema muito relevante e que afeta muitas famílias. A vida atual colocou a descoberto a delicadeza dos filhos com pais separados. Porque há mais separações. Porque há uma maior exposição de casos específicos na comunicação social. Porque haverá uma maior preocupação por escutar as crianças e adolescentes. Porque há quem se preocupe.
       Antigamente não havia tantas separações, pelo que a questão dos filhos também não se colocava. Por outro lado, quando os filhos se tornaram "pedra de arremesso" entre marido e mulher, com os casos a chegarem à barra dos tribunais, tudo se tornou mais evidente e mais preocupante. Há casos dramáticos. As separações muitas delas são dramática, porque um dos dois não aceita, não compreende, tem outros interesses, não admite ser "deixado/a". Vêm as questões a um tempo, os bens materiais, a chantagem emocional. Os filhos entram nas disputas, ora por eles mesmo, pois o amor e ligação é forte e não se querem separar, ora para culpabilizar o outro pelo sofrimento infligido à criança ou ao adolescente, a exigência de contrapartidas, o dificultar da relação, afastando o/a filho/a de um dos pais, culpabilizando, dizendo mal do/o pai/mãe, porque foi embora, porque traiu, porque não quer saber.
       Os filhos são ainda os que mais sofrem. Mas não tem necessariamente que ser assim. O que separa os pais não tem que ser motivo para separá-los dos filhos, nem podem ser pedra de arremesso, nas disputas da custódia ou de outros interesses económicos ou sociais.
       A preocupação de Fátima Lopes, depreende-se deste livro, é ajudar a encontrar soluções de respeito, tolerância, apontando para o superior interesse da criança, do adolescente, do jovem.
       Gonçalo e Estela são os dois protagonistas desta história. Hão conhecer-se na escola quando falam de fins de semanas com o pai ou com a mãe. Gonçalo é uma prioridade para a mãe, que depois do seu nascimento, decidiu ser feliz, mas o marido não aceita de todo a separação e vai tentar virar o filho contra a mãe, insultando-a constantemente. Estela fica confiada a mãe, que não lhe liga nenhuma, o que quer é que o ex-marido lhe mantenha um padrão de vida elevado; para não criar disputas, o pai de Estela deixa que o tempo passe, para que Estela não seja a "pedra de arremesso".
       Fátima Lopes faz-nos um retrato luminoso sobre a separação dos pais, como refere desde o início, com a ajuda de pessoas ligadas a casos de situações semelhantes. Não fala muito de juízes, tribunais ou polícias, com o desejo que os pais reflitam e procurem juntos o bem dos filhos.
       A propósito, sobre separações, com a questão dos filhos também presentes, e com gravidezes para "obrigar" o outro a permanecer, valerá a pena ler: Vai valer a Pena, de Joaquim Quintino Aires.

Recomendamos também: A Viagem de Luz e Quim.

