segunda-feira, 30 de novembro de 2015

D. ANTÓNIO COUTO - O LIVRO DOS SALMOS

D. ANTÓNIO COUTO (2015). O Livro dos Salmos. Cucujães: Editorial Missões. 120 páginas.
       D. António José da Rocha Couto é um reconhecido estudioso da Bíblia. O Bispo de Lamego não deixa de ler, meditar, estudar, interessar-se por temáticas teológicas e concretamente bíblicas.
       Cada semana é possível acompanhar a reflexão/estudo de D. António às Leituras de cada domingo, especialmente do Evangelho, no seu blogue MESA DE PALAVRAS. Por outro lado, a publicação em livro destas pistas de reflexão aprofundada da palavra de Deus para o ciclo de três anos (até ao momento publicados os Domingos do ano A e do Ano B; aguarda-se a publicação do ano C; em simultâneo e como complemento, a introdução ao Evangelho de São Mateus e ao Evangelho de São Marcos, aguardando-se o estudo/introdução a São Lucas.
        Entretanto, D. António Couto coloca em nossas mãos este estudo sobre o Livro dos 150 Salmos. Sabendo-se que o conjunto dos Salmos já formaria um livro e daria para vários estudos, D. António entendeu fixar-se em alguns Salmos mais significativos.
       Os Salmos são a resposta que o Homem dá a Deus. De Deus nos vem a Palavra e a Sabedoria, a Graça e a Salvação. Respondemos com louvor e com súplica, reconhecendo a grandeza de Deus e a nossa pequenez, a misericórdia de Deus e o nosso pecado. Ainda que as nossas palavras sejam grito e protesto, encontram um olhar, um coração que escuta, que envolve, que ama, que perdoa e nos redime.
       "Os Salmos - diz D. António - são para cantar com toda a intensidade, ao som de instrumentos musicais, para entregarmos a Deus a nossa alegria, mas também o ódio que nos habita. Rezar é entregar tudo a Deus. As coisas belas, claro. Mas também o lixo, o mato e as silvas que nos habitam. A oração dos Salmos, recitada com toda a intensidade, depura e decanta a nossa vida, de Deus recebida e a Deus oferecida, por Deus agraciada e transformada, transfigurada".
       Mais à frente, D. António reforça a ideia: "Dizer «Salmos» ou «Saltério» é dizer intensidade, vida, energia, canto, música, alegria, prazer, festa e ainda que, por vezes, dorida".
       Um pequena história recolhida por D. António Couto, sobre o mistério do homem:
A história do insensato do Rabbi Hanoch: «Era uma vez um homem insensato e, por isso, era chamado golem. Quando se levantava de manhã tinha de se haver com o difícil problema de encontrar as roupas para vestir, de tal modo que à noite, só de pensar nisso, já tinha medo de se deitar. Mas uma noite encheu-se de coragem, pegou num lápis e numa folha de papel, e, enquanto se despia, tomou nota do lugar onde poisava cada peça de roupa. Na manhã seguinte, levantou-se todo contente e pegou na sua lista: o barrete ali, e enfiou.o na cabeça, as calças acolá, e vestiu-as; a assim por diante até ter vestido tudo. "Sim, mas eu, onde estou eu?", perguntou-se a si mesmo, "onde estou eu?". Em vão procurou e voltou a procurar. Não conseguiu encontrar-se. E assim sucede também connosco, concluiu o Rabbi». 
       E, conclui D. António: "Só sabemos onde estamos quando é Deus a formular a pergunta e a fazer-nos encontrar a resposta".
       Nesta obra de D. António Couto, O Livro dos Salmos, é possível perceber um pouco mais sobre os Salmos, a sua origem, significado, e rezá-los com mais intensidade. É um trabalho a utilizar por estudantes e por especialistas, mas também percep´tivel para quem quiser aprofundar os seus conhecimentos dobre a Sagrada Escritura, sempre com o propósito de rezar melhor e comprometer-se com a oração, fazendo que o Bem que recebemos de Deus, se multiplique na partilha com os irmãos.

Novena da Imaculada Conceição - 1.º Dia

A Alegria da Chegada.
       Numa dinâmica dialógica (ou dicotómica), o Pe. Diamantino Alvaíde, o Pregador deste ano, no primeiro dia da Novena em honra da Imaculada Conceição e coincidindo com o primeiro domingo de Advento, propôs-se abordar a Alegria da Chegada, para no segundo dia abordar a alegria da partida. As alegrias de Nossa Senhora, concretizáveis em diferentes momentos e e oportunidades diversas.
       Nossa Senhora, como todos nós, experimentou a alegria de muitas chegadas e com a Sua chegada provocou muitas alegrias. Chegadas previstas e chegadas surpreendentes. De um amigo, de um familiar, de uma pessoa que não contávamos. A nossa chegada junto de alguém, anunciada ou de surpresa. Assim na vida de Nossa Senhora, muitos chegaram e por Ela foram acolhidos com alegria, sem hesitações. Chegou junto de muitos e a muitos levou alegria, júbilo, sentido e esperança. Alegria na chegada a casa da Sua prima Isabel; acolhimento alegre na chegada dos Pastores; chegada junto à Cruz, e chegada de Cristo morto aos seus braços; chegada surpreendente do Anjo e chegada do Deus-Menino aos seus braços de Mãe.
       Relembrando o Evangelho do primeiro domingo do Advento e dos Sinais na Lua, no Sol e nas estrelas, e os sinais que poderemos ser para levar a outros a Alegria da chegada de Jesus, a alegria do Natal. Poderemos ser opacos e obstaculizar que outros vejam e sintam a alegria da chegada de Jesus Cristo. Mas como cristãos, e imitando Maria, temos a obrigação de ser Sinais desta chegada, sinais da presença de Deus no mundo. Maria deu Jesus com Alegria. Que também nós, na alegria desta chegada, cheguemos a outros e lhe levemos esta Mensagem de esperança e de alegria...

domingo, 29 de novembro de 2015

Início da Novena da Imaculada Conceição | 2015

       A grande festa comunitária da Paróquia de Tabuaço centra-se na sua Padroeira, a Imaculada Conceição, envolvendo os diferentes grupos eclesiais, mas também a comunidade civil. Também para os Bombeiros Voluntários, dos quais é Madrinha, assume um momento de especial significado.
       O dia 8 de dezembro é o dia mais solene e mais importante, com a celebração da Eucaristia e com a Procissão por algumas das ruas de Tabuaço, com paragem obrigatória frente ao Quartel dos Bombeiros Voluntários, que fazem a guarda de honra e transportam o andor de Nossa Senhora.
       A preparação já começou. A Igreja já está predisposta para este momento festivo. A NOVENA preparatória é um dos momentos mais importantes de oração e de reflexão para a comunidade. Inicia, como habitualmente, no dia 29 de de novembro e este ano coincide com o 1.º Domingo do Advento.
       Ao domingo, e porque a Eucaristia é de manhã, no horário tradicional das 10h30, a Adoração do Santíssimo Sacramento, que inclui a recitação do Terço, a Pregação e a Adoração. Aos sábados, a recitação é antes da Eucaristia com as crianças da catequese. Horários: de domingo a sexta-feira - 20h30; sábado - 16h30 (recitação do terço, seguindo-se a Eucaristia). No sábado, dia 5 de dezembro, o Compromisso dos Acólitos, no dia 7, segunda-feira, as Confissões comunitárias, das 17h00 às 19h00.
       O Pregador será o Pe. Diamantino Alvaíde, sacerdote há 10 anos, pároco de Moimenta da Beira e de Cabaços e que já esteve connosco na Escola da Fé, no dia 27 de novembro.

sábado, 28 de novembro de 2015

Domingo I do Advento - ano C - 29.novembro.2015

       1 – Estamos no fim do mundo.
       Esta é uma afirmação recorrente. Amiúde se ouvem expressões semelhantes perante tantas desgraças que desgraçam a vida das pessoas, das famílias, das comunidades e dos povos. Violência doméstica, corrupção, terrorismo e, em consequência, a multidão de refugiados, guerrilhas, vandalismo, exploração infantil, maus tratos, tráfico de droga e de órgãos humanos, trabalho precário, miséria, mortes e mais mortes, por tudo e por nada. Inicia o noticiário e logo esperamos ver mais algum escândalo, mais uma cena de violência ou de pancadaria, mais uma explosão ou um ataque terrorista. A violência e a publicitação da mesma vai globalizando a indiferença. Os nossos olhos vão-se habituando à escuridão, o nosso coração habitua-se às trevas, já pouco nos comove. Antes, quando víamos – através dos meios de comunicação social, que tinham muito mais pudor – um corpo estendido no chão, eventualmente coberto, escandalizávamo-nos. Hoje, é mais um e outro e outro e vários, destapados. É tão familiar que não nos faz reagir. Nada de novo.
       Por outro lado, a desmobilização e desmotivação. As desgraças são tantas que por mais vontade que tenhamos não há muito a fazer para inverter um caminho destrutivo e tenebroso. O melhor é fazer como outros, deixar o tempo correr e logo se verá. Se não melhorar, piora, estaremos cá para ver, ou já não estaremos e que outros resolvam. Acaso, sou guarda do meu irmão? Interpelação de Caim a Deus, quando Deus lhe pediu contas do seu irmão Abel. Também a nós Deus nos pergunta pelos nossos irmãos, responsabilizando-nos por eles. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos a Mim o fazeis.
       2 – «Erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima».
       O fim do mundo, no sentido cristão, seguindo o Evangelho, não é o caos, um momento de destruição que acabe com o mundo. O fim do mundo é Deus. É o tempo em que se remete para Deus o mundo inteiro e a Ele se confiam as suas alegrias e as suas tristezas. Trata-se da soberania de Deus sobre o Universo. Com a chegada de Jesus Cristo, o mundo chega ao fim, estamos nos últimos dias, preenchidos de graça e de misericórdia. A vinda de Jesus lembra-nos que o tempo não é nosso e que o espaço deve ser casa para todos. O nosso tempo chegou ao fim para que o tempo que ora nos é dado tenha um fim, uma finalidade, um sentido. Se o tempo é nosso, faremos dele o que quisermos, mesmo que o usemos contra os outros. Se o tempo é final, tempo de Deus, há que valorizar cada momento, para agradecer e louvar, para partilhar. O tempo não é nosso, é de Deus. É para nós, mas não apenas para nós. Não poderemos reter o tempo que não é nosso. É-nos dado. Tudo o que nos é dado por Deus é para condividir! Como os dons. Estes só são verdadeiramente dons quando partilhados, quando colocados a render. Dons recebidos para dar, para que sejam DOM.
«Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas».
       Não vos alarmeis. Não é o fim. Levantai-vos. Erguei a cabeça, o olhar, o coração e a vida. Deus está por perto. A vossa salvação está iminente. Não vos inquieteis. É inevitável que estas coisas aconteçam. Enquanto houver tempo e história e humanidade. Não que nos desculpemos com as nossas limitações, mas não somos deuses. A fragilidade e a indigência acompanham-nos em todo o tempo. Só Deus é Deus. E só em Deus seremos totalmente o que estamos chamados a ser pela graça do batismo: filhos no Filho, abençoados, redimidos. Na história, como caminho, podendo fraquejar; na eternidade de Deus, como plenitude, eternamente.
       3 – «Hão de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória... Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha... Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem».
       Se estamos nos últimos tempos, o compromisso com a criação há de ser mais efetiva e reforçar o empenho em transformar o mundo que habitamos. O fim não paira como ameaça, mas como esperança e como desafio. O fim é de Deus, para Quem nos encaminhamos. Se é Ele que vem e que chega, então estamos tranquilos, ainda que surjam ideologias ou poderes diabólicos. Se o tempo é breve, cabe-nos intensificar a nossa contribuição para tornarmos o mundo mais favorável para todos, construindo os novos céus e a nova terra, tempo novo iniciado com Jesus Cristo.
       Vigiar e estar preparados. Não é uma atitude passiva como quem cruza os braços e espera um desenlace catastrófico. Implica-nos e impele-nos a fazer o que está ao nosso alcance, concorrendo com o que somos e com os meios de que dispomos para que o tempo dado por Deus, e por nós recebido, seja partilhado e consumado na justiça, na humanização das pessoas e das estruturas, na inclusão de todos, preferencialmente dos mais pobres.
       4 – Os profetas acalentam a esperança do Povo de Israel com a promessa de Deus enviar a salvação. Agora como então, e como no tempo de Jesus, as dificuldades e os contratempos, as perseguições e as guerras fazem desanimar as pessoas. O povo eleito experimenta as agruras do exílio, da invasão de outros povos, a miséria, a violência.
       Os profetas, mensageiros de Deus, trazem a certeza de tempos novos, tempos abençoados pela intervenção do Senhor: «Dias virão, em que cumprirei a promessa que fiz à casa de Israel e à casa de Judá: Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um rebento de justiça que exercerá o direito e a justiça na terra. Naqueles dias, o reino de Judá será salvo e Jerusalém viverá em segurança. Este é o nome que chamarão à cidade: ‘O Senhor é a nossa justiça’».
       Para nós cristãos, Jesus Cristo é a nossa justiça. É Ele que justifica a nossa vida e nos torna novas criaturas, no Batismo, pela água e pelo Espírito Santo. Com o advento de Cristo, o Céu fica mais perto. O Apóstolo Paulo, em jeito de oração e de bênção, compromete-nos, pela pertença a Cristo, na caridade diligente para com todos.
       «O Senhor vos faça crescer e abundar na caridade uns para com os outros e para com todos, tal como nós a temos tido para convosco. O Senhor confirme os vossos corações numa santidade irrepreensível, diante de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de Jesus... Recebestes de nós instruções sobre o modo como deveis proceder para agradar a Deus e assim estais procedendo; mas deveis progredir ainda mais. Conheceis bem as normas que vos demos da parte do Senhor Jesus».
       A espera, para os crentes, é ativa. Não esperamos por outros tempos ou por que outros façam o que nós podemos e devemos fazer para tornar o mundo mais habitável e mais casa de todos. O nosso compromisso é com Jesus, visualizável no nosso semelhante, através do serviço.
       5 – Peçamos ao Senhor auxílio e fortaleza nas adversidades, luz e discernimento nas dúvidas. «Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, ensinai-me as vossas veredas. Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me, porque Vós sois Deus, meu Salvador».
       Que a sabedoria de Deus nos desperte para o serviço dedicado aos irmãos. «Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo, de modo que, chamados um dia à sua direita, mereçam alcançar o reino dos Céus» (oração de coleta).

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Jer 33, 14, 16; Sl 24 (25); 2 1 Tes 3, 12 – 4, 2; Lc 21, 25-28. 34-36.

Escola da Fé - Obras de Misericórdia - 27 de novembro

       "Sepultar os mortos e reza a Deus pelos vivos e pelos mortos".
       No dia 23 de outubro iniciámos as sessões da Escola da Fé para este ano pastoral de 2015-2016.
Com a proximidade do Ano Santo Extraordinário - Jubileu da Misericórdia -, convocado pelo Papa Francisco, para iniciar a 8 de dezembro, do corrrente ano, solenidade da Imaculada Conceição e encerrar no dia 20 de novembro de 2016, solenidade de Cristo Rei, a misericórdia de Deus para connosco, e com a qual deveremos contagiar todos os que se cruzam connosco, estará sempre como referência à reflexão e à vivência cristã, comprometidos com o mundo atual. Desta feita, e com conformidade com a Bula "O Rosto da Misericórdia", as Obras de Misericórdia corporais e espirituais serão um desafio que nos envolve e nos desafia. Igualmente o juízo Final segundo São Mateus (25, 31-46): "Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes".
       Nesta segunda sessão da Escola da Fé, a proposta era refletir sobre uma obra de misericórdia corporal e uma espiritual: "SEPULTAR OS MORTOS E REZAR A DEUS POR VIVOS E DEFUNTOS". Este connosco o Pe. Diamantino Alvaíde, Pároco de Moimenta da Beira e de Cabaços, e que será o pregador da Novena da Imaculada Conceição.
       O Pe. Diamantino partiu do texto de São Lucas (9, 57, 60), sobre as exigências do seguimento. "Segue-me... deixa que primeiro vá sepultar o meu Pai... (resposta de Jesus:) Deixa que os mortos sepultem os seus mortos..." É uma expressão que, à primeira vista, pode suscitar espanto. Afinal Jesus conhece a Sagrada Escritura e sabe o respeito com que os mortos devem ser tratados... O antigo Testamento tem várias passagens em que lembra a justiça e a justeza de sepultar os mortos e igualmente de rezar, intercedendo, pelos vivos e pelos defuntos.
       Parte do tempo, o Pe. Diamantino dedicou à reflexão sobre o luto, nas suas formas, motivos, tempos; a resposta dada e a dar pela Igreja. Houve oportunidade para troca de impressões, tornando mais viva mais esta escola da fé.
       Algumas imagens:
Para outras FOTOS visitar a página da Paróquia de Tabuaço no Facebook.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

As minhas palavras não passarão

       Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «Olhai a figueira e as outras árvores: Quando vedes que já têm rebentos, sabeis que o Verão está próximo. Assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que está próximo o reino de Deus. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que tudo aconteça. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão» (Lc 21, 29-33).
        Jesus anuncia breve a vinda o Reino de Deus. Aliás, o Reino de verdade, de justiça e de paz chega com o próprio Jesus Cristo, já está em ebulição. As palavras proféticas do Mestre dos Mestres são um desafio à confiança. Entretanto muitas coisas acontecerão, guerras, conflitos, destruição, morte, mas aqueles que perseverarem salvar-se-ão em Cristo Jesus. A Sua vinda é um encontro que nos redime, nos salva, nos insere na comunhão com Deus. Ele ilumina o nosso caminho e as nossas opções. As suas palavras elevam-nos até à eternidade. Por  ora é tempo de colocarmos mãos à obra e transformarmos o mundo em que vivemos, cuja responsabilidade Deus nos concedeu.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