sábado, 20 de agosto de 2016

XXI Domingo do Tempo Comum - C - 21.agosto.2016

       1 – Jesus coloca-nos em movimento, por aldeias e cidades, para chegar o mais longe possível e ao maior número de pessoas. Os encontros e as palavras, os gestos e os prodígios, a postura, transparecem a Misericórdia do Pai, a sintonia de Jesus com a vontade paterna, o propósito de escancarar as portas do Reino de Deus, convidando todos para o banquete divino. Jesus revela-nos, concretizando, a filiação divina e assume-nos como irmãos. Se irmãos também filhos do mesmo Pai.
       Alguém O questiona: «Senhor, são poucos os que se salvam?».
       Há duas semanas, depois de Jesus ter contado a parábola sobre a vigilância dos servos na ausência do seu senhor, Pedro pergunta-Lhe se as recomendações também lhes diziam respeito. A resposta de Jesus é concludente: «A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá» (Lc 12, 32-48).
       Quando Jesus fala é para nós que fala. Para mim e para ti. Nunca para os outros. Ele chama-nos, desafia-nos, envolve-nos. Cabe-nos, a mim e a ti, responder. Seguimo-l'O? Aceitamos as Suas propostas? Procuraremos realizar o Seu mandato de amor, de perdão e de vida nova?
       Também hoje a resposta é clarificadora: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».
       2 – «Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu» (Mt 7, 21). Os propósitos são importantes. As promessas, a palavra dada, as intenções. Se ficarmos apenas nas intenções… De intenções está cheio o inferno! 
       São Tiago, numa belíssima página do Novo Testamento, é contundente: «Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé... Porque quem não pratica a misericórdia será julgado sem misericórdia... Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (Tg 2, 13.17.18).
       Numa outra página, esta do Evangelho, Jesus, em mais uma luminosa parábola, mostra que as palavras só por si não nos justificam. Um homem tinha dois filhos. A ambos chama para o ajudarem na vinha. O primeiro, de pronto, diz que não. Mas o rebate na consciência levam-no a apresentar-se junto do pai para ajudar. O outro filho disse sim, prontamente, amável, simpático, mas não mexeu os pés para ir para a vinha. Qual cumpriu a vontade do pai? – Pergunta Jesus. Cumpriu aquele que foi para a vinha, mesmo que inicialmente se mostrasse indisponível (cf. Mt 21, 28-32).
       Podemos conhecer Jesus. O demónio também O conhece e nem por isso é Seu discípulo. Não basta termos o nome de cristãos. É necessário que a nossa vida se faça segundo os critérios do Evangelho. Docilidade, delicadeza, caridade, serviço, pobreza, perdão, partilha, comunhão.
       O convite é para todos. Mas podemos ser excluídos. Por que Deus nos exclui? Nem pensar! Deus inclui-nos a todos. Porém, podemos recusar a Sua vida e a Sua vontade para nós.
        3 – Neste Jubileu da Misericórdia somos convidados a entrar pela Porta da Misericórdia, que é Jesus. Ele é a Porta que nos conduz ao Pai. É o Rosto e a Presença e o Agir de Deus. Próximo. Atento a todos, especialmente aos mais frágeis, aos pobres, pecadores, mulheres, aos doentes, às crianças, aos publicanos, aos estrangeiros, atento a todos os que precisam de ser amados, reconhecidos, acolhidos, incluídos na sociedade e sobretudo na vida.
       Jesus age com ternura, compadecendo-Se e levantando, como Bom Samaritano, todo o homem que se encontra caído, abatido, ferido. Abaixa-Se para nos poder ver de perto, nos poder amar e abraçar, para nos poder erguer e elevar, para poder cuidar de nós e sarar o que nos afasta dos outros.
       Cabe-nos abrir os braços, o coração e a vida para O acolhermos. Acolhemo-l'O sempre e quando acolhemos, amamos e servimos os outros. Ele deixa-Se ver, amar, deixa-Se seguir, prender, agredir, deixa-Se matar. Mas não deixa que o Seu amor por nós se esbata, se perca ou desapareça. Hoje, como ontem, Ele deixa-Se encontrar porque primeiro veio ao nosso encontro. Confunde-Se connosco. Mistura-se no meio de nós. É um de nós. É Um connosco.
       A tia Maria rezava muito a Jesus. Conhecemos a estória. Certa vez, através de um Anjo, Jesus disse-lhe que viria visitá-la no dia seguinte. Atarefou-se, limpou toda a casa. Deixou cada divisão um brinquinho. Pôs os melhores tapetes, colocou as novas cortinas. Preparou uma refeição requintada: aperitivos, o melhor prato que sabia fazer, variadas sobremesas, e o melhor conjunto de pratos, talheres e copos. Vestiu a melhor roupa. Uma flor no cabelo. O perfume para os dias de festa. Bateram à porta. Com o coração a saltar do corpo, foi abrir. Era um pobre pedinte, que passava de vez em quando. Entre. Como tem passado? Já não o via há algum tempo… Sente-se, tenho a mesa posta, estou à espera de Jesus. Coma do que quiser, chega para todos… Veio, depois, a vizinha. Que quererá desta vez? Pobre mulher, tão nova e com tantas dificuldades. Vem desabafar as mágoas. Sente-se aqui, a mesa está posta, comemos qualquer coisa em quanto falamos. Hoje fiz um banquete, Jesus vem visitar-me! O dia vai avançando e mais alguém bate à porta, não bate, entra esbaforido. É o Chico. Quer brincar, mas os meus filhos ainda não chegaram da escola. Entra, antes de brincarmos, vamos lanchar. Tenho várias sobremesas que vais gostar! Provou de tudo. E finalmente, as brincadeiras, até que os pais o vieram buscar. A Tia Maria tinha agora algum tempo para descansar. Adormeceu no sofá. Quando acordou viu um bilhete perfumado, escrito em letras douradas: “Obrigado, Maria, por Me acolheres, Me dares de comida, por Me escutares e por brincares comigo. Gostei muito deste dia contigo. Obrigado. Bons sonhos. O teu amigo, Jesus”.
        4 – Esforcemo-nos por entrar na porta estreita. Nas palavras de Santo Agostinho, a porta é estreita não porque Deus é estreito mas porque são muitas as pessoas que passam por ela. Cabe-nos percorrer a Porta estreita e torná-la ainda mais estreita porque atraímos outros para entrarem.
       Não nos cabe ajuizar os caminhos percorridos ou os atalhos a percorrer. Cabe-nos fazer o que está ao nosso alcance, procurando viver as Palavra de Cristo, adequando a nossa vida aos ideais do Evangelho, deixando um rasto de bem. O mais será com Deus, que também se serve de nós.
       O profeta Isaías estava ciente da benevolência e da grandeza do coração de Deus: «Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória... De todas as nações, como oferenda ao Senhor, eles hão de reconduzir todos os vossos irmãos, em cavalos, em carros, em liteiras, em mulas e em dromedários, até ao meu santo monte, em Jerusalém».
       O propósito dos cristãos é o louvor e a glória de Deus, na certeza, como sublinhou Santo Ireneu, que a glória de Deus é o homem vivo. Glorificamos Deus com a nossa vida, procurando viver com alegria e responsabilidade, estreitando os laços que nos unem mutuamente. De todos os povos e nações, vamos ao monte do Senhor, vamos ao Seu encontro para formarmos um só Povo.
       "Senhor Deus, que unis os corações dos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo ame o que mandais e espere o que prometeis, para que, no meio da instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias".