José Luís Martins: OS INFINITOS DO AMOR - reflexões

JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS (2015) Os Infinitos do Amor. 53 reflexões. Lisboa: Paulus Editora. 224 páginas.
       Semana a semana chegam-nos as reflexões de José Luís Martins, contribuindo para que o ambiente digital fique mais rico com a sua partilha, e muitas pessoas se deliciem numa leitura poética, simples de perceber, envolvente, tocando a vida nas suas variadíssimas expressões, alegria, tristeza, solidão, morte, a força das palavras, a abertura para fé, o compromisso com o bem e com a verdade, a morte, a luta, a vida como caminho, a amizade, o trabalho e a família, a felicidade, o bem e o mal, a eternidade.
       O livro com que nos presenteia permite-nos (re)ler, sublinhar uma ou outra frase. O formato de papel de algum modo permite-nos assimilar melhor cada texto, sugestão, desafio e facilmente voltar a folhear e a escolher uma reflexão para uma ou outra ocasião. Pelo menos para quem aprendeu a mexer, tocar, manusear as folhas. Mas seja neste formato de livro impresso, seja através das plataformas digitais, as reflexões de José Luís Martins são provocantes (no bom sentido), comprometem-nos com o melhor de nós, lutando, não desistindo, não desvalorizando as qualidades pessoais para agir, pôr em prática. As obras, o agir, as escolhas e opções testam os dons. A partilha, a humildade de se colocar ao serviço dos outros, potenciando o melhor daqueles com quem nos cruzamos; apostando no ser e não tanto no ter; mais na autenticidade e não tanto nas aparências; não baixar os braços mesmo quando as dificuldades são muitas; aprender a gostar de si mesmo, sentindo-se bem consigo para se poder dar aos outros; a certeza que o amanhã virá a seguir às nossas noites por mais escuras e frias que sejam.
       Como refere o Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, José Luís Martins é, mais que um filósofo, um pensador, um pensa-dor. A vida é um mundo denso e intenso. Vida e morte. Alegria e luto. Júbilo e tristeza. Paz e ansiedade. Perda e sofrimento. Há sempre esperança. A vida depende muito do que sou, das opções que toma, das atitudes que assumo. Há que gastar bem o tempo, que é breve, mudar o que depende de nós mudar e não gastar tempo com o que não depende de nós.
       A fé e a mensagem cristã deixa-se facilmente intuir nas ideias e convicções expressas pelo autor.
       Sublinhado, inolvidável, para Carlos Ribeiro que ilustra de forma simples e intuitiva cada mensagem.
       Valerá a pena transcrever algumas expressões que se espalham pelo livro:
"A felicidade depende sempre mais de nós do que das circunstâncias".
"A pobreza não retira a dignidade a ninguém, mas a riqueza pode fazê-lo com facilidade" 
"Devemos concentrarmo-nos no que temos, agradecer quando temos acesso ao essencial e procurar e procurar que aquilo que excede as nossas necessidades possa chegar a quem dele precisa" 
"É possível viver num palácio sem se deixar corromper por isso. Há quem se sirva dos seus bens para ser uma bênção na vida dos outros: esse é rico, muito rico no que importa. Fez-se feliz, por se ter feito pobre para que outros sejam ricos... fez-se rico, por ter sido capaz de dar tudo!" 
"Não é o peso da cruz que importa, mas sim a força dos ombros que a carregam".
O passado não se altera, mas o futuro pode sempre ser diferente". 
"Os que nos amaram deram-se-nos. Não se perderam porque existem em nós. Sou também aquele que amou. Que me ama... A saudade é muito mais doce mas, qual espada, muito mais dura, afiada e longa. Parece destruir o que celebra. Trata-se de uma das tristezas mais fundas... a de se haver perdido o que se teve, a de se continuar a amar o que já não está aqui connosco. A de se continuar a ser dois depois de deixarmos de sentir o outro". 
"As adversidades como a morte, a doença grave ou uma tragédia, mais séria não se conseguem anular, faça o que se fizer. Aplicar aí a nossa coragem, vontade e persistência no sentido de destruir isso só terá um resultado efetivo: aniquila-nos, porque estaremos a tentar empurrar, não uma pedra pesada, nem sequer uma montanha mas o próprio peso do mundo... sem termos os pés assentes em nada". 
"Não há heróis de um gesto só. Ninguém chega a ser bom de um momento para o outro. As grandes obras são consequência de percursos em que a vontade se sobrepõe à natureza passiva repetidas vezes... Ninguém chega a ser mau de súbito. Os grandes disparates aparecem na sequência de outros disparates, menores, que vão corrompendo com paciência e determinação os alicerces da nossa liberdade, a fim de que, convencidos de que somos mesmo assim, aceitemos fazer o que nos prejudica e arruína a nossa verdadeira felicidade". 
"Agradecer e perdoar fazem diferença. Muita. Em mim e no outro. Sempre.... Um olhar, uma palavra, um silêncio ou um pequeno gesto, são suficientes para levar trevas ou luz à vida de outros. Assim. Num instante. Dependemos uns dos outros. Nós não somos sós. Nunca. Por maior que seja a solidão em que nos sentimos. Por maior que seja a escuridão e o frio, há sempre alguém que chegará. Sempre. Sempre. Por mais que demore". 
"A vida precisa de tempo, ma não há pior do que adiar... muitos julgam que o momento de amar pode ser outro. Que sempre haverá tempo depois do tempo. Errado. O tempo não é nosso e que, portanto, não está ao nosso dispor". 
"O amor leva-me ao outro. Supero os meus limites, do espaço e do tempo. Porque me dou, passo a existir também no que me ultrapassa. Sou mais. Só o amor permite a conquista da eternidade. Só o amor resiste ao nascimento e à morte. Qualquer vida que nasce brota de um amor, de uma entrega gratuita e incondicional de algo ao espaço e ao tempo sem fim... A nossa vida não nos pertence. Somos uma parte do todo. Não o centro. Não estamos vivos, somos vida. Uma vida cheia de mistérios, mas de beleza sublime. Podem as lágrimas e sofrimentos parecer a eternidade... mas só o bem não tem fim... O amor faz-nos renascer a cada vez que parece matar-nos.
Somos mais do que tempo. Muito mais". 
"O orgulho, a vaidade e a soberba andam quase sempre juntos. São os superiores aliados da ignorância! O orgulhoso coloca-se a si mesmo acima da realidade. Mas, não só se julga superior aos outros como ainda deseja que eles partilhem dessa mesma opinião, ou seja, que todos pensem que ele é o melhor! Mais ainda, por se julgar o assim o suprassumo, considera poder tratar os outros como seus inferiores!" 
"No amor, apenas as intimidades devem estar em comunhão. Sem confusão, sem exclusão, sem que se anule parte alguma de cada um. Há quem se faça demasiado próximo e por isso anule o outro. Não. É preciso que haja espaço e tempo para que cada um possa ser quem é e o quer ser. Não se trata de nos defendermos, mas tão-só de respeitarmos o outro". 
"Há quem prefira partir do que chegar. Quem busque descobrir todos os cantos e mistérios do mundo... mas há também quem apenas queira ser feliz em qualquer lugar, buscando-se a si mesmo... nos outros. Só quem se busca se pode encontrar. Muitos são os que andam perdidos... mas o amor implica uma saída de si, uma aceitação do outro como outro, não como alguém em quem posso (e julgo dever) replicar o que sou. Só quando me esqueço de mim posso descobrir a verdade do outro. Apenas o olhar dos que nos amam importa, porque só esse nos vê, só esse nos revela quem somos". 
"À solidão não se opõe a multidão, mas o amor. Aquilo de que alguém abandonado está à procura é de alguém próximo, não do aplauso de um monte de gente." 
"Aquele que quer ser feliz deve dar-se. Ser é amar e amar é dar-se. Ninguém pode ser nada se não na sua relação com os outros e com o mundo. O ser mais perfeito seria imperfeito se se fechasse em si mesmo e assim se reduzisse à sua própria individualidade. A vida é o dom de ser dom. Serve para se chegar à vida do outro. Para ser o que lhe falta... amando-o." 
"A sinceridade jamais pode ser a razão para magoar alguém. Ser sincero é também saber escolher o que dizer e o que calar. Não devemos dizer tudo quanto pensamos, mais ainda se não o tivermos pensado com honestidade e inteligência. O silêncio é parte essencial da verdade e da sinceridade". 
"Há boas paixões. São as que trabalham como um fermento. De forma pacata, pacífica e paciente. Animam, mas não dominam. Orientam, mas não decidem. Iluminam, mas não cegam... Por paixões comuns, há quem perca a cabeça, o coração e a alma. Uma paixão forte que se consente pode fazer com que a mais digna das pessoas se destrua... se consuma, não ficando senão as cinzas em que ardeu. 
"A verdadeira chama, aquela que nos ilumina, aquece e orienta, não é a das paixões, é a chama da vida. A vida ela própria, assim, simples e pobre na aparência. Aquela vida que tem consciência de que é, em si mesma, um dom. Uma luz. Um presente do divino. Uma presença divina. Não se trata de uma alegria de cumprir fantasias, antes sim da virtude suprema de saber apreciar os momentos da vida sem necessidade de ser sob a séria ameaça de a perder. Este é o único fogo que não consome".