       5 – Na segunda leitura, da Epístola aos Hebreus, a certeza que Deus nos ama como Pai e nos quer como filhos bem-amados. O autor invetiva-nos: «Deus trata-vos como filhos. Qual é o filho a quem o pai não corrige? Nenhuma correção, quando se recebe, é considerada como motivo de alegria, mas de tristeza. Mais tarde, porém, dá àqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justiça. Por isso, levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos vacilantes e dirigi os vossos passos por caminhos direitos, para que o coxo não se extravie, mas antes seja curado».
       Por certo também já fizemos esta experiência. Quem te avisa teu amigo é. Por vezes dececionamo-nos perante os avisos e os fracassos. Há aqueles que nos repreendem pelo gozo que lhes dá verificarem a nossa fragilidade, contentam-se com as desgraças alheias porque ainda não conseguem encontrar nas suas vidas razões para serem felizes. Mas há outros que nos querem bem e se nos alertam é para nos protegerem e nos ajudarem a seguir por um caminho mais favorável. Neste número estão os nossos pais e os nossos amigos verdadeiros.
       A Palavra de Deus guia-nos para o bem, comprometendo-nos na construção de um mundo fraterno, em que todos nos reconheçamos como irmãos e cuidemos uns dos outros.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Is 66, 18-21; Sl 116 (117); Hebr 12, 5-7. 11-13; Lc 13, 22-30.

Leituras: ELIE WIESEL - NOITE

ELIE WIESEL (2016). Noite. Lisboa: Texto Editores. 136 páginas.