São Columbano, abade

Nota biográfica:
       Nasceu na Irlanda na primeira metade do século VI e estudou ciências sagradas e profanas. Tendo abraçado a vida monástica, partiu para França, onde fundou muitos mosteiros que governou com austera disciplina. Obrigado a exilar-se, foi para Itália, onde fundou o mosteiro de Bobbio. Depois de ter dedicado tão intensa actividade para promover a vida cristã e religiosa do seu tempo, morreu no ano 615.

ORAÇÃO de coleta:
       Senhor, que reunistes maravilhosamente em São Columbano o zelo da pregação e o amor à vida monástica, concedei por sua intercessão que, imitando o seu exemplo, Vos amemos sobre todas as coisas e trabalhemos generosamente na dilatação do vosso reino. Por nosso Senhor Jesus Cristo que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Das Instruções de São Columbano, abade

A grande dignidade do homem está na semelhança com Deus

Moisés escreveu na lei: Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. Considerai, peço-vos, a transcendência desta afirmação. O Deus omnipotente, invisível, incompreensível, inefável, incomparável, criou o homem do pó da terra e enobreceu-o com a dignidade da sua imagem. Que é o homem comparado a Deus? Que é a terra comparada ao espírito? Porque Deus é espírito. Grande mercê que Deus tenha dado ao homem a imagem da sua eternidade e a semelhança da sua vida! A grande dignidade do homem está nesta semelhança com Deus, se se conserva.
Se ele praticar rectamente as virtudes infundidas na sua alma, será de facto semelhante a Deus. Devemos dar conta a Deus de todas as virtudes que em nós semeou no nosso estado original. É o que nos ensina com os seus preceitos. Este é o primeiro: Amar o Senhor com todo o nosso coração, porque Ele nos amou primeiro, desde o princípio e antes de existirmos. O amor de Deus é a renovação da sua imagem em nós. Ama a Deus quem guarda os seus mandamentos, como Ele diz: Se Me amais, guardai os meus mandamentos. E o seu mandamento é o amor mútuo, conforme aquela palavra: Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.
Mas o verdadeiro amor não se exprime apenas com palavras, mas com obras e em verdade. Devemos, portanto, restituir a Deus nosso Pai a sua imagem, não deformada mas perfeitamente conservada na santidade de vida, porque Ele é Santo; como está escrito: Sede santos, porque Eu sou santo. Devemos restituí-la na caridade, porque Ele é caridade, como afirmou São João: Deus é caridade. Devemos restituí-la na bondade e felicidade, porque Ele é bom e fiel. Não pintemos em nós imagens estranhas. Desenha imagens de um tirano quem é duro, iracundo e soberbo.
Por conseguinte, a fim de não introduzirmos em nós imagens tirânicas, o próprio Cristo grava em nós a sua imagem, dizendo: Dou-vos a minha paz, deixo-vos a minha paz. Mas, de que aproveita sabermos que a paz é boa, se não a conservamos bem? Com efeito, tudo o que é belo costuma ser muito frágil e as coisas mais preciosas requerem maior cautela e mais atenta vigilância. É muito frágil esta paz que se pode perder com uma palavra leviana e se destrói com a mais pequena ofensa feita a um irmão. De facto, nada é mais agradável aos homens do que falar e ocupar-se de coisas alheias, manter continuamente conversas ociosas e difamar os ausentes. Por isso, os que não podem dizer: O Senhor deu-me uma língua eloquente para que saiba dizer ao desanimado uma palavra de conforto, esses devem calar-se; e se quiserem falar, digam palavras de paz.

São Clemente I, Papa e Mártir

Nota biográfica:
       Clemente foi o terceiro sucessor de Pedro no governo da Igreja de Roma, no final do século I. Escreveu uma importante carta aos Coríntios para restabelecer entre eles a paz e a concórdia.

ORAÇÃO de coleta:
       Deus eterno e omnipotente, que em todos os Santos manifestais o vosso poder admirável, dai nos a graça de celebrar com alegria a festa de São Clemente, sacerdote e mártir de Cristo, que provou com o exemplo da sua vida a doutrina que pregava e confirmou com o testemunho da sua morte os mistérios que celebrava. Por Nosso Senhor.

Da Carta de São Clemente I, papa, aos Coríntios

Os dons de Deus são admiráveis
Irmãos, como são preciosos e admiráveis os dons de Deus! A vida na imortalidade, o esplendor na justiça, a verdade na liberdade, a fé na confiança, a continência na santidade: tudo isto está ao alcance da nossa inteligência. Que será então o que está preparado para aqueles que O esperam? Só o Criador e Pai dos séculos, o Santíssimo, só Ele conhece o seu número e a sua beleza. Lutemos, portanto, com denodado esforço para sermos contados no número dos que esperam n’Ele, a fim de sermos participantes dos dons prometidos.
Como alcançar isto, irmãos? Podemos alcançá-lo, se o nosso pensamento estiver arraigado em Deus pela fé, se procurarmos com diligência o que Lhe é agradável e aceite, se praticarmos o que estiver de acordo com a sua vontade santa e seguirmos o caminho da verdade, afastando de nós toda a injustiça e perversidade, toda a avareza e rivalidade, toda a malícia e engano.
O caminho, irmãos, em que encontramos a nossa salvação é Jesus Cristo, sumo sacerdote das nossas oblações, advogado e protector da nossa fragilidade. Por Ele fixamos o nosso olhar nas alturas do Céu; por Ele contemplamos, como num espelho, a face imaculada e soberana de Deus; por Ele se abrem os olhos do nosso coração; por Ele se abre para a luz a nossa inteligência obscurecida; por Ele o Senhor quis dar nos a saborear o conhecimento imortal, Ele que, sendo o esplendor da majestade de Deus, é tão superior aos Anjos quanto mais excelente é o nome que recebeu em herança.
Por isso, irmãos, militemos com toda a valentia sob as suas ordens justíssimas. Os grandes não podem subsistir sem os pequenos nem os pequenos sem os grandes. Em todas as coisas há uma certa mistura e daí a sua utilidade. Sirva nos de exemplo o nosso próprio corpo. A cabeça nada é sem os pés, nem os pés sem a cabeça; os mais pequenos membros do nosso corpo são necessários e úteis a todo o corpo; de facto, todos os membros cooperam e se subordinam mutuamente.
Conservemos pois o nosso corpo íntegro em Jesus Cristo e submeta se cada um ao seu próximo conforme o dom que por graça lhe foi concedido. O forte cuide do fraco e o fraco respeite o forte; o rico socorra o pobre e o pobre louve o Senhor por lhe ter dado quem remedeie a sua necessidade. O sábio manifeste a sua sabedoria não com palavras mas com boas obras; o humilde não dê testemunho de si próprio, mas deixe que os outros o façam por ele. Portanto, já que recebemos d’Ele todos estes dons, devemos dar Lhe graças por todos eles. A Ele glória pelos séculos dos séculos. Amen.

domingo, 22 de novembro de 2015

JOSÉ FRAZÃO CORREIA - A FÉ VIVE DE AFETO

JOSÉ FRAZÃO CORREIA (2013). A Fé vive de afeto. Variações sobre um tema vital. Prior Velho: Paulinas Editora. 127 páginas.
       No passado dia 14 de novembro de 2015, o Pe. José Frazão Correia, SJ (sacerdote jesuíta) foi o conferencista escolhido para orientar a reflexão/formação na Assembleia do Clero da Diocese de Lamego, que se realizou no Seminário Maior de Lamego. A apresentação do conferencista ficou a cargo de D. António Couto, Bispo de Lamego, sublinhando que o Pe. José era um teólogo promissor, com um cuidado e uma atenção muito poética dos textos publicados.
       O Pe. José Frazão é o atual Provincial dos Jesuítas. Natural de Leiria, de Alqueitão da Serra. Nasceu em 1970. Entrou para a Companhia de Jesus em 1995 e foi ordenado sacerdote em 2004.
O livro que agora sugerimos veio parar-nos às mãos, uns dias antes, disponível na Gráfica de Lamego (livraria religiosa da Diocese). Como seria o conferencista, valeria a pena ler alguma coisa por ele escrita, ou pelo menos esta era uma curiosidade acrescida.
       Depois da conferência na Assembleia do Clero,  “O Padre e o entusiasmo na evangelização”, cresceu o interesse em ler esta obra poética-teológica.
(Pe. José Frazão Correia no Seminário Maior de Lamego - Assembleia do Clero da Diocese de Lamego)

       O mundo em que vivemos relativizou a fé ou pelo menos o cristianismo. A Igreja não ocupa todo o espaço do mundo. E ainda bem. Pois Jesus Cristo também não ocupa todo o espaço. Jesus possibilita que o espaço e o tempo seja ocupado por outros, doentes, pecadores, estrangeiros. A Igreja não precisa de se impor, pela assunção de tradições e regalias, mas deve ser ponte para acolher a Palavra de Deus, para que as pessoas possam encontrar em Jesus Cristo a presença amorosa de Deus.
        A história de vida de Jesus, a Sua existência corpórea, encarnada, no tempo e no espaço, permite encontrar Deus. Na palavra proferida, nos gestos assumidos, na delicadeza, no trato com pessoas concretas, Jesus potencia o que há de melhor na humanidade, abre para a confiança. O cristianismo não é fácil nem resolve de uma assentada os problemas todos, é bênção e oportunidade de dar sentido a todas as situações da vida, seja benéficas ou diabólicas.
       Vale a pena ler algumas expressões que surgem ao longo do livro, para melhor perceber o texto e o contexto, e a prosa que se transforma em poema:
"Cada homem e cada mulher são oferecidos e impostos à existência. Hoje, talvez mais do que nunca, tornamo-nos responsáveis pelo nosso próprio património e destino, pelos nossos desejos, interrogações e passos... e a felicidade parece desenhar-se mais como cidade a sonhar e a construir do que paraíso perdido a lamentar... Não está tudo dado à partida, porque a partida é a possibilidade promissora de um caminho a fazer, de um sentido a fazer sensato".
"Graça e custo, honra e ónus são aa existência e a liberdade, desde o nascimento, lugar onde o essencial se prefigura e quase tudo está, ainda, por configurar. Todos começamos aqui. Todos nos iniciamos assim., pela bênção dos inícios. Admiravelmente, os dias da nossa vida começam tão promissores. E tão frágeis. Cada bebé que venha a este mundo é apresentado à luz como dádiva - é dado à luz. Por isso, poderá viver de gratidão, honrando para sempre a sua origem e o seu património".
"Com a graça, vem o custo. O que fora recebido, afinal, tem de ser conquistado, num espaço vital que se desenha entre a gratuidade e o custo, herança e invenção, chamamento e resposta..."
"Para nos implicar, Deus não afeta menos do que a totalidade do que somos - corpo, afetos, desejos, inteligência, liberdade, imaginação, vontade - e não nos pediria menos do que começarmos por ser totalmente humanos! 
"Deus fez-se homem, assumiu a carne humana ou, dito de outra forma, a história efetiva daquele homem de Nazaré foi reconhecida como pertença real do Filho de Deus entre nós, para nosso bem".
"Gera-se a fé em Jesus de Nazaré como se gera a vida de cada ser humano: antes de mais, na confiança reconhecida, acolhida e correspondida... A nossa humanidade vem à luz e estrutura-se saudavelmente em encontros (o primeiro, do bebé com a mãe e o pai) e por meio de encontros que têm a confiança como marca elementar". 
"A fé dá-se no terreno existencial do mundo quotidiano, corpóreo e sensível, ferial e transitório, complexo e fragmentário, contingente e ambíguo. Não pode, por isso, abstrair-se da realidade concreta daqueles que creem, com as suas histórias e os seus desejos, as suas fragilidades e paixões, a sua graciosidade e as suas desgraças, as suas feridas e sonhos".
"A abundância da graça divina, exposta no corpo do Filho, tem a força de atravessar todos os lugares demasiado apertados e perigosos da existência, reconciliando, salvaguardando e incrementando todas as possibilidades do humano". 
"Deu perdeu o lugar nos lugares do nosso quotidiano... A sua passagem não invade o nosso espaço, mas cede-nos o lugar. A sua voz não abafa as palavras: dá-nos a palavra e a arte de dizer. A sua promessa não nos cancela o presente, porque é no presente que nos cura a imaginação e nos alarga o horizonte. A sua presença, como de quem passa, diz-nos A-Deus".
"O Santo não desdenha sentar-se à mesa de pecadores e mulheres de má vida. O Verbo cala-se na boca de uma criança que ainda tem de aprender a falar e na mudez de um condenado que já não tem direito à palavra... A vida passa pela dura prova da morte. Atravessa, por isso, com pés de barro, os altos e os baixos da condição humana, a sua graciosidade e as suas desgraças, as suas linguagens e a sua mudez, a sua fecundidade e a sua esterilidade, a sua justiça e a sua impiedade, a sua fé e a sua desconfiança. Memória e promessa, graça e esforço, silêncio e palavra, confiança e reconhecimento do dom da existência reencontram-se na história do filho de Deus entre nós. Não esqueçamos: é na carne e no sangue da nossa humanidade que o encontro entre Deus e cada homem e cada mulher se dá". 
"Só Deus pode ser amado com todo o coração, porque só Ele pode garantir-nos a vida e reconhecer-nos plenamente no mistério que somos. Porque Ele é a origem desse som que não podemos dar-nos a nós mesmos. E, porque é Ele a plenitude e o reconhecimento do que, com esse dom, pudermos e soubermos dizer"

sábado, 21 de novembro de 2015

Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo - 2015

       1 – Deus liberta-nos para vivermos como filhos, constituindo-nos herdeiros, Sua família, abençoando-nos, reconhecendo-nos irmãos de Jesus Cristo, em Quem recebemos a plenitude da redenção. Com Ele a eternidade fica ao nosso alcance. Participamos da santidade de Deus que Se faz Um connosco, Um de nós. Só há verdadeira fraternidade quando nos considerarmos como iguais, da mesma carne e do mesmo sangue, com a mesma origem e o mesmo fim (destino). Em Jesus Cristo, Deus abaixa-Se, coloca-Se, como dom, ao mesmo nível que nós, prova o sofrimento e a morte, a fragilidade e a finitude, a alegria e a festa, o encontro e a partilha que comunica e gera vida em nós e no mundo que nos circunda.
       Não acima. Não à margem. Não indiferente. Não alheio ou insofrível. Não distante nem juiz iníquo. Não intocável ou sobranceiro à humanidade. Um de nós, Um connosco. Entra na história e no tempo. Caminha connosco. Acompanha-nos. Vive. Ama. Sofre. Sente. Sorri. Cansa-Se. Tem fome e sede e deseja matar a fome e a sede e encontrar o sentir das pessoas, dando sentido à vida. Alegra-Se. Chora. Comove-Se e envolve-Se. Deus, em Jesus Cristo, não é (somente) um Ser Espiritual, tem ROSTO, e carne e corpo e vida. Deixa-Se ver e ouvir, deixa-Se tocar e perceber, deixa-Se amar e odiar, deixa-Se perseguir e matar.
       E ainda assim Aquele Deus que em Jesus Se torna tão próximo, continua a ser Deus. Na história de Jesus, Deus deixa-Se ver. Deixa-Se tocar. Podemos segui-l'O. A divindade como a realeza de Deus é caracterizada pelo abaixamento. É uma soberania de amor, a partir de baixo, a partir de dentro. Deus não Se impõe. Deus propõe-Se, expõe-Se. Sujeita-Se às coordenadas do espaço e do tempo. Sujeita-se a ser rejeitado, perseguido e morto.
       2 – A realeza de Cristo, que hoje celebramos, está despida de poder e de todas as armaduras que pesam, distanciam, afastam e amedrontam. A coroa não tem pérolas ou esmeraldas. É uma coroa de espinhos, tecida com os fios do amor de Deus para connosco. Para Ele a nossa vida vale. Cada vida vale. Só não vale matar – tirar a vida – em nome d'Ele que nos dá a Sua própria Vida. Ele dá a Sua vida, para que a nossa seja abundante.
       Não se levanta para matar ou destruir. Oferece-Se como sacrifício. Dá a Sua vida para que nenhuma vida dada seja tirada ou desperdiçada. Puro dom, entrega total. Até ao fim. Até à última gota de sangue. Não se vislumbram grandezas. Nem exército, nem segurança pessoal, nem palácio, nem cetro. Somente Jesus, somente Ele, com a Sua vida, dando-Se. A realeza está no olhar, no falar, no tocar, no chamar, no amar, no servir. A realeza de Jesus está no encontro, no perdão, na bênção. A realeza de Jesus exprime-se pela proximidade e pela compaixão. Por nós.
       Pilatos fica intrigado com Jesus. Pergunta-lhe se Ele é Rei. Jesus responde-lhe: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui». E logo acrescenta: «Sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade».
       A busca do poder é uma característica (ou tentação) muito humana, mas que por vezes desumaniza. A manutenção do poder a qualquer custo, em qualquer situação, não com o ensejo de servir e de melhorar o mundo, mas como possibilidade de subjugar vontades e pessoas, em benefício pessoal, para autossatisfação, tirando proveitos à custa do trabalho e sacrifício de outros, torna o poder preservo.
       Não seja assim entre vós. Dizia Jesus aos seus discípulos, preparando-os para um tempo novo em que eles se tornassem artífices dos novos céus e nova terra. Quem entre vós quiser ser o primeiro seja o servo de todos. Será como o Filho do Homem que veio não para ser servido mas para servir e dar a vida por todos. É um Rei que parte (para a guerra) para morrer em vez dos seus soldados, evitando que se percam. Ele não foge, não Se esconde, não envia outros em Seu lugar, não permite que outros “paguem” por Ele. Quem buscais? Jesus de Nazaré? Sou Eu mesmo!
       3 – Só Deus é Deus e ainda bem. Jesus Cristo como Rei do Universo remete-nos para uma realeza de outra ordem, não é deste mundo, mas ainda assim é realeza, soberania. E ainda bem, pois desta forma não se poderá subjugar a interesses egoístas e livra-nos de despotismos prolongados no tempo. Se Deus é Deus ninguém poderá ocupar esse lugar. Derrubando Deus, privatizando-O, remetendo-O para um lugar secundário e acessório, o perigo real, e que se concretizou em diferentes períodos da história, de pessoas, instituições, ideologias ocuparem o Seu lugar, submetendo tudo e todos em benefício de uns poucos.
       Em Jesus Cristo vislumbra-se a realeza de Deus, como dom a favor da humanidade. "Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído".
       A vinda de Deus é garantia que dá sentido à nossa existência e esperança que nos convoca para a transformação do mundo. Saber que há Alguém que assegura a nossa vida para além do tempo e da história, além das injustiças e sofrimentos atuais, dá-nos coragem para prosseguir caminho. O bem vencerá, e a alegria desta certeza, no encontro com Jesus Cristo, permite encontrar forças para um compromisso permanente, pois em todo o bem que façamos nos encontramos com Deus e realizamos a nossa condição humana.
       Com efeito, "Jesus Cristo é a Testemunha fiel, o Primogénito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra. Àquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus seu Pai, a Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amen. Ei-l’O que vem entre as nuvens, e todos os olhos O verão, mesmo aqueles que O trespassaram; e por sua causa hão de lamentar-se todas as tribos da terra. Sim. Ámen. «Eu sou o Alfa e o Ómega», diz o Senhor Deus, «Aquele que é, que era e que há de vir, o Senhor do Universo».
       4 – Peçamos ao Senhor a humildade para nos submetermos à Sua soberania de amor e conciliação, a sabedoria para percebermos a Sua vontade, a audácia para prosseguimos na luta pelo bem, pela justiça e pela verdade, transparecendo-O nas nossas palavras e nos nossos gestos.
       "Deus eterno e omnipotente, que no vosso amado Filho, Rei do universo, quisestes instaurar todas as coisas, concedei propício que todas as criaturas, libertas da escravidão, sirvam a vossa majestade e Vos glorifiquem eternamente" (oração de coleta).
       A glória de Deus é o homem vivo (Santo Ireneu). Glorificamos Deus na nossa carne, no nosso corpo, na nossa vida, na história, neste momento que nos é dado viver. Não amanhã. Não ontem. É hoje, aqui e agora (hic et nunc). Não com o mundo inteiro. Não com todas as pessoas. É hoje, com as pessoas que estão aqui, que me rodeiam, que Deus me deu para cuidar. Começa aqui e agora. Não depois. Não quando tiver mais tempo. Não quando as condições forem mais favoráveis. Não quando houver mais recursos. É agora que Deus me chama, me convoca, me provoca e me desafia. É agora que Deus me envia. Agora, não logo ou quando tiver mais tempo. É agora que sou discípulo e, simultaneamente, missionário.
       O mundo inteiro é já o meu coração, a minha casa. É a minha disponibilidade para escutar e para a acolher Deus. Para escutar e acolher aquele que vem, aquele que chega, cruzando-se comigo, em casa, na rua, no trabalho, no local de lazer ou em qualquer lugar que os nossos passos e os nossos olhares e os nossos corações e a nossa vida se cruzarem. Começa agora. Não importa deitar contas à vida, ao passado, ao que foi ontem, ainda que o ontem seja integrado hoje. Não amanhã com as possibilidades e os riscos que vêm lá, ainda que a prudência e a preparação nos ajudem quando o futuro se tornar presente. Somos hoje, PRESENTE de Deus para o mundo, para este tempo, para as pessoas que podemos ajudar. O mundo inteiro está aí, o mundo inteiro é a pessoa que posso cuidar, agora, porque nesta pessoa, o meu filho, a minha mãe, o meu vizinho, o meu marido ou a minha esposa, o meu colega de trabalho ou a minha inimiga de estimação, é o mundo inteiro, o tempo todo, o espaço completo, que tenho para amar Deus, para transformar a vida, o mundo, para criar os novos céus e a nova terra. É assim Jesus, em cada olhar, em cada encontro. Com cada pessoa. Há mais pessoas. Mas é esta que tenho de amar, é nesta que tenho de encontrar Deus, é a esta que tenho de dar Deus.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (B): Dan 7, 13-14; Sal 92 (93); Ap 1, 5-8; Jo 18, 33b-37.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Dedicação da Sé de Lamego - 20 de novembro de 2015

       1 – No dia 20 de novembro de 1776, foi sagrada a Catedral de Lamego, pelo então Bispo da Diocese, D. Manuel Pereira de Vasconcelos. D. Manuel de Vasconcelos nasceu a 1 de março de 1731, em Castro Daire e faleceu a 29 de janeiro de 1786, está sepultado na Catedral. Foi ordenado sacerdote em 5 de outubro de 1756; a 5 de março de 1770 assumiu a mitra da Diocese de Miranda, para em 10 de novembro de 1772 ser escolhido para a Diocese de Lamego, tomando posse a 29 de setembro de 1773 (Gonçalves da Costa (1986). História do Bispado de Lamego. Volume 5, pp 63-75).
       A Dedicação da Catedral de Lamego habitualmente celebrava-se no domingo a seguir ao dia 20 de novembro, coincidindo com a Solenidade de Cristo Rei. Era o Dia da Igreja Diocesana. Desde 2014, que passou a celebrar-se apenas o Dia da Catedral, avançando o Dia da Família Diocesana para o mês de junho, e a apresentação do Plano Pastoral Diocesano para o final de setembro ou início de outubro. Este ano, celebra-se no dia próprio.
       A Dedicação da Catedral sublinha a unidade à volta da sede episcopal, ou melhor, à volta do Sucessor dos Apóstolos, que preside àquela porção do Povo de Deus, no caso concreto, D. António José da Rocha Couto.
       A dedicação de um altar e/ou de uma Igreja assinala e visualiza o fundamento de determinada comunidade crente, referencia um espaço especial dedicado a Deus, para uma maior proximidade, recolhimento e intimidade do homem com Deus, e para a comunidade se reunir e viver como Igreja.
       2 – Os espaços sagrados aproximam-nos da nossa dimensão espiritual e transcendental. Somos muito mais do que o que comemos, vestimos e possuímos. A nossa vida estende-se, alarga-se e aprofunda-se para lá do tempo, para lá do espaço geográfico que percorremos ao longo dos nossos dias.
       Há um santuário em cada um de nós. Um santuário sagrado, dedicado, inviolável, para nos encontrarmos como pessoas, para encontrarmos a nossa origem e o nosso destino: Deus. Mas, além disso, como seres humanos, precisamos de espaço (e de tempos) para o encontro com os outros. Podemos acentuar a oração individual, e, dessa forma, também a fé. Contudo, encontrar-me com Deus implica que me encontre com os outros. Unir-me a Deus, pela oração e meditação, desemboca na união aos outros. Ou então a minha união com Deus não é nem séria nem autêntica nem transcendental, será apenas uma apropriação egoísta, temporária, possessiva e diabólica. O que me separa ou me afasta dos outros, o que me isola e me faz estar contra ou apesar dos outros, não vem de Deus. De todo.
       A Encarnação de Deus, com Jesus Cristo, faz disso expressão, sinal, sacramento: a eternidade, a transcendência, a divindade, o infinito, tornam-se acessíveis e percetíveis ao ser humano. Em Jesus, Deus assume a condição limitada, finita, temporal, submetendo-se, por amor, às coordenadas espácio-temporais. A mais sublime adoração é realizada em espírito e verdade. Mas, porquanto, não sendo nem anjos nem puros seres espirituais, situamo-nos perante os outros e perante a história, num determinado tempo e num espaço (físico) concreto. Assim também a nossa relação com Deus, situa-nos na história humana, onde Ele nos procura e nos encontra e onde Se deixa procurar e encontrar por nós.
       3 – Quando não houver espaços sagrados, nem tempos dedicados, deixamos de ser o que somos: pessoas, seres em relação com um mundo que vai além do nosso olhar. Há um mundo interior que nos protege dos outros, quando necessário, e que fundamenta a nossa individualidade, melhor, a nossa identidade. Esta forja-se em dois movimentos: o que nos diferencia e o que nos aproxima dos outros. Somos o que somos no confronto com o que os outros são. Se só existíssemos nós, não saberíamos o que somos, ou quem somos, ou o sentido da nossa estada neste mundo.
       Jesus sobe ao Templo de Jerusalém, na cidade santa, imagem evocativa da Jerusalém celeste, a mais santa das moradas do Altíssimo, e constata que o Templo erigido para honrar a Deus e aproximar as pessoas, afinal é usado para desonra de Deus, vendendo-O e negociando-O aos melhores preços (cf. Jo 2, 13-22; Lc 19, 45-48. O texto de São Lucas é proposto para Evangelho deste dia 20 de novembro de 2015, sexta-feira da XXXIII Semana do Tempo Comum). Ali se praticam todo o tipo de maquinações e injustiças, formas de ganhar mais, exigindo a quem tem menos, mas cuja fé os torna generosos muito para lá das suas possibilidades.
       A reação de Jesus é inesperada. Os que por ali andam já nem estranham. Também nós nos habituamos à realidade que nos circunda, à violência, à corrupção, ao sofrimento, à morte (notícias horripilantes, é o pão nosso de cada dia, já nada nos choca). Aceitamos porque não há nada a fazer ou porque sempre foi assim, pelo menos desde que nos lembramos. Jesus escandaliza-se, faz um chicote, expulsa os vendedores e cambistas, os vendilhões e os seus animais, derruba as mesas e o dinheiro dos cambistas e diz aos que vendem as pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio».
       Sob tensão, Jesus mantém a delicadeza, tendo o cuidado de ordenar aos que vendem as pombas para as retirarem daquele espaço. Os judeus presentes, os que negoceiam, os que maquinam, os que se entranharam naquele espetáculo perguntam a Jesus: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?» E é então que Jesus faz a ponte para outro Templo: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Os judeus, porém, não percebem que Jesus lhes fala do Seu próprio Corpo, como Templo no qual somos resgatados e no qual nos encontramos como irmãos.

       4 – O que nos distingue dos outros seres vivos é o nosso mundo interior, a dimensão espiritual, a capacidade de amar e de acolher o amor, a capacidade de refletir a vida, o sofrimento e a morte, abstraindo-nos do que nos rodeia. Jesus, nesta como em outras ocasiões, aponta para esta prioridade essencial, a intimidade com Deus em Quem encontra mais intensidade para Se fazer próximo de nós.
       Desengane-se, todavia, quem quiser fazer da religião uma dimensão meramente espiritual e separada da vida, do mundo, do tempo, da história, do espaço. Tudo o que em nós é espiritual, está ligado à terra: somos um corpo espiritual. Deus encarnou. Não queiramos desencarnar e viver sobre as nuvens. “Peço-te ó Pai, não que os retires do mundo mas que os guardes do mal”.
       Tensão saudável esta entre a vida interior e, para ser autêntica e humana, a sua expressão exterior. Eu cá tenho a minha fé. Eu para rezar não preciso de ir à Igreja, rezo em casa. Deus está em todo o lado. Confessar-me? Confesso-me diretamente a Deus, afinal só Ele precisa de saber os meus pecados. Padrinhos? Que é que a Igreja tem a ver com isso? Eu escolho os que entendo serem os melhores. Ir à Missa? "Ouço-a" na televisão. Aliás vejo a da RTP e depois a da TVI e são Missas tão lindas! Gosto tanto de ir a Fátima, mas não me puxa para ir à “nossa” Igreja, ver as mesmas caras…
       Estas são algumas formas de espiritualizarmos e individualizarmos a fé e a religião.
       Fazer da religião um acontecimento sociológico, com um conjunto de ritos, de práticas, de tradições, oportunidade de encontro, de festa, de convívio, sem a fé, sem a ligação a Deus, sem a experiência pessoal de encontro com Jesus, é redutor. Mas dispensar a dimensão comunitária (social) da fé, é descarná-la. Ora, Deus veio ao mundo e assumiu um CORPO humano, sujeito ao tempo e ao espaço. Um corpo – a Sua vida por inteiro – que Ele entregou por nós. Encontramo-nos, descobrimo-nos e amamo-nos no corpo que somos, integrando o Corpo de Cristo que é a Igreja.
       Problema do nosso tempo é que temos menos casa e menos igreja. Atarefados com mil e uma coisas, não nos resta muito tempo para estarmos em casa e, sobretudo, em família. Do mesmo jeito, vamos à Igreja se não há mais nada para fazer. Se vêm uns amigos de Leiria, ou se o almoço é de festa, deixamos a Igreja, pois pode esperar. Faltando a família e a comunidade (a casa e a Igreja), pouco nos resta para vivermos saudavelmente. Para os descrentes, para que não fiquem eternamente ensimesmados, frequentem espaços (e tempos) de encontro, de descoberta, de partilha…

       5 – Vale a pena reler e meditar um texto do apóstolo São Paulo (1 Cor 3, 9c-11). O Apóstolo incentiva-nos a edificar o Corpo de Cristo, Verdade do amor de Deus em nós:
«Vós sois edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, eu, como sábio arquiteto, coloquei o alicerce e outro levanta o edifício. Veja cada um como constrói: ninguém pode colocar outro alicerce além do que está posto, que é Jesus Cristo. Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo e vós sois esse templo».
       Somos o templo que Deus habita. Se o alicerce é Jesus Cristo, cada um de nós concorrerá para a construção do Corpo completo de Cristo, para o Seu templo sagrado, a Igreja. O edifício apoia-se e identifica-Se com Ele. Por aqui se conclui facilmente que a dimensão espiritual nos compromete com os outros, na imitação da Sua postura e da Sua opção preferencial pelos mais frágeis.
       6 - Associando-nos à Dedicação da Catedral de Lamego, rezemos pelo nosso Bispo, D. António Couto, e por todos aqueles que estiveram ao serviço da Diocese de Lamego como pastores, na missão episcopal, sacerdotal, religiosa ou laical. A comunhão com a Igreja Católica concretiza-se e traduz-se na comunhão com o Bispo Diocesano. A Sede Episcopal de Lamego é a nossa casa-mãe, visualização da Igreja-Corpo de Cristo, Povo de Deus em terras de Lamego.

(Texto redigido a partir da nossa
que ocorre a 9 de novembro. Texto de 2014)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

BENTO XVI sobre SANTA ISABEL DA HUNGRIA


Queridos irmãos e irmãs,

Hoje gostaria de vos falar de uma das mulheres da Idade Média que suscitou maior admiração: trata-se de Santa Isabel da Hungria, chamada também Isabel de Turíngia.

Nasceu em 1207; os historiadores debatem sobre o lugar. Seu pai era André II, rico e poderoso rei da Hungria que, para fortalecer os laços políticos, casou com a condessa alemã Gertrudes de Andechs-Merânia, irmã de Santa Edviges, que era esposa do duque da Silésia. Isabel viveu na Corte húngara só os primeiros quatro anos da sua infância, com uma irmã e três irmãos. Gostava dos jogos, da música e da dança; recitava fielmente as suas preces e já prestava atenção especial aos pobres, os quais ajudava com uma boa palavra ou com um gesto carinhoso.

A sua infância feliz foi bruscamente interrompida quando, da longínqua Turíngia, chegaram alguns cavaleiros com a finalidade de a levar para a sua nova sede na Alemanha central. Com efeito, segundo a tradição dessa época, o seu pai decidiu que Isabel se tornasse princesa da Turíngia. O landgrave ou conde dessa região era um dos soberanos mais ricos e influentes da Europa no início do século XIII, e o seu castelo era centro de magnificência e cultura. Mas por detrás das festas e da aparente glória escondiam-se as ambições dos príncipes feudais, muitas vezes em guerra entre si e em conflito com as autoridades reais e imperiais. Neste contexto, o landgrave Hermann acolheu de bom grado o noivado entre seu filho Ludovico e a princesa húngara. Isabel partiu da sua pátria com um rico dote e um grande séquito, inclusive com as suas servas pessoais, duas das quais foram suas amigas fiéis até ao fim. Foram elas que nos deixaram preciosas informações sobre a infância e a vida da Santa.
Após uma longa viagem, chegaram a Eisenach, para depois subirem à fortaleza de Wartburg, o castelo maciço acima da cidade. Ali celebrou-se o noivado entre Ludovico e Isabel. Nos anos seguintes, enquanto Ludovico aprendia a profissão de cavaleiro, Isabel e as suas companheiras estudavam alemão, francês, latim, música, literatura e bordado. Embora o noivado tenha sido decidido por motivos políticos, entre os dois jovens nasceu um amor sincero, animado pela fé e pelo desejo de cumprir a vontade de Deus. Aos 18 anos, Ludovico, depois da morte do pai, começou a reinar na Turíngia. Mas Isabel tornou-se objeto de murmúrios, porque o seu modo de se comportar não correspondia à vida cortesã. Assim, também a celebração do matrimónio não foi pomposa e as despesas para o banquete foram parcialmente destinadas aos pobres. Na sua profunda sensibilidade, Isabel via as contradições entre a fé professada e a prática cristã. Não suportava os comprometimentos. Certa vez, ao entrar na igreja na solenidade da Assunção, tirou a coroa, depô-la diante da cruz e permaneceu prostrada no chão com o rosto coberto. Quando a sogra a repreendeu por aquele gesto, ela retorquiu: «Como posso eu, criatura miserável, continuar a trazer uma coroa de dignidade terrena, quando vejo o meu Rei Jesus Cristo coroado de espinhos?». Do mesmo modo como se comportava diante de Deus, também o fazia em relação aos súbditos. Entre os Ditos das quatro servas encontramos este testemunho: «Não consumia alimentos se antes não estivesse certa de que provinham das propriedades e dos bens legítimos do marido. Enquanto se abstinha dos bens conquistados ilicitamente, esforçava-se também por indemnizar aqueles que tinham suportado violência» (nn. 25 e 37). Um verdadeiro exemplo para todos aqueles que desempenham funções de guia: o exercício da autoridade, a todos os níveis, deve ser vivido como serviço à justiça e à caridade, na busca constante do bem comum.
Isabel praticava assiduamente as obras de misericórdia: dava de beber e de comer a quem batia à sua porta, oferecia roupas, pagava as dívidas, cuidava dos enfermos e enterrava os mortos. Quando descia do seu castelo, ia muitas vezes com as suas servas às casas dos pobres, levando pão, carne, farinha e outros alimentos. Entregava pessoalmente a comida e controlava com atenção as roupas e os leitos dos pobres. Este comportamento foi referido ao marido, que não só não se lamentou, mas respondeu aos acusadores: «Enquanto ela não vender o meu castelo, estou feliz!». É neste contexto que se insere o milagre do pão transformado em rosas: quando Isabel ia pelo caminho com o seu avental cheio de pão para os pobres, encontrou o marido que lhe perguntou o que estava a levar. Ela abriu o avental e, em vez de pão, apareceram rosas magníficas. Este símbolo de caridade está presente muitas vezes nas representações de Santa Isabel.

O seu matrimónio foi profundamente feliz: Isabel ajudava o cônjuge a elevar as suas qualidades humanas a nível sobrenatural, e ele, em contrapartida, protegia a esposa na sua generosidade aos pobres e nas suas práticas religiosas. Cada vez mais admirado pela grande fé da sua esposa, Ludovico, referindo-se à sua atenção aos pobres, disse-lhe: «Amada Isabel, foi Cristo que lavaste, alimentaste e cuidaste». Um claro testemunho do modo como a fé e o amor a Deus e ao próximo fortalecem a vida familiar e tornam ainda mais profunda a união matrimonial.

O jovem casal encontrou apoio espiritual nos Frades Menores que, a partir de 1222, se difundiram na Turíngia. Entre eles, Isabel escolheu frei Rogério (Rüdiger) como diretor espiritual. Quando ele lhe narrou a vicissitude da conversão do jovem e rico comerciante Francisco de Assis, Isabel entusiasmou-se ulteriormente no seu caminho de vida cristã. A partir desse momento, decidiu-se ainda mais a seguir Cristo pobre e crucificado, presente nos pobres. Mesmo quando nasceu o primeiro filho, seguido depois por outros dois, a nossa Santa nunca descuidou as suas obras de caridade. Além disso, ajudou os Frades Menores a construir em Halberstadt um convento do qual frei Rogério se tornou superior. Assim, a direcção espiritual de Isabel passou para Conrado de Marburgo.

Uma dura prova foi o adeus ao marido, no final de Junho de 1227, quando Ludovico IV se associou à cruzada do imperador Frederico II, recordando à esposa que se tratava de uma tradição para os soberanos da Turíngia. Isabel respondeu: «Não te impedirei. Entreguei-me totalmente a Deus e agora devo dar-lhe também a ti». Porém, a febre dizimou as tropas e o próprio Ludovico adoeceu e faleceu com 27 anos em Otranto, antes de embarcar, em Setembro de 1227. Quando recebeu a notícia, Isabel ficou tão amargurada que se retirou em solidão, mas depois, fortalecida pela oração e consolada pela esperança de o rever no Céu, recomeçou a interessar-se pelos assuntos do reino.
Contudo, outra prova esperava-a: o seu cunhado usurpou o governo da Turíngia, declarando-se autêntico herdeiro de Ludovico e acusando Isabel de ser uma mulher piedosa mas incompetente no governo. A jovem viúva, com os três filhos, foi expulsa do castelo de Wartburg e pôs-se em busca de um lugar onde se refugiar. Só duas servas permaneceram ao seu lado, a acompanharam e confiaram os três filhos aos cuidados dos amigos de Ludovico. Peregrinando pelas aldeias, Isabel trabalhava onde era acolhida, assistia os doentes, fiava e costurava. Durante este calvário suportado com grande fé, com paciência e dedicação a Deus, alguns parentes, que tinham permanecido fiéis a ela e consideravam ilegítimo o governo do cunhado, reabilitaram o seu nome. Assim Isabel, no início de 1228, pôde receber uma renda apropriada para se retirar no castelo de família em Marburgo, onde habitava também o seu diretor espiritual, frei Conrado. Foi ele que referiu ao Papa Gregório IX o seguinte acontecimento: «Na Sexta-Feira Santa de 1228, pondo as mãos no altar da capela da sua cidade de Eisenach, onde tinha acolhido os Frades Menores, na presença de alguns frades e familiares, Isabel renunciou à própria vontade e a todas as vaidades do mundo. Ela queria renunciar também a todas as posses, mas eu desaconselhei-a por amor aos pobres. Pouco tempo mais tarde, construiu um hospital, recolheu doentes e inválidos e serviu à sua mesa os mais miseráveis e desamparados. Quando a repreendi por estes gestos, Isabel respondeu que dos pobres recebia uma especial graça e humildade» (Epistula magistri Conradi, 14-17).

Podemos entrever nesta afirmação uma certa experiência mística, semelhante à que viveu São Francisco: com efeito, no seu Testamento o Pobrezinho de Assis declarou que, servindo os leprosos, aquilo que antes era amargo se transformou em docilidade da alma e do corpo (cf. Testamentum, 1-3). Isabel transcorreu os últimos três anos no hospital por ela fundado, servindo os doentes e velando sobre os moribundos. Procurava desempenhar sempre os serviços mais humildes e os trabalhos mais repugnantes. Ela tornou-se aquela que poderíamos definir uma mulher consagrada no meio do mundo (soror in saeculo) e, com outras suas amigas vestidas de hábitos cinzentos, formou uma comunidade religiosa. Não é por acaso que é Padroeira da Terceira Ordem Regular de São Francisco e da Ordem Franciscana Secular.

Em novembro de 1231 foi atingida por uma febre forte. Quando a notícia da sua enfermidade se propagou, muitas pessoas acorreram para a ver. Depois de cerca de dez dias, pediu que as portas fossem fechadas, para permanecer sozinha com Deus. Na noite de 17 de novembro adormeceu docilmente no Senhor. Os testemunhos sobre a sua santidade foram tão numerosos e tais que, só quatro anos mais tarde, o Papa Gregório IX proclamou-a Santa e, nesse mesmo ano, foi consagrada a bonita igreja construída em sua honra em Marburgo.

Estimados irmãos e irmãs, na figura de Santa Isabel vemos como a fé e a amizade com Cristo criam o sentido da justiça, da igualdade de todos, dos direitos dos outros, e criam o amor e a caridade. E desta caridade nascem inclusive a esperança e a certeza de que somos amados por Cristo, e que o amor de Cristo nos espera, tornando-nos assim capazes de imitar Cristo e de O ver nos outros. Santa Isabel convida-nos a redescobrir Cristo, a amá-lo, a ter fé e deste modo a encontrar a verdadeira justiça e o amor, assim como a alegria de que um dia seremos imersos no Amor divino, na alegria da eternidade com Deus. Obrigado!

PAPA BENTO XVI, AUDIÊNCIA GERAL