       Elie Wiesel sobreviveu para contar os horrores vividos nos Guetos de Sighet e depois nos campos de extermínio. Até ao fim, a ameaça permanente à vida. Para lá de todo o sofrimento infligido, a humilhação, os trabalhos forçados, a tortura, a fome, a sede, o tratamento desumano a que estavam sujeitos, a desinformação, a pressão psicológica, retirando toda a esperança. Momentos em que as forças faltas, o ânimo está de restos e só resta confiar-se à morte. Há momentos que chegam (quase) à loucura e outros enlouquecem de verdade, ao ponto de não saberem quem são, pelos horrores presenciados, pela impossibilidade de descansar em segurança, pela morte à frente, ao lado, atrás, vizinhos, amigos, família.
       É um texto comovente, pois se percebe com clareza os horrores perpetrados pelos nazis, o controlo do corpo e da mente, semeando a divisão entre membros do mesmo povo, para que uns possam guardar, vigiar, controlar os outros.
       Na contracapa, breve retrato do autor: "Nascido no seio de uma família judia na Roménia, Elie Wiesel era adolescente quando, justamente com a família, foi empurrado para um vagão de carga  e transportado, primeiro para o campo de extermínio, Auschwitz, e, depois, para Buchenwald. Este é o aterrador e íntimo relato do autor sobre os horrores que passou, a morte dos pais e da irmã de apenas 8 anos, e da perda da inocência a mãos bárbaras. Descrevendo com grande eloquência o assassínio de um povo, do ponto de vista de um sobrevivente, Noite faz parte dos mais pessoais e comovedores relatos sobre o Holocausto, e oferece uma perspetiva rara ao lado mais negro da natureza humana".
A fé em Deus é posta em questão. Não tanto a existência em Deus, mas a discussão com Ele, que não ouve, e Se mantém em silêncio perante tanta violência. Alguns judeus ficam chateados com Deus, como se revoltam por que não conseguem perdoar-Lhe a distância e/ou a indiferença. Também neste aspeto, é um testemunho de fé provada pela vida, pelos horrores da fome, da humilhação, a dignidade que lhes foi roubada.


Algumas expressões do autor:
"Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada.
Nunca esquecerei aquele fumo.
Nunca esquecerei os pequeninos rostos das crianças cujos corpos eu vi transformarem-se em espirais sob um céu mudo.
Nunca esquecerei aquelas chamas que consumiram para sempre a minha Fé.
Nunca esquecerei aquele silêncio noturno que me provou para a eternidade, do desejo de viver.
Nunca esquecerei aqueles momentos qua assassinaram o meu Deus e a minha alma, e que transformaram os meus sonhos em cinza.
Nunca esquecerei, mesmo que tenha sido condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus.
Nunca".
Em Auschwitz, depois de uma correria louca, o responsável pelo bloco em que ficaram, um jovem polaco diz-lhes:
“Camaradas, encontram-se no campo de concentração de Auschwitz. Um longo caminho repleto de sofrimento espera-vos. Mas não percam a coragem. Já escaparam ao perigo mais grave: a seleção. Reúnam as vossas forças e não percam a esperança. Todos veremos chegar o dia da libertação. Tenham confiança na vida, mil vezes confiança. Afastem o desespero e assim afastarão de vós a morte. O inferno não dura para sempre… E, agora, uma prece que é mais um conselho: qua a camaradagem reine entre vós. Somos todos irmãos e sofremos o mesmo destino. O mesmo fumo flutua sobre as nossas cabeças. Ajudem-se uns aos outros. É a única maneira de sobreviverem”.
“Alguns falavam de Deus, dos Seus caminhos misteriosos, dos pecados do povo judeu e da libertação futura. Quanto a mim, tinha deixado de rezar. Como estava parecido com Job! Não tinha negado a Sua existência, mas duvidava da Sua justiça absoluta.
Akiba Drumer dizia: Deus põe-nos à prova. Quer ver se somos capazes de dominar os maus instintos, de matar o Satanás que existe em nós. Não temos o direito de desesperar. E se Ele nos castiga impiedosamente é sinal de que nos ama ainda mais”.
Três condenados ao enforcamento. Os dois adultos gritaram – viva a liberdade. O pequeno manteve-se calado.
“Onde está o Bom Deus, onde está Ele? – Perguntou alguém atrás de mim…
Ainda estava vivo quando passei diante dele. A sua língua ainda estava vermelha, os seus olhos tinham ainda uma centelha de vida.
Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar:
– Onde está Deus, então?
E eu senti dentro de mim uma voz que lhe respondia:
– Onde é que Ele está? Ei-lo… está aqui pendurado nesta forca…
Naquela noite, a sopa sabia a cadáver”.
“Pobre Akiba Drumer! Se tivesse podido continuar a acreditar em Deus, a ver neste calvário um aprova de Deus, não teria sido levado pela seleção. Mas a partir do momento em que tinha sentido as primeiras brechas na sua fé, tinha perdido as suas razões para lutar e tinha começado a agonizar